CARACAS / WASHINGTON – A Venezuela amanheceu nesta terça-feira (6) sob uma nova e incerta ordem política. Delcy Rodríguez, de 56 anos, iniciou formalmente suas funções como presidente interina da República, um dia após ser empossada pelo Parlamento em uma sessão de emergência. A ascensão de Rodríguez ocorre no vácuo deixado pela captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, levados para os Estados Unidos no último sábado após uma incursão militar autorizada por Donald Trump.
O cenário em Caracas é de "calmaria tensa", enquanto o mundo observa como a nova líder equilibrará a sobrevivência do chavismo com as exigências de Washington.
O Julgamento em Nova York e a Reação de Maduro
A imagem de Nicolás Maduro, tradicionalmente visto com a faixa presidencial, foi substituída nesta segunda-feira pela de um homem vestindo o uniforme cáqui de presidiário. Diante de um juiz em Nova York, o ex-líder venezuelano declarou-se “vítima de um sequestro internacional” e negou as acusações de narcotráfico e conspiração.
“Não sou culpado, sou um homem decente, continuo sendo o presidente do meu país”, bradou Maduro antes de ter sua fala interrompida pela autoridade judicial.
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Enquanto isso, a ONU e órgãos internacionais de direitos humanos manifestaram "profunda preocupação" com a operação em Caracas, que deixou dezenas de mortos e feridos, classificando a ação como uma violação direta aos princípios do direito internacional.
O Desafio de Delcy: Entre Cabello e Padrino
Embora seja a sucessora constitucional imediata, a cadeira de Delcy Rodríguez é considerada uma das mais instáveis da história recente da América Latina. Para manter-se no poder pelos próximos 180 dias — prazo máximo para a convocação de novas eleições —, ela precisará conter as ambições internas de figuras como Diosdado Cabello (Ministro do Interior) e Vladimir Padrino López (Ministro da Defesa).
Analistas sugerem que a "coesão" apresentada pelo chavismo no momento é puramente tática. "Delcy deveria dormir com um olho aberto", alertou o ex-diplomata Brian Naranjo. O receio é que os chefes das forças armadas e da inteligência possam orquestrar um golpe interno caso Rodríguez se mostre excessivamente flexível às demandas americanas.
Petróleo e Diplomacia: A Pressão de Donald Trump
O motor principal dessa transição não é apenas político, mas energético. Donald Trump já enviou um recado claro à Rodríguez: a cooperação deve ser total para garantir o fluxo de petróleo e minérios para as empresas americanas.
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Ameaça Direta: Trump alertou que, se ela não seguir o roteiro estabelecido por Washington, o "preço a pagar" será maior do que o de Maduro.
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Bolsa de Valores: O mercado financeiro já reagiu. As ações de petroleiras em Nova York encerraram em alta, sinalizando o otimismo dos investidores com a possível abertura total das reservas venezuelanas para empresas como Chevron e ExxonMobil.
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O Dilema da Oposição
Enquanto o chavismo tenta se manter de pé, a oposição vive um momento de contradição. A líder María Corina Machado, que viajou a Oslo para receber o Prêmio Nobel da Paz, reafirmou sua intenção de assumir o governo baseado nos resultados contestados de 2024.
Contudo, ela enfrenta um obstáculo inesperado: o próprio Donald Trump. O presidente americano desdenhou publicamente da liderança de Machado, afirmando que ela "não inspira respeito" em seu país para governar — um sinal de que os EUA podem estar buscando um interlocutor mais maleável ou uma nova via política.
O Que Esperar nos Próximos Dias?
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Reunião da OEA: Nesta terça, a Organização dos Estados Americanos realiza um Conselho Permanente extraordinário. A expectativa é de um embate entre governos que apoiam a intervenção dos EUA e aqueles que a condenam como imperialismo.
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Manifestações: O chavismo convocou atos em todo o país para exigir a libertação de Maduro, tentando manter viva a mística da "Revolução Bolivariana".
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Abertura Econômica: Espera-se que Delcy anuncie, nos próximos dias, as diretrizes para a retomada de relações diplomáticas formais com os EUA e novos contratos de mineração.
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Com Informações: AFP