Após meses de negociações, desistências, mudanças de partido e disputas internas, a corrida pelo Governo de Minas Gerais chega à campanha oficial com 11 candidaturas definidas. Entre os nomes estão o atual governador Mateus Simões, o senador Cleitinho Azevedo, os ex-prefeitos de Belo Horizonte Alexandre Kalil e Patrus Ananias e candidatos que buscam, pela primeira vez, chegar ao comando do Estado.
A disputa pelo Governo de Minas Gerais ganhou seu desenho definitivo depois de uma pré-campanha marcada por incertezas e sucessivas mudanças de cenário. O prazo para que os partidos realizassem suas convenções terminou em 5 de agosto, enquanto o registro das candidaturas ocorreu até 15 de agosto, conforme o calendário eleitoral.
Ao todo, 11 nomes foram colocados na disputa pelo Palácio Tiradentes: Mateus Simões (PSD), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias (PT), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB), Ben Mendes (Missão), Indira Xavier (UP), Rafael Duda (PSTU), Professor Túlio Lopes (PCB) e Henrique Áreas (PCO).
O grupo reúne políticos com experiência em cargos eletivos, como Simões, Cleitinho, Kalil e Patrus, e nomes que representam partidos menores ou que fazem sua primeira tentativa de chegar ao Executivo estadual.
A eleição também ganhou importância nacional porque Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país e historicamente ocupa posição estratégica nas disputas presidenciais. Por isso, a formação dos palanques estaduais foi acompanhada de perto pelas principais forças políticas nacionais.
Um cenário bem diferente do que era projetado no início do ano
O quadro que chega à campanha oficial é bastante diferente daquele que começou a ser desenhado meses atrás.
Um dos principais exemplos é o senador Rodrigo Pacheco (PSB). Durante boa parte da pré-campanha, o parlamentar foi tratado como uma das principais alternativas para representar o campo ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa mineira. O PT chegou a trabalhar durante meses com a possibilidade de apoiar Pacheco.
A estratégia, porém, não avançou. Pacheco decidiu não seguir na corrida pelo governo, e o PT acabou escolhendo Patrus Ananias como candidato. A decisão foi oficializada em convenção realizada em julho.
Patrus, ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-ministro e deputado federal, passou a ser o nome do PT para uma disputa que o partido considerava estratégica para a formação do palanque de Lula em Minas.
A composição do campo de esquerda também sofreu mudanças. A federação PSOL-Rede, que chegou a discutir alternativas próprias e teve uma posição inicialmente favorável a Alexandre Kalil em Minas, acabou definindo apoio a Patrus após uma intervenção da direção nacional.
Cleitinho foi o protagonista da maior reviravolta
Se houve uma candidatura cercada de incertezas até os últimos momentos, foi a de Cleitinho Azevedo.
O senador, que aparece na liderança de diferentes pesquisas realizadas ao longo da pré-campanha, passou semanas sem confirmar de maneira definitiva se entraria na disputa. A situação se tornou ainda mais delicada após a morte de seu irmão e em meio às negociações dentro do próprio Republicanos.
Em determinado momento, a direção partidária chegou a indicar que não lançaria Cleitinho ao governo. O senador, entretanto, voltou a afirmar que disputaria o cargo e, posteriormente, teve seu nome retomado pela legenda.
Em 29 de julho, Cleitinho confirmou publicamente a candidatura em Divinópolis e anunciou o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão como companheiro de chapa.
A indefinição teve consequências para o restante do tabuleiro político. Enquanto aguardava uma decisão do senador, o PL acabou optando por lançar candidatura própria.
PL abandona espera por Cleitinho e lança Flávio Roscoe
O Partido Liberal (PL) passou parte da pré-campanha avaliando uma possível composição com Cleitinho. Com a demora na definição do senador, entretanto, a legenda decidiu apresentar um nome próprio.
O escolhido foi Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). A candidatura colocou o setor empresarial e uma parcela do campo político ligado ao bolsonarismo no centro da disputa estadual.
Roscoe recebeu apoio do deputado federal Nikolas Ferreira e passou a ser apresentado como um dos nomes do PL para a sucessão de Mateus Simões. A chapa também passou por uma mudança na reta final: após a desistência de Charlles Evangelista, a vereadora de Uberaba Ellen Miziara, ligada ao PL Mulher e próxima de Michelle Bolsonaro, foi escolhida para ocupar a vaga de vice-governadora.
