ITAÚNA / CENTRO-OESTE – A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) concluiu o inquérito policial que investigava as circunstâncias da trágica morte de uma adolescente, ocorrida no dia 25 de novembro de 2025, em uma unidade hospitalar no município de Itaúna. O desfecho das investigações apontou uma sucessão de erros médicos, resultando no indiciamento de sete profissionais da saúde pelo crime de homicídio culposo — quando não há a intenção de matar, mas o ato decorre de negligência, imprudência ou imperícia.
O caso comoveu a região Centro-Oeste do estado e acendeu um alerta sobre os protocolos de triagem e o atendimento de urgência em casos de dores abdominais agudas.
A Peregrinação por Socorro: Cinco Atendimentos em Quatro Dias
A reconstrução cronológica feita pelos investigadores da PCMG revela uma verdadeira via-crúcis enfrentada pela adolescente e por sua família em busca de um diagnóstico correto:
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20 de novembro (Primeiro atendimento): A vítima procurou o hospital pela primeira vez queixando-se de dores abdominais agudas e intensas. Na ocasião, o médico plantonista fechou o diagnóstico como gastroenterite viral (a popular "virose"). A jovem foi medicada para os sintomas e liberada para voltar para casa, sem que nenhum exame complementar de sangue ou imagem fosse solicitado.
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21 e 22 de novembro (O retorno e a persistência do erro): Nos dias subsequentes, a paciente retornou à mesma unidade hospitalar por mais quatro vezes, sendo atendida por diferentes profissionais em cada plantão. Mesmo diante do agravamento visível do quadro clínico, da persistência das dores e do fato de a medicação paliativa não estar fazendo efeito, os médicos mantiveram o diagnóstico inicial de virose, sem realizar um aprofundamento investigativo.
O Diagnóstico Tardio e a Cirurgia de Emergência
Foi somente no dia 23 de novembro, após a insistência da família e o agravamento drástico do estado de saúde da adolescente, que a equipe médica finalmente solicitou exames laboratoriais e uma tomografia computadorizada do abdômen.
O resultado dos exames revelou o que já deveria ter sido investigado desde o primeiro dia: um quadro grave de apendicite aguda.
A paciente foi levada às pressas para o bloco cirúrgico na madrugada do dia 24 de novembro. No entanto, o atraso de mais de 72 horas para a intervenção correta cobrou um preço alto. No momento da cirurgia, os médicos constataram que o apêndice da jovem já havia rompido, espalhando fezes e bactérias pela cavidade abdominal, o que desencadeou uma peritonite aguda generalizada.
Mesmo com os esforços pós-operatórios, o quadro evoluiu para uma infecção generalizada e a adolescente faleceu no dia 25 de novembro de 2025, vítima de um choque séptico.
Provas Robustas de Negligência Médica
A equipe de investigação da Polícia Civil reuniu um robusto conjunto de evidências para fundamentar o indiciamento dos sete médicos. Foram analisados os prontuários médicos de todos os atendimentos, documentos técnicos de evolução clínica, além da colheita de depoimentos de familiares, testemunhas e especialistas.
A conclusão do inquérito aponta que houve uma clara cegueira diagnóstica coletiva e sucessivas falhas na condução do caso. A ausência de exames básicos de rotina — como um hemograma — nos primeiros dias de atendimento e a extrema demora na adoção das condutas cirúrgicas adequadas foram determinantes para o desfecho fatal.
Encaminhamento à Justiça
Com a conclusão das investigações, o calhamaço do inquérito policial foi integralmente relatado e encaminhado ao Poder Judiciário e ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Caberá agora ao Promotor de Justiça analisar os autos para oferecer a denúncia formal contra os sete médicos indiciados, que passarão a responder judicialmente pelo homicídio culposo da adolescente.
O portal segue aberto para a manifestação da defesa dos profissionais indiciados e da direção do hospital de Itaúna envolvido no caso.