Lula e Flávio Bolsonaro abrem campanha eleitoral em disputa marcada pela polarização e pela influência de Trump

Presidente petista e senador do PL iniciam oficialmente a corrida ao Palácio do Planalto neste domingo (16), em atos realizados em seus principais redutos políticos. Eleição de outubro deve ser marcada pela polarização, pela segurança pública, pela economia e pela tensão entre Brasil e Estados Unidos.

A corrida presidencial brasileira entrou oficialmente em uma nova fase neste domingo (16). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) deram início às suas campanhas eleitorais em atos realizados em São Bernardo do Campo (SP) e na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, respectivamente.

Os locais escolhidos pelos dois candidatos carregam forte significado político. São Bernardo do Campo representa o início da trajetória sindical e política de Lula, enquanto Copacabana é um dos principais símbolos das mobilizações de apoio ao bolsonarismo nos últimos anos.

A eleição presidencial de 2026 acontece em um cenário de forte polarização e com uma disputa que, mais uma vez, coloca frente a frente os campos político de esquerda e de direita. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro e, caso nenhum candidato obtenha a maioria necessária, o segundo turno será realizado em 25 de outubro, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Além da disputa entre Lula e Flávio, a eleição terá impacto direto sobre a composição do Congresso Nacional e dos governos estaduais. O eleitor também escolherá deputados federais, deputados estaduais ou distritais, dois senadores por estado e governador.

Uma disputa que começa apertada

As pesquisas mais recentes mostram uma corrida presidencial competitiva e ainda aberta.

Levantamento Genial/Quaest divulgado em 14 de agosto aponta Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 31%. Em uma simulação de segundo turno entre os dois, Lula registra 43%, contra 40% de Flávio.

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Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, o cenário configura empate técnico. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de agosto e foi registrada no TSE sob o número BR-06773/2026.

Outros levantamentos também indicam uma disputa acirrada, embora apresentem diferenças importantes nos percentuais. Pesquisa CNT/MDA divulgada dias antes mostrou Lula com 42,4% no primeiro turno contra 28,7% de Flávio e, em um eventual segundo turno, 48% contra 39,1%.

Os números reforçam uma característica importante da eleição: embora Lula apareça na liderança em boa parte dos levantamentos, a vantagem sobre Flávio diminuiu em alguns cenários, deixando a disputa dependente da capacidade de cada campanha de conquistar eleitores ainda indecisos e ampliar sua base para além dos grupos mais fiéis.

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Lula escolhe São Bernardo para iniciar a campanha

Lula iniciou oficialmente sua campanha em São Bernardo do Campo, cidade que ocupa lugar central em sua trajetória política.

Foi na região do ABC paulista que o presidente ganhou projeção nacional como líder sindical durante as greves dos metalúrgicos no final dos anos 1970. O estádio Primeiro de Maio, escolhido para o lançamento, tornou-se um dos símbolos daquele período e também da formação política que posteriormente levaria Lula à Presidência da República.

O ato deste domingo teve forte tom emocional e buscou conectar a atual candidatura à história política do presidente. Lula relembrou sua origem, sua trajetória sindical e antigas conquistas de seus governos.

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O presidente também apresentou o slogan “O Brasil pronto para mais”, acompanhado da mensagem “Onde tudo começou”, em uma tentativa de associar sua experiência política à ideia de continuidade.

Durante o evento, Lula voltou a defender investimentos sociais e econômicos, falou sobre segurança pública e anunciou a intenção de criar um Ministério da Segurança Pública caso uma proposta de emenda constitucional sobre o tema seja aprovada.

O discurso também foi marcado por críticas aos governos anteriores e pela tentativa de estabelecer comparações entre os períodos em que o PT esteve no poder e a administração de Jair Bolsonaro.

Economia é argumento de Lula, mas percepção do eleitor preocupa

A campanha petista deverá explorar os indicadores econômicos positivos registrados durante o atual governo.

O discurso de Lula destaca a redução do desemprego, o crescimento da economia e a queda da pobreza, além da expansão de programas sociais e de políticas de transferência de renda.

O desafio, porém, está em transformar os números macroeconômicos em uma percepção concreta de melhora na vida cotidiana.

