Produtora responsável por documentário milionário sobre Bolsonaro nunca lançou um único filme na história

Uma investigação conduzida pela jornalista Malu Gaspar e publicada no jornal O Globo nesta quarta-feira (20) adicionou um novo capítulo de forte suspeita ao redor do financiamento do filme "Dark Horse", documentário focado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com dados obtidos via Agência Nacional do Cinema (Ancine), a proprietária da GoUp Entertainment, Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhuma produção cinematográfica na vida — seja em território nacional ou no exterior.

A falta de currículo no setor audiovisual se estende a todo o grupo empresarial de Karina. A Ancine confirmou, a pedido da reportagem, que as outras duas entidades associadas ao nome da empresária no sistema do órgão regulador — a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil — também jamais registraram ou distribuíram qualquer tipo de conteúdo no país, incluindo produções para cinema, TV aberta ou canais por assinatura.

Empresa sob medida e dinheiro antecipado

Os documentos apontam que a GoUp Entertainment foi criada e moldada estrategicamente com o objetivo aparente de assumir a obra sobre o ex-mandatário. A validação do registro da empresa na Ancine ocorreu em 9 de julho de 2025. Contudo, o contrato social arquivado na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp) mostra que as alterações do objeto social e das atividades econômicas para o ramo audiovisual foram feitas pouco antes, em junho de 2025.

O ponto que mais chama a atenção das autoridades e de especialistas do setor é o fluxo do caixa:

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  • A própria Karina Ferreira da Gama reconheceu que os recursos financeiros destinados à produção começaram a ingressar nas contas em março de 2025 — ou seja, quatro meses antes do registro oficial da produtora na agência reguladora.

  • A origem do dinheiro inicial, segundo ela, é um fundo gerido pelo advogado Paulo Calixto, localizado no Texas, Estados Unidos.

Custo astronômico supera grandes produções nacionais

A planilha orçamentária de "Dark Horse" também acendeu o sinal de alerta no mercado de cinema devido aos valores exorbitantes declarados. Segundo a proprietária da GoUp, as fases de produção e pós-produção do documentário já consumiram cerca de US$ 13 milhões (o equivalente a aproximadamente R$ 65,7 milhões na cotação atual).

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Para efeito de comparação, o valor gasto no filme de Bolsonaro supera com folga o orçamento de grandes e premiadas produções recentes do cinema brasileiro de ficção, que demandam cenografia complexa, figurinos históricos e elencos de peso:

Filme Orçamento Estimado
"O Agente Secreto" (Kléber Mendonça Filho) R$ 28 milhões
"Ainda Estou Aqui" (Walter Salles) R$ 45 milhões
"Dark Horse" (Documentário sobre Bolsonaro) R$ 65,7 milhões

Apesar das cifras milionárias, Karina afirma desconhecer a identidade real dos investidores que injetaram dinheiro no fundo texano. Ela declarou que só tomou conhecimento do suposto envolvimento do empresário e investidor Vorcaro por meio das revelações publicadas em reportagens do portal The Intercept Brasil.

Irregularidades cadastrais

Para além do ineditismo operacional na área de cinema, a situação cadastral das empresas de Karina também apresenta problemas. A Go7 Assessoria e o Instituto Conhecer Brasil, ambos fundados originalmente no ano de 2005, estão operando em situação irregular perante o governo federal.

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Desde janeiro de 2026, as duas entidades estão com os seus respectivos registros suspensos pela Ancine em decorrência da falta de renovação e atualização das obrigações cadastrais exigidas por lei.

As investigações jornalísticas e o monitoramento de órgãos de controle continuam avançando para mapear se o projeto audiovisual foi utilizado como Linha de Transmissão para lavagem de dinheiro ou financiamento político não declarado.

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