Lobista ligada a Lulinha recebeu R$ 5,9 milhões por liberação de verbas federais no Maranhão, aponta reportagem

Investigação revela esquema de intermediação financeira entre a Casa Civil, o Ministério da Saúde e o governo de Carlos Brandão (MDB); valores foram pagos em apenas dois meses e meio.

A lobista Roberta Luchsinger, que se apresentava no meio político como sócia de Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), recebeu pelo menos R$ 5,9 milhões em comissões após atuar para destravar recursos do governo federal em favor do Estado do Maranhão.

De acordo com apuração divulgada neste sábado (26) pelo portal Metrópoles, a soma milionária refere-se a repasses efetuados em um intervalo de apenas dois meses e meio — entre 25 de outubro de 2024 e 10 de janeiro de 2025. Diante do curto período analisado, investigadores e analistas apontam que o montante total movimentado pelo esquema pode ser substancialmente maior.

As revelações indicam que Luchsinger atuava como uma ponte direta entre o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e o alto escalão de órgãos federais, notadamente o Ministério da Saúde e a Casa Civil da Presidência da República.

Atuação no Novo PAC e articulação na Casa Civil

Uma das principais frentes de atuação de Roberta Luchsinger envolveu o destravamento de verbas para o prolongamento da Avenida Litorânea, em São Luís (MA). Considerada a principal vitrine da gestão do governador Carlos Brandão, a intervenção urbana integra o Novo PAC e soma investimentos na ordem de R$ 235 milhões.

Continua após a publicidade

Em fevereiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de superfaturamento logo na primeira etapa do empreendimento.

Trocas de mensagens no aplicativo WhatsApp revelam a proximidade entre a lobista e a cúpula do governo estadual:

"Bom dia, governador! Marcola acaba de avisar que foi liberada a obra para a Av. Litorânea" — escreveu Roberta Luchsinger a Carlos Brandão em 5 de junho de 2024.

Continua após a publicidade

"Opa! Notícia boa" — respondeu o governador.

O "Marcola" citado no diálogo é Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente Lula. Marcola foi exonerado do cargo no mês passado após vir à tona a informação de que Luchsinger custeava despesas pessoais dele.

Em outra conversa no mesmo dia, a lobista comemorou a decisão com Gilberto Lins, então presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap) — estatal responsável pelos portos do estado. Lins acabou afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro daquele ano por nepotismo, por ser casado com uma sobrinha do governador Brandão.

Continua após a publicidade

"Presidente (Lula) é foda mesmo. Rui (Costa, então ministro da Casa Civil) negou e ele botou o pau na mesa. Mandou fazer" — relatou Luchsinger na mensagem.

"A embaixadora mais competente e eficiente que o Maranhão já teve. Futura senadora" — elogiou Gilberto Lins.

Repasses no Ministério da Saúde e presentes de luxo

A atuação da lobista estendeu-se com intensidade ao Ministério da Saúde, onde ajudou a destravar centenas de milhões de reais em recursos públicos. Documentos indicam que Pablo Pereira Munhoz, que se apresenta como assessor direto de Carlos Brandão em agendas oficiais, enviava as demandas do estado diretamente a Luchsinger.

Continua após a publicidade

Em 7 de novembro de 2024, Munhoz encaminhou a ela relatórios referentes a um repasse de R$ 115,3 milhões para atendimentos de Média e Alta Complexidade (MAC) no Sistema Único de Saúde (SUS) do Maranhão. No mesmo dia, a lobista repassou as solicitações para Marcola e para o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como "Berger".

Paralelamente às negociações de verbas do SUS, Luchsinger presenteou Swedenberger Barbosa com artigos de alto luxo, incluindo:

  • Um relógio da marca Cartier, avaliado em R$ 66 mil;

  • Uma obra de arte/quadro, no valor de R$ 82,9 mil.

Construtora investigada pela PF e depósitos em espécie

O pagamento das comissões devidas a Roberta Luchsinger era alinhado entre ela e o assessor Pablo Munhoz. O dinheiro transitava pelas contas da pessoa jurídica da lobista, a RL Consultoria, e pela conta pessoal do pai dela, Roberto Pedro Paulo Luchsinger.

A origem dos recursos está atrelada à empresa EDP Infraestrutura e Pavimentação LTDA, construtora pertencente ao empresário Eduardo José Barros Costa, conhecido como "Eduardo DP". O empreiteiro foi apontado pela Polícia Federal em relatório de 2025 como parceiro do ex-ministro das Comunicações, o deputado Juscelino Filho (PSDB-MA), em esquemas de desvio de verbas públicas.

Entre 2023 e 2025, a EDP recebeu pouco mais de R$ 90 milhões dos cofres do governo do Maranhão. Outra construtora ligada a Eduardo DP, a Construservice, faturou mais de R$ 1 bilhão em contratos com o governo maranhense entre 2020 e 2025.

Registros financeiros mostram a dinâmica das transferências:

  • 30 de outubro de 2024: A EDP efetuou cinco pagamentos simultâneos à RL Consultoria que somaram R$ 2,2 milhões.

  • Depósitos em Espécie: No mesmo dia, Munhoz enviou comprovantes de depósitos em dinheiro vivo, incluindo uma operação bancária de R$ 650 mil.

  • Depósitos para o Pai: No dia seguinte, foram repassados mais três comprovantes de depósitos em espécie direcionados à conta do pai de Roberta (dois no valor de R$ 200 mil e um de R$ 150 mil).

  • Outras Transferências: Foram identificados novos aportes da empreiteira de Eduardo DP na conta da empresa de Luchsinger, em valores individuais superiores a R$ 400 mil.

As trocas de mensagens e comprovantes bancários estão sob análise e devem desdobrar novos desdobramentos nas instâncias de controle e órgãos de investigação federal.

Fotos Reprodução/Metrópoles

Siga o canal do Destak News e receba as principais notícias no seu Whatsapp!