A cidade de Bento Gonçalves, um dos principais polos industriais e turísticos da Serra Gaúcha, está chamando a atenção de economistas e gestores públicos de todo o país. O motivo é uma estratégia agressiva e eficaz de "porta de saída" para programas sociais, que conseguiu reduzir drasticamente o número de famílias dependentes de auxílios federais em um curto período.
Em apenas 18 meses, o município registrou uma queda de quase 40% no número de beneficiários do Bolsa Família. O segredo, segundo a administração municipal, não é o corte arbitrário, mas sim a busca ativa e a intermediação direta com o setor produtivo.
Os Números do Sucesso
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Social, o cenário em Bento Gonçalves passou por uma transformação profunda entre o final de 2022 e o início de 2024:
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Novembro de 2022: 2.115 beneficiários cadastrados.
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Março de 2024: 1.296 beneficiários cadastrados.
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Redução Local: ~39%
Para efeito de comparação, o desempenho da cidade supera com folga as esferas estadual e federal. Segundo Renan Pieri, professor de economia da FGV, enquanto Bento Gonçalves reduziu seu índice em quase 40%, o Rio Grande do Sul registrou queda de 15% e a média nacional estagnou em torno de 11%.
Como funciona a "Ponte para o Emprego"
O programa municipal atua em duas frentes principais para garantir que o auxílio chegue a quem realmente precisa e que quem pode trabalhar encontre uma vaga:
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Conexão Direta: Assistentes sociais e agentes da prefeitura identificam os cadastrados e cruzam os perfis com as demandas de mão de obra de empresas locais. A prefeitura auxilia na elaboração de currículos e encaminha os candidatos para entrevistas.
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Fiscalização e Atualização: O prefeito Diogo Siqueira (PL) explica que a busca ativa também serve para manter o cadastro fidedigno. Quando um beneficiário não é localizado no endereço informado, os dados são enviados à gestão federal para bloqueio temporário até que a situação seja regularizada, evitando fraudes ou pagamentos indevidos.
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"O trabalho, quando a pessoa consegue se manter com o próprio sustento, com o próprio suor, é uma dádiva", afirmou o prefeito Siqueira em entrevista à CNN Brasil.
Histórias de Transformação
O impacto do programa é sentido no dia a dia de jovens como Renata de Oliveira, de 23 anos. Após depender do Bolsa Família por dois anos, ela viu sua realidade mudar ao procurar a prefeitura.
"Eles perguntaram se eu tinha interesse em trabalhar. Eu disse que sim, fizeram o meu currículo e começaram a encaminhar para várias empresas", relatou Renata, que hoje atua como atendente de restaurante e conquistou sua independência financeira.
Críticas ao Modelo Federal
Apesar do sucesso em Bento Gonçalves, especialistas apontam que o programa federal ainda carece de mecanismos de transição. Para o professor Renan Pieri, o Bolsa Família falha ao ser apenas um programa de transferência de renda sem "alavancas" de saída.
Faltas apontadas no programa federal:
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Microcrédito: Ausência de linhas de crédito facilitadas para que beneficiários possam abrir pequenos negócios.
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Banco de Currículos: Falta de uma base de dados nacional que conecte empresas que desejam contratar com quem recebe o auxílio.
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Intermediação: Pouca atuação ativa dos governos para facilitar a vida do empresário que busca mão de obra.
A iniciativa de Bento Gonçalves prova que a intermediação municipal pode ser o elo perdido entre a assistência social e a dignidade do emprego formal, servindo de modelo para outras prefeituras que buscam otimizar seus recursos e promover o desenvolvimento econômico regional.