O preço dos alimentos, o custo da moradia, os serviços públicos e o poder de compra continuam entre os assuntos capazes de influenciar o voto. É justamente nesse espaço entre os indicadores econômicos e a percepção individual que a oposição pretende atuar.

A lembrança da promessa de que os brasileiros voltariam a comer “picanha” também permanece como um elemento simbólico do debate econômico. Para uma parcela do eleitorado, a melhora nos indicadores nacionais ainda não se traduz necessariamente em maior conforto financeiro no orçamento doméstico.

Segurança pública ganha espaço na campanha

Se a economia será um dos principais campos de disputa, a segurança pública deverá ocupar posição ainda mais importante.

Pesquisas de opinião apontam a violência e a criminalidade entre as principais preocupações dos brasileiros. O tema interessa diretamente tanto à campanha de Lula quanto à de Flávio Bolsonaro, mas os dois campos apresentam abordagens distintas.

Lula tenta incorporar a segurança pública à agenda de governo federal, defendendo maior participação da União no combate às organizações criminosas e a criação de uma estrutura ministerial específica.

Flávio, por sua vez, busca ocupar o espaço tradicionalmente associado ao bolsonarismo: defesa de medidas mais duras contra criminosos, fortalecimento das forças de segurança e discurso de maior rigor no combate à criminalidade.

A questão será especialmente relevante para a disputa pelo eleitorado independente, que pode não se identificar integralmente com nenhum dos dois grupos políticos.

Flávio Bolsonaro tenta consolidar a herança política do pai

No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana para inaugurar sua campanha presidencial.

O local é conhecido por ter sido palco de grandes manifestações favoráveis ao ex-presidente Jair Bolsonaro e funciona como uma demonstração de força da base conservadora.

Flávio foi oficialmente escolhido pelo Partido Liberal para disputar a Presidência em julho. A candidatura surgiu depois de Jair Bolsonaro deixar de ser uma opção eleitoral, em razão de sua situação jurídica e de sua condenação relacionada à trama golpista.

A estratégia de Flávio é, ao mesmo tempo, preservar o legado político do pai e apresentar-se como uma alternativa capaz de ampliar o eleitorado da direita.

O candidato tem utilizado símbolos associados ao bolsonarismo, incluindo a imagem de Jair Bolsonaro e o slogan “O Brasil vai vencer”. No ato de Copacabana, um áudio do ex-presidente também foi reproduzido para os apoiadores.

A campanha aposta na força do sobrenome Bolsonaro para manter mobilizada a base conservadora, mas enfrenta o desafio de conquistar eleitores que apoiam a direita, porém demonstram resistência ao estilo político mais confrontador associado ao ex-presidente.

A tentativa de construir um “Bolsonaro 2.0”

Flávio Bolsonaro procura se apresentar como uma espécie de continuidade do projeto político do pai, mas com uma abordagem que possa alcançar setores mais moderados do eleitorado.

O discurso enfatiza segurança pública, responsabilidade fiscal, redução de gastos e recuperação econômica.

Ao mesmo tempo, a campanha não pretende romper com o bolsonarismo. Jair Bolsonaro continua sendo uma figura central na estratégia eleitoral e sua imagem é utilizada para reforçar a identidade política do candidato.

Esse equilíbrio pode ser um dos principais desafios da candidatura: manter o apoio dos eleitores mais fiéis ao ex-presidente sem aumentar a rejeição entre os setores que ainda não decidiram seu voto.

A escolha do deputado Alfredo Gaspar para vice também foi apresentada como uma tentativa de fortalecer a candidatura em temas ligados à segurança pública e ampliar o alcance político da chapa.

Trump entra no centro do debate brasileiro

Uma das principais diferenças desta eleição em relação a 2022 é a dimensão internacional da disputa.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se um personagem frequente no debate eleitoral brasileiro em razão das tensões comerciais e diplomáticas entre Washington e Brasília.

O governo Trump impôs tarifas sobre produtos brasileiros, levando o governo Lula a acionar o processo previsto na Lei de Reciprocidade Econômica e a buscar negociações com os Estados Unidos. Algumas tarifas chegaram a atingir níveis elevados para determinados produtos brasileiros.

O conflito comercial ganhou dimensão eleitoral porque Flávio Bolsonaro é um dos principais aliados políticos do campo conservador brasileiro e mantém uma relação política próxima com o grupo de seu pai, que busca apoio internacional.

