BRASÍLIA – O embate entre a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo capítulo de alta voltagem nesta segunda-feira (9). A PF encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um relatório detalhado sobre os dados extraídos do telefone celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O documento revela diversas menções ao ministro Dias Toffoli, atual relator do inquérito que apura irregularidades na instituição financeira.
Com base nas evidências encontradas, a Polícia Federal solicitou formalmente a arguição de suspeição de Toffoli, sugerindo que o magistrado não possui a imparcialidade necessária para conduzir o processo. No entanto, o pedido esbarra em uma questão processual: juridicamente, cabe ao Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, a prerrogativa de oficializar tal solicitação.
A Reação de Toffoli: "Ilações e Ilegitimidade"
Em nota oficial emitida por seu gabinete, o ministro Dias Toffoli classificou as suspeitas como meras "ilações". Sua defesa técnica foca no Artigo 145 do Código de Processo Civil (CPC), argumentando que a Polícia Federal, por ser um órgão de investigação e não "parte" no processo judicial, não teria legitimidade para pedir o afastamento de um juiz.
Toffoli informou que apresentará uma resposta formal ao presidente Edson Fachin, mantendo-se, por ora, na relatoria do caso que sacode o sistema bancário nacional.
O que diz a Lei: Quando um juiz se torna "Suspeito"?
O Artigo 145 da Lei n.º 13.105/2015 é o dispositivo central desta disputa. Ele lista as situações taxativas em que um magistrado deve ser afastado:
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Vínculos Pessoais: Amizade íntima ou inimizade com as partes ou advogados;
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Benefícios: Recebimento de presentes ou aconselhamento de uma das partes;
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Interesse Financeiro: Ser credor, devedor ou ter interesse direto no resultado da ação;
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Parentesco: Vínculos de até terceiro grau com os envolvidos.
O magistrado também pode alegar "foro íntimo" para se retirar de um caso sem dar explicações, o que não ocorreu até o momento.
Entenda a Queda do Império Master
A crise que levou Daniel Vorcaro ao centro das atenções da PF começou em novembro de 2025. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado (Banco Master S/A, Letsbank e Master Corretora) após identificar uma insustentabilidade financeira catastrófica.
O Esquema dos CDBs:
Segundo as investigações, o Master atraía investidores oferecendo Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com taxas muito acima do mercado. Para pagar esses rendimentos, a instituição estruturava operações complexas que inflavam artificialmente o balanço patrimonial, ocultando uma deterioração severa da liquidez.
O caso se agravou em janeiro de 2026, com o encerramento forçado do Will Bank e a liquidação da gestora Reag, criando um "efeito dominó" que forçou o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) a intervir.
Números do Colapso Financeiro
| Instituição | Data de Liquidação | Situação Atual |
| Banco Master S/A | Nov/2025 | Liquidação Extrajudicial |
| Gestora Reag | 15/Jan/2026 | Extinta |
| Will Bank | 21/Jan/2026 | Encerramento Forçado |
| Ressarcimento FGC | Em curso | R$ 40,6 bilhões a pagar |
Conflito Institucional
O caso Master não é apenas financeiro; ele expõe uma crise de confiança entre as instituições. A PF e o Banco Central defendem uma punição rigorosa e o afastamento de influências políticas, enquanto no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União), o ritmo das decisões sobre o bloqueio de bens e relatorias tem gerado atritos públicos entre os ministros e os investigadores.
A resposta que Toffoli entregará a Fachin nos próximos dias será determinante para definir se o processo continuará sob sua tutela ou se haverá uma redistribuição, alterando os rumos da maior investigação bancária do país em 2026.