O movimento acabou consolidando uma situação curiosa: Cleitinho e Roscoe, que em determinado momento poderiam estar no mesmo campo político, terminaram como concorrentes na disputa pelo governo.
PT troca Pacheco por Patrus
No campo petista, a definição também foi resultado de uma longa sequência de negociações.
O partido esperou durante meses por uma decisão de Rodrigo Pacheco, que chegou a ser tratado como uma possível alternativa para construir uma frente ampla em Minas. Com a saída do senador do processo, outras possibilidades foram avaliadas.
Entre os nomes considerados esteve o da ex-prefeita de Contagem Marília Campos, que manteve sua preferência por disputar uma das vagas ao Senado. O PT então oficializou Patrus Ananias como candidato ao governo.
A chapa petista também ganhou peso político com a participação de aliados de diferentes setores. O nome de Josué Gomes, empresário e ex-presidente da Fiesp, chegou a ser anunciado como vice de Patrus, reforçando a tentativa de ampliar o arco de alianças em torno da candidatura.
PSOL e Rede mudam de posição
Outra mudança importante ocorreu no campo progressista.
A federação formada por PSOL e Rede discutiu inicialmente a possibilidade de candidatura própria e chegou a se aproximar da campanha de Alexandre Kalil. A decisão, porém, acabou sendo revista pela direção nacional.
O apoio oficial da federação passou a ser direcionado a Patrus Ananias. A discussão expôs diferenças entre os diretórios estaduais e nacionais e mostrou como as alianças nacionais tiveram influência direta na montagem das chapas em Minas.
Os 11 candidatos ao Governo de Minas
A disputa reúne nomes de diferentes correntes políticas e perfis. Veja quem são os candidatos:
Mateus Simões — PSD
Atual governador de Minas Gerais, Mateus Simões assumiu o cargo em março, depois que Romeu Zema renunciou ao governo para disputar a Presidência da República. Antes disso, Simões havia sido vice-governador na chapa de Zema.
Advogado e professor, Simões também foi vereador de Belo Horizonte e secretário-geral do Governo de Minas. A transmissão do cargo ocorreu em 22 de março.
Na eleição, ele busca apresentar-se como continuidade da administração iniciada por Zema, embora tenha construído sua própria trajetória dentro do PSD. Durante a pré-campanha, tentou articular uma composição mais ampla entre partidos de direita, mas a candidatura de Cleitinho e o lançamento de Flávio Roscoe pelo PL dificultaram uma unificação desse campo.
Cleitinho Azevedo — Republicanos
Senador por Minas Gerais desde 2023, Cleitinho chega à eleição como um dos principais nomes da disputa e líder de diferentes levantamentos de intenção de voto realizados antes do início oficial da campanha.
Antes do Senado, foi vereador em Divinópolis e deputado estadual. Sua trajetória política foi construída principalmente no interior do estado e nas redes sociais.
A candidatura foi marcada por uma série de idas e vindas. O senador chegou a anunciar que não disputaria o governo, voltou atrás e enfrentou resistência dentro do próprio partido antes de ter o nome confirmado.
O vice é Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM). Os dois pertencem ao Republicanos, formando uma chapa integralmente composta por integrantes da legenda.
Alexandre Kalil — PDT
Ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil retorna à disputa estadual depois de ter concorrido ao governo de Minas em 2022.
Kalil foi prefeito da capital entre 2017 e 2022 e também presidiu o Atlético Mineiro. Sua candidatura pelo PDT foi oficializada em julho.
A campanha de Kalil chega à eleição em um cenário de alianças diferente daquele que chegou a ser imaginado durante a pré-campanha. A federação PSOL-Rede, que havia discutido apoio ao pedetista, terminou direcionando sua posição oficial para Patrus.
Patrus Ananias — PT
Ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-ministro e deputado federal, Patrus Ananias foi escolhido pelo PT para representar o partido na disputa pelo governo estadual.
A candidatura foi confirmada depois da desistência de Rodrigo Pacheco e de uma série de negociações internas. O PT também lançou Marília Campos para uma das vagas ao Senado.
Patrus representa o principal palanque do campo ligado ao presidente Lula em Minas e terá como desafio ampliar a presença do partido além de suas bases tradicionais no estado.
