BELO HORIZONTE (MG) — Sob forte comoção e clima de profunda indignação, familiares, amigos e colegas de farda despedem-se, nesta quarta-feira (22), da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Michele Leão Azevedo, de 38 anos. A oficial foi vítima de feminicídio na capital mineira.
O velório teve início às 9h, em uma cerimônia restrita a familiares e amigos próximos no bairro São Cristóvão. O sepultamento está agendado para as 16h, no Cemitério da Paz, localizado na região Noroeste de Belo Horizonte.
A capitã deu entrada já sem vida no Hospital Odilon Behrens na noite da última segunda-feira (20), transportada por seu marido, o sargento da PMMG Eduardo Abner Pereira de Oliveira, com quem era casada há cerca de oito anos. Ele foi preso em flagrante no local e, após audiência de custódia, a Justiça decretou sua prisão preventiva.
Morte ocorreu horas antes do hospital e laudo apontou múltiplas lesões
Conforme consta no Registro de Eventos de Defesa Social (REDS), a equipe médica do pronto-socorro constatou que a capitã Michele apresentava múltiplas e severas lesões espalhadas por todo o corpo. Os exames preliminares indicaram ainda que a morte havia ocorrido entre quatro e seis horas antes de a vítima dar entrada na unidade hospitalar, desmentindo a ideia de um socorro imediato.
Imagens do circuito interno de TV do condomínio onde o casal morava captaram o momento em que o sargento carregava a esposa nos ombros até a garagem do prédio, colocando-a no veículo antes de dirigir ao hospital. As gravações foram apreendidas pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e integram o inquérito.


Reprodução
Em depoimento, Eduardo alegou que o casal participou de uma confraternização na residência, onde consumiram bebidas alcoólicas e comprimidos de ecstasy, mantendo em seguida relações sexuais consensuais com práticas de agressão. Ele sustentou que a capitã teria caído da escada, recusado atendimento e, horas depois, sido encontrada desacordada.
Provas apreendidas e tentativa de ocultação
A versão apresentada pelo suspeito é vista com extrema reserva pelos investigadores diante dos indícios encontrados no local do crime. Durante a perícia no apartamento e nas dependências do edifício, a Polícia Civil recolheu e apreendeu materiais decisivos para a investigação:
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Cabo de madeira quebrado: localizado no lixo do prédio, com suspeita de ter sido utilizado nas agressões;
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Roupas de cama lavadas: encontradas ainda úmidas dentro da máquina de lavar roupas do apartamento;
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Comprimidos suspeitos: descartados pelo sargento dentro da própria estrutura hospitalar, semelhantes a ecstasy.
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Quem era a capitã Michele e os relatos de relacionamento abusivo

Reprodução/Redes Sociais
Com uma carreira brilhante e altamente respeitada no quadro da PMMG, a capitã Michele Leão Azevedo possuía uma trajetória marcada pelo aperfeiçoamento profissional. Ela era graduada em Ciências Militares, concluíra o curso de Multiplicador de Direitos Humanos oferecido pela própria corporação e possuía especialização em Docência do Ensino Superior pelo Instituto Federal do Sul de Minas (IFSULDEMINAS).
Apesar do sucesso profissional, a vida pessoal da oficial era marcada pelo sofrimento em silêncio. Em depoimento prestado à Polícia Civil, a mãe de Michele revelou que a filha vivia um relacionamento extremamente abusivo e conturbado.
Segundo o relato materno:
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Michele era constantemente humilhada e sofria intensa manipulação emocional e controle por parte do marido;
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A capitã tentava colocar um fim ao casamento, mas o sargento não aceitava a separação;
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Em uma das crises do casal, ele chegou a ficar horas plantado na porta da casa da sogra após uma discussão.
No dia em que foi morta, Michele tinha um encontro agendado com a mãe. Ela chegou a atender uma ligação telefônica falando em tom baixo, afirmando que não conseguiria comparecer. Depois desse contato, a capitã parou de responder a todas as mensagens enviadas pela família.
Histórico de violência e punições do sargento

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A Polícia Civil também apura o histórico prévio do sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira. Levantamentos revelaram que o militar já possuía antecedentes de violência doméstica:
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Registros em 2016: Uma ex-companheira do sargento registrou dois boletins de ocorrência relatando agressões físicas, ameaças e o descumprimento de uma medida protetiva de urgência;
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Ocorrência em 2023: O militar foi preso em flagrante pelo crime de embriaguez ao volante;
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Ficha disciplinar: Acumulava sanções e punições administrativas ao longo de sua trajetória na PMMG.
O caso segue sob apuração rigorosa da Polícia Civil de Minas Gerais, sob acompanhamento da Corregedoria da Polícia Militar.