A incursão militar dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, neste sábado (3), redefine o equilíbrio de poder na América do Sul e coloca a diplomacia brasileira em uma encruzilhada. Em entrevista ao Estadão, a professora Marsílea Gombata, docente de Relações Internacionais na FAAP e pesquisadora do NUPRI-USP, o papel do Brasil como mediador do conflito vizinho é agora uma página virada na história.
Em análise sobre o ataque coordenado pelo governo de Donald Trump, Gombata argumenta que o fato consumado da remoção à força do líder chavista anula as tentativas prévias de negociação lideradas pelo Palácio do Planalto.
O Fim da Mediação e a Nova Estratégia Brasileira
Segundo a especialista, o Brasil, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deve agora adotar uma postura de "condenação estratégica". A ideia é manter o equilíbrio: repudiar a violação da soberania territorial venezuelana sem, no entanto, romper pontes com a Casa Branca.
“Acredito que a etapa de o governo brasileiro ser mediador já passou. Os EUA retiraram à força o presidente da Venezuela. O que o governo brasileiro pode fazer é condenar de maneira estratégica os ataques sem fechar os canais de diálogo com o governo americano”, afirma Gombata.
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A professora destaca que, embora em décadas passadas o Brasil tivesse peso político para liderar uma frente regional unificada contra intervenções externas, o cenário atual de fragmentação política na América Latina torna essa liderança improvável no curto prazo.
O Vácuo de Poder e a "Solução Americana"
Um dos pontos de maior incerteza reside na sucessão imediata em Caracas. Embora a Constituição venezuelana aponte a vice-presidente Delcy Rodríguez como sucessora natural, Gombata acredita que essa configuração dificilmente será aceita por Washington, que investiu alto na operação militar.
A análise sugere que os EUA devem pressionar pelo retorno de figuras da oposição que gozam de reconhecimento internacional:
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Edmundo González Urrutia: Atualmente exilado na Espanha, reconhecido pelos EUA como o vencedor legítimo das eleições.
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María Corina Machado: Recentemente laureada com o Nobel da Paz na Noruega, figura como a principal força de mobilização popular interna.
Semanas de Tensão
Marsílea Gombata alerta que, embora Maduro "claramente não devesse mais estar no poder", o método de sua saída — uma intervenção estrangeira — deixa um rastro de instabilidade. A pesquisadora reforça que a soberania para decidir o destino do país deveria pertencer aos venezuelanos, o que torna o futuro próximo sombrio.
“Não vai ser um processo tranquilo. As próximas semanas serão bem tensas na Venezuela”, conclui a especialista, prevendo possíveis resistências internas de grupos chavistas armados e o desafio logístico de uma transição de governo sob ocupação indireta.
🔍 Resumo da Análise: Os Desafios da Sucessão
| Caminho Formal (Constitucional) | Caminho Geopolítico (EUA) | Risco Imediato |
| Assunção de Delcy Rodríguez (Vice-presidente). | Retorno de Edmundo González e María Corina. | Resistência das milícias chavistas e do Exército. |
| Manutenção do aparato chavista no poder. | Formação de um Governo de Transição pró-Ocidente. | Guerra civil ou insurgência prolongada. |