Flávio Roscoe — PL
Ex-presidente da Fiemg, Flávio Roscoe foi escolhido pelo PL depois que o partido deixou de esperar por uma definição de Cleitinho.
A candidatura ganhou relevância no campo bolsonarista mineiro e conta com o apoio de Nikolas Ferreira. A vice é a vereadora de Uberaba Ellen Miziara.
Gabriel Azevedo — MDB
Ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo disputa o governo pelo MDB.
Durante a pré-campanha, Gabriel afirmou que manteria sua candidatura e descartou a possibilidade de abrir mão da disputa para assumir uma vaga de vice em outra chapa.
Ben Mendes — Missão
O advogado e influenciador Ben Mendes foi oficializado pelo recém-criado Partido Missão.
A legenda realizou sua convenção em julho e confirmou Cabo David Souza como candidato a vice-governador. A chapa foi formada exclusivamente por integrantes do partido, que decidiu não lançar candidato ao Senado em Minas.
Indira Xavier — UP
A Unidade Popular lançou Indira Xavier como candidata ao governo. Militante da legenda desde sua fundação, ela já havia disputado a Prefeitura de Belo Horizonte em 2024.
A chapa foi formada pelo próprio partido, com Renato Campos como candidato a vice-governador.
Rafael Duda — PSTU
Sindicalista ligado ao setor da mineração, Rafael Duda foi escolhido pelo PSTU para disputar o governo.
Presidente do sindicato Metabase Inconfidentes, que representa trabalhadores da mineração em municípios da região de Congonhas, Belo Vale e Ouro Preto, ele já havia concorrido à Prefeitura de Congonhas e à Câmara dos Deputados.
A professora Diana de Cássia foi indicada como vice-governadora. Entre as principais bandeiras apresentadas pelo candidato está a defesa da estatização da mineração.
Professor Túlio Lopes — PCB
Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e ex-presidente da Associação dos Docentes da instituição, Túlio Lopes representa o PCB.
Esta não é sua primeira disputa majoritária: ele já concorreu ao governo de Minas em 2014 e ao Senado em 2018.
Na eleição de 2026, terá Warlen Nunes como candidato a vice-governador. O partido apresenta a chapa como uma alternativa de esquerda e popular para o estado.
Henrique Áreas — PCO
Henrique Áreas representa o Partido da Causa Operária (PCO) na disputa pelo governo de Minas.
Dirigente partidário e integrante da direção nacional da legenda, Áreas participou das discussões internas que definiram o programa eleitoral do PCO para 2026. A candidatura segue a linha nacional do partido, que defende uma plataforma política unificada nos diferentes estados.
Uma eleição marcada pela fragmentação
O número de candidaturas mostra a fragmentação do cenário político mineiro. Ao mesmo tempo em que nomes com forte estrutura partidária disputam espaço, siglas menores apresentam candidaturas próprias e buscam utilizar a campanha para ampliar sua presença no estado.
O cenário também apresenta uma divisão importante entre os principais grupos políticos. De um lado, há diferentes candidaturas associadas ao campo da direita, como Cleitinho, Mateus Simões e Flávio Roscoe. De outro, Patrus representa o principal nome do PT e do grupo político ligado ao presidente Lula, enquanto Kalil tenta ocupar um espaço próprio no centro da disputa.
As pesquisas realizadas durante a pré-campanha mostraram Cleitinho na liderança, mas também indicaram um cenário ainda sujeito a mudanças. Em levantamento da Quaest divulgado em julho, por exemplo, Cleitinho aparecia à frente, enquanto Alexandre Kalil, Patrus Ananias e Mateus Simões estavam próximos entre si.
A partir de agora, com as candidaturas definidas e o início da campanha, a tendência é que os candidatos passem a concentrar esforços na apresentação de propostas, na formação de alianças locais e na busca por maior exposição em todo o território mineiro.
Com uma disputa que reúne 11 nomes e diferentes projetos políticos, Minas Gerais entra oficialmente no período eleitoral como um dos principais palcos da eleição de 2026. O desempenho dos candidatos no interior, na Região Metropolitana de Belo Horizonte e nos maiores colégios eleitorais do estado deverá ser decisivo para definir quem avançará à segunda etapa da disputa, caso nenhum candidato alcance a maioria absoluta dos votos válidos no primeiro turno.