BRASÍLIA – O cenário jurídico em torno da megaoperação da Polícia Federal contra a lavagem de dinheiro bilionária ganhou novos capítulos nesta quinta-feira (23). Poucas horas após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) conceder habeas corpus aos investigados, a Polícia Federal reagiu protocolando o pedido de prisão preventiva para os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo, além de Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, e outros envolvidos.
A movimentação da PF busca manter os alvos atrás das grades por tempo indeterminado, sob o argumento de que a liberdade dos investigados representa um risco direto à segurança pública e à integridade das provas.
O Esquema: Bets, Rifas e Tráfico Internacional
A investigação, que já é considerada uma das maiores contra o crime financeiro no Brasil, aponta que o grupo liderava uma estrutura altamente sofisticada de lavagem de dinheiro. De acordo com a PF, as movimentações superam a cifra de R$ 1,6 bilhão.
O esquema utilizava uma "teia" de ilegalidades para dar aparência lícita aos recursos:
-
Jogos de Azar e Apostas: Operação de bets ilegais e rifas clandestinas promovidas por influenciadores.
-
Crime Organizado: Conexões com o tráfico internacional de drogas.
-
Engenharia Financeira: Uso de empresas de fachada, contas em nome de "laranjas", transações vultosas com criptomoedas e remessas ilegais para o exterior (evasão de divisas).
Continua após a publicidade
O Embate Jurídico: Temporária x Preventiva
Os investigados haviam sido presos temporariamente no dia 15 deste mês. Contudo, o ministro Messod Azulay Neto, do STJ, acatou o pedido das defesas e considerou ilegal a manutenção da prisão por 30 dias. Segundo o magistrado, o pedido inicial da própria PF era de apenas cinco dias, prazo que já havia expirado, tornando a custódia atual irregular.
No entanto, a Polícia Federal sustenta que o cenário mudou após o avanço das perícias em dispositivos eletrônicos, documentos e registros bancários apreendidos na primeira fase. Para os delegados do caso, as novas provas justificam a prisão preventiva, que não tem prazo de validade determinado.
Os Riscos Apontados pela Polícia Federal
Ao solicitar a conversão para preventiva, a PF destacou três pontos principais:
-
Garantia da Ordem Pública: O volume astronômico de recursos pode continuar alimentando atividades criminosas.
-
Risco de Reiteração: Suspeita de que os investigados continuem operando os sistemas de apostas mesmo sob investigação.
-
Conveniência da Instrução Criminal: O temor de que, em liberdade, os influenciadores e empresários possam destruir provas digitais ou alinhar depoimentos para obstruir a justiça.
Continua após a publicidade
O Outro Lado: Defesa fala em "Perplexidade"
As defesas dos acusados receberam o novo pedido de prisão com fortes críticas. Em nota oficial publicada em redes sociais, os advogados de MC Ryan SP classificaram a manobra da PF como "extemporânea" (fora do tempo adequado).
"Causa perplexidade que, logo após uma decisão do STJ reconhecendo a ilegalidade da prisão, a autoridade policial surja com um pedido de preventiva. Se os requisitos para tal medida existissem, por que não foram apresentados no momento oportuno?", questionou o corpo jurídico do cantor.
A defesa de Raphael Sousa (Choquei) e de MC Poze do Rodo também reiteram que seus clientes são inocentes e que as atividades financeiras estão estritamente ligadas a contratos de publicidade e marketing.
Próximos Passos
O pedido de prisão preventiva agora aguarda a decisão do juiz de primeira instância. Caso seja aceito, os investigados — que se preparavam para deixar as carceragens nesta quinta-feira — deverão permanecer custodiados. Caso contrário, o alvará de soltura expedido pelo STJ deverá ser cumprido imediatamente.