Fenômeno Maquila: Por que centenas de indústrias brasileiras estão migrando para o Paraguai

Incentivos fiscais agressivos, energia barata e custos operacionais reduzidos transformam o país vizinho no novo polo de expansão e produção da indústria nacional.

Historicamente conhecido pelos brasileiros como destino do turismo de compras, o Paraguai consolida-se como um dos endereços corporativos mais estratégicos da América Latina. Atraídas por isenções tributárias expressivas e menor custo operacional, centenas de empresas brasileiras estão transferindo ou expandindo suas plantas fabris para o outro lado da fronteira.

A transformação é visível nas cidades paraguaias próximas à Tríplice Fronteira, como Ciudad del Este e Minga Guazú. Avenidas transformaram-se em canteiros de obras para abrigar condomínios industriais, parques logísticos e empreendimentos imobiliários voltados a atender o fluxo de executivos e trabalhadores da nova onda industrial.

Corrida por residência e salto migratório

O movimento não se limita às corporações, refletindo-se também nos dados demográficos da migração individual. O volume de brasileiros buscando estabelecer residência no país vizinho apresentou uma aceleração expressiva:

  • Evolução dos registros: Em 2024, cerca de 17 mil brasileiros obtiveram autorização de residência no Paraguai. Em 2025, o total saltou para mais de 23 mil autorizações, representando um crescimento de 37%.

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  • Filas na fronteira: Nos postos itinerantes de migração em Ciudad del Este, situados a menos de 4 quilômetros da Ponte da Amizade, filas começam a se formar com até três dias de antecedência. Registros locais apontam atendimento de quase 500 pessoas em um único dia, na imensa maioria cidadãos brasileiros.

  • Perfil dos requerentes: Além de profissionais qualificados, a busca atrai pequenos e médios empresários — como distribuidores de insumos do setor de climatização e serviços — interessados em reestruturar seus custos operacionais a partir do território paraguaio.

O ecossistema do Regime de Maquila

O principal motor para a atração de grandes investimentos é a Lei de Maquila, legislação que concede um regime especial para empresas voltadas à exportação de bens e serviços.

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Entre os principais atrativos do modelo destacam-se:

  1. Alíquota Única de 1%: Imposto reduzido sobre o valor agregado em território paraguaio no momento da exportação.

  2. Isenção Aduaneira: Suspensão de tributos para a importação de matérias-primas, insumos, maquinários e peças de reposição.

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  3. Produção direcionada ao Brasil: As indústrias utilizam a estrutura fabril paraguaia como uma zona franca estratégica, finalizando produtos no país vizinho e reenviando-os ao mercado brasileiro aproveitando os acordos do Mercosul.

Atualmente, pelo menos 179 empresas de capital brasileiro operam sob o regime maquilador no Paraguai, das quais 47 foram implantadas nos últimos cinco anos.

Marcas consagradas adaptam cadeia de suprimentos

Grandes nomes do setor fabril brasileiro já mantêm operações ativas no país vizinho. A Karsten, tradicional indústria catarinense do segmento de cama, mesa e banho, inaugurou uma unidade em Minga Guazú para complementar o trabalho de suas três plantas situadas no Vale do Itajaí.

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Na unidade paraguaia, a empresa realiza a etapa final de confecção: rolos de tecidos enviados da matriz ou de fornecedores são cortados, costurados, etiquetados e embalados antes de retornarem ao Brasil para distribuição. A fabricante de moda íntima e meias Lupo é outra gigante nacional que integra a lista de investidores recentes no mercado paraguaio.

Competitividade trabalhista e gargalos de infraestrutura

Análises jurídicas e tributárias do setor indicam que os ganhos operacionais ocorrem em múltiplas frentes, incluindo a jornada de trabalho semanal, que no Paraguai alcança até 48 horas — quatro a mais do que a regra geral brasileira.

Entretanto, a expansão acelerada impõe desafios estruturais:

  • Energia Elétrica: Embora a tarifa de energia possa ser até 60% mais barata em comparação à média brasileira, o sistema de distribuição local enfrenta instabilidades. Para garantir continuous de produção, as indústrias precisam investir em geradores próprios ou arcar com a construção de subestações dedicadas.

  • Mercado de Trabalho: Apesar de a taxa de desemprego oficial figurar em patamares reduzidos (cerca de 3,5%), o país registra informalidade acima de 60%. A chegada das plantas industriais é vista pelo governo local como vetor de formalização da mão de obra.

Posicionamento governamental

Diante da migração de investimentos, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) ressalta que as decisões de alocação de capital e instalação de plantas no exterior cabem à livre iniciativa das empresas privadas. 

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