No âmbito da Operação Compliance Zero, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça cumpriu a determinação do presidente da Corte, Edson Fachin, e levantou o sigilo da Petição 15.645. A decisão tornou público um minucioso Relatório de Inteligência Financeira (RIF) elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e entregue à Polícia Federal.
O documento mapeia o ecossistema financeiro de 823 pessoas físicas e jurídicas ligadas ao advogado Fabiano Campos Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. As análises periciais apontam transações milionárias incompatíveis com o faturamento cadastrado das empresas e com a capacidade financeira declarada dos envolvidos.
Triangulação atípica na Igreja Batista da Lagoinha Belvedere
Entre os achados mais críticos do órgão de controle está a conta bancária da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, localizada em Belo Horizonte. No período de apenas um ano — entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025 —, a entidade religiosa movimentou R$ 57,11 milhões no Banco do Brasil.
O alerta do Coaf disparou ao constatar que a igreja possui um faturamento anual presumido de apenas R$ 950 mil. Do total de R$ 28,49 milhões recebidos a crédito na conta:
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R$ 19,20 milhões vieram de 26 lançamentos diretos efetuados por Zettel, que detém procuração com amplos poderes sobre a conta da instituição.
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R$ 1,1 milhão originaram-se da Lagoinha Participações.
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R$ 700 mil foram aportados pela HV Empreendimentos.
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R$ 120 mil foram transferidos por Henrique Moura Vorcaro.
A maior parte desse montante não permaneceu retida na entidade: foi rapidamente repassada para construtoras e empresas de engenharia. Entre as principais beneficiárias estão a Jorlan Incorporadora (R$ 2,56 milhões), a Muzzi Misk Construtora (R$ 2,30 milhões) e a AFEB Estruturas Metálicas (R$ 1,01 milhão).
Aquisição de frota de luxo via Moriah Asset
A investigação do Coaf também identificou a aquisição sistemática de veículos de altíssimo padrão por meio da Moriah Asset Empreendimentos e Participações Ltda., empresa gerida por Zettel. O relatório aponta transações fora do padrão usual do mercado para os seguintes automóveis:
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Cadillac Escalade Sport (2025): Comprado em dezembro de 2025 por R$ 1,60 milhão.
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Audi RS6 Avant: Adquirido no mesmo período por R$ 650 mil.
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Range Rover (duas unidades 2024/2025): Uma negociada por R$ 1,53 milhão (com entrega de seminovo) e outra por R$ 1,17 milhão, com devolução de troco de R$ 176 mil.
Segundo o Coaf, a falta de comprovação da origem primária dos recursos e os padrões de negociação atípicos acionaram os gatilhos automáticos do sistema de prevenção à lavagem de dinheiro.
Empresas sem faturamento e discrepâncias no setor imobiliário
As inconsistências atingem também a Super Empreendimentos e Participações, outra holding administrada por Zettel. Em junho de 2022, a empresa movimentou R$ 19,69 milhões em uma conta mantida em cooperativa de crédito, a despeito de não registrar qualquer faturamento operacional. Apenas do patrimônio pessoal de Zettel saíram R$ 9,18 milhões em aportes diretos.
No setor imobiliário, cartórios de registro e o Coaf sinalizaram divergências severas entre os valores declarados e as avaliações fiscais dos municípios em negócios milionários realizados na capital paulista:
| Empresa Envolvida | Valor da Transação | Característica Observada |
| Grip Negócios Imobiliários | R$ 50,00 milhões | Discrepância entre valor declarado e avaliação do IPTU |
| BRL Trust | R$ 43,71 milhões | Divergência substancial de avaliação fiscal |
| Luzom SPE | R$ 23,11 milhões | Transação imobiliária com alerta de inconsistência |
O relatório destaca ainda a doação atípica de um imóvel avaliado em R$ 4,34 milhões feita pela holding para uma pessoa física sem qualquer vínculo familiar aparente com o doador.
Desdobramentos e ambiente no STF
A derrubada do sigilo da Petição 15.645 insere este volume de dados no centro das atenções da Suprema Corte. A revelação do relatório do Coaf fornece novos elementos sobre a engrenagem financeira associada ao grupo do Banco Master, em um momento de deliberações decisivas no Plenário do STF.