Ministério da Saúde lança nova Caderneta da Gestante com linguagem neutra e gera debate no setor médico

BRASÍLIA – O Ministério da Saúde oficializou o lançamento da nova versão da Caderneta Brasileira da Gestante. O documento oficial, que serve como guia de acompanhamento pré-natal no Sistema Único de Saúde (SUS), passou por uma profunda reformulação técnica e de linguagem. A principal mudança que vem dividindo opiniões é a adoção do termo "pessoas que gestam" em substituição direta a palavras como "mãe" e "mulher" em diversos trechos e nos campos de identificação de dados.

A atualização do material acendeu um forte debate público e vem recebendo críticas e elogios de médicos, conselheiros de saúde, parlamentares e ativistas dos direitos humanos.

As Principais Alterações no Documento

A nova diretriz reformulou pontos cruciais do livrete, dividindo as atualizações entre inclusão de gênero e novos protocolos de direitos reprodutivos:

1. Linguagem Neutra e Inclusiva

O termo "pessoas que gestam" passou a figurar no topo da ficha de identificação civil e médica, local onde antes constavam exclusivamente os dados da "gestante" ou da "mãe". De acordo com as notas técnicas, a mudança em passagens conceituais visa abranger e garantir o direito à saúde de homens trans e pessoas não binárias que possuem a capacidade biológica de engravidar e utilizam a rede pública de saúde.

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2. Capítulo sobre Aborto Legal

A cartilha agora conta com um capítulo dedicado a orientações formais sobre a interrupção legal da gravidez. O texto descreve detalhadamente as três situações em que o procedimento é permitido e garantido pelo Código Penal brasileiro e pelo Supremo Tribunal Federal (STF):

  • Gravidez resultante de violência sexual (estupro);

  • Risco de vida iminente para a gestante;

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  • Anencefalia fetal.

3. Dispensa de B.O. em Casos de Violência

O novo texto reforça o entendimento jurídico e de saúde pública de que não é necessária a apresentação de Boletim de Ocorrência (B.O.) ou de qualquer tipo de autorização judicial para que a vítima de violência sexual receba o atendimento médico de aborto legal na rede do SUS. O acolhimento deve ser baseado no princípio da boa-fé e no relato da paciente.

Reações e Críticas: O Debate Dividido

A substituição de termos tradicionais e a abordagem mais direta de temas complexos geraram divergências públicas significativas na comunidade médica e política.

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O Argumento de Especialistas e Críticos

Membros do Conselho Federal de Medicina (CFM) e obstetras que participaram da formulação de versões anteriores do documento manifestaram forte oposição às mudanças. O principal argumento técnico e social levantado por esse grupo é de que a cartilha de pré-natal deveria focar estritamente no desenvolvimento do feto e na proteção da gestante que optou por levar a gravidez adiante.

"O uso de termos abstratos promove um 'apagamento' da centralidade da maternidade e da figura da mulher biológica em um momento que historicamente exige atenção específica de gênero", apontam os críticos da medida.

O Posicionamento do Ministério da Saúde

A pasta defendeu as atualizações afirmando que as mudanças reafirmam o compromisso do SUS com o atendimento humanizado, integral e livre de qualquer forma de discriminação. O ministério destacou que a ampliação do escopo da Caderneta foi desenhada para incluir temas urgentes de cidadania e bem-estar, tais como:

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  • Suporte à saúde mental no período gravídico-puerperal;

  • Orientações claras sobre o combate à violência obstétrica;

  • Protocolos de acolhimento e humanização em casos de luto materno.

O que muda para as pacientes nos postos de saúde?

Apesar do lançamento da nova versão e do início da distribuição dos novos lotes impressos, o Ministério da Saúde informou que as cadernetas de modelos anteriores que já estão com as pacientes continuam 100% válidas em todos os postos de saúde e hospitais do país. Não há necessidade de troca de documentos antigos para quem já iniciou o acompanhamento pré-natal.

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