Lula tenta transformar o episódio em uma questão de soberania nacional.

Na sexta-feira (14), o presidente afirmou que pretende conversar diretamente com Trump e pediu que o governo americano não interfira nas eleições brasileiras. Lula declarou que pretende defender a autonomia do Brasil diante de qualquer tentativa de influência externa.

O tema também envolve a relação diplomática entre os dois países. O governo brasileiro decidiu adiar para depois das eleições a análise do aval para o indicado de Trump ao cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil, ampliando o desgaste entre os dois governos.

A influência internacional pode pesar?

A presença de Trump no debate brasileiro acrescenta uma dimensão inédita à campanha.

O presidente americano tem adotado uma política de aproximação com governos e movimentos conservadores da América Latina. Na Colômbia, por exemplo, a chegada de um governo conservador fortaleceu a aproximação de Washington com Bogotá em temas como segurança e combate ao narcotráfico.

No Brasil, porém, o efeito eleitoral dessa aproximação ainda é incerto.

Para parte do eleitorado conservador, o relacionamento com Trump pode representar uma oportunidade de aproximação econômica e política com os Estados Unidos. Para os apoiadores de Lula, por outro lado, a questão pode ser utilizada para reforçar o discurso de soberania nacional e resistência a interferências externas.

O resultado dependerá de como os candidatos conseguirão traduzir um tema internacional, normalmente distante da rotina dos eleitores, em questões concretas como empregos, preços, comércio, segurança e renda.

O eleitor indeciso será decisivo

Apesar da forte polarização, existe um grupo significativo de brasileiros que não se identifica integralmente com nenhum dos dois principais campos.

A pesquisa Quaest mostra índices elevados de rejeição tanto a Lula quanto a Flávio Bolsonaro. O levantamento de agosto aponta rejeição de 52% ao presidente e de 54% ao senador.

Esse cenário cria uma eleição na qual conquistar votos pode ser tão importante quanto evitar a rejeição.

Os candidatos precisarão buscar eleitores que não estejam necessariamente interessados em uma disputa ideológica permanente e que estejam mais preocupados com problemas cotidianos.

Preço dos alimentos, segurança, emprego, saúde, educação e qualidade dos serviços públicos devem ocupar espaço crescente nos debates.

Mulheres podem ter papel decisivo

Outro grupo que deverá receber atenção especial das campanhas é o eleitorado feminino.

As mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro e tiveram papel importante na eleição de 2022. Por isso, questões como segurança, custo de vida, saúde, educação, emprego e violência contra a mulher devem ganhar destaque nas estratégias dos candidatos.

A campanha de Flávio já sinalizou interesse em ampliar seu diálogo com as mulheres, especialmente por meio de propostas relacionadas ao combate à violência.

Lula, por sua vez, busca preservar a vantagem construída historicamente pelo campo petista em segmentos do eleitorado feminino e entre eleitores de menor renda.

A capacidade de cada campanha de reduzir rejeições nesse grupo poderá ser determinante em um eventual segundo turno.

Uma eleição ainda sem vencedor definido

A abertura oficial das campanhas transforma a disputa política. A partir deste domingo, candidatos podem intensificar o pedido de votos, apresentar propostas, realizar atos públicos e ampliar a comunicação eleitoral dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

Lula parte com a vantagem de ocupar a Presidência e aparecer na liderança das pesquisas. Flávio Bolsonaro, por outro lado, possui uma base política consolidada e tenta transformar a força eleitoral do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura competitiva nacionalmente.

Os números atuais não permitem apontar um vencedor antecipadamente.

A pesquisa Quaest mostra uma diferença pequena entre os dois em um eventual segundo turno, enquanto outros levantamentos apresentam margens diferentes. Isso indica que a campanha ainda terá espaço para mudanças significativas no cenário eleitoral.

Até 4 de outubro, os candidatos terão pouco mais de seis semanas para convencer os eleitores de que seus projetos representam a melhor alternativa para o país.

A eleição, portanto, começa com dois nomes conhecidos, duas bases políticas fortemente mobilizadas e um eleitorado ainda dividido — mas também com uma parcela relevante de brasileiros que poderá decidir o resultado apenas nas últimas semanas.

O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Se houver segundo turno para a Presidência, a votação ocorrerá em 25 de outubro.

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