DIVINÓPOLIS – Um fato ocorrido em janeiro deste ano no Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) tornou-se alvo de uma investigação rigorosa pela Polícia Civil de Minas Gerais. Uma jovem de 22 anos denuncia que foi submetida a mais de dez horas de trabalho de parto induzido, mesmo possuindo recomendação médica expressa para uma cesariana devido ao alto risco de pré-eclâmpsia.
O caso, confirmado pelas autoridades nesta terça-feira (24), levanta questionamentos sobre o cumprimento de protocolos assistenciais e a autonomia da paciente em gestações de risco.
O Conflito de Condutas: Cesárea x Indução
Segundo o boletim de ocorrência, a gestante realizou todo o acompanhamento pré-natal com um diagnóstico claro de risco de pré-eclâmpsia (hipertensão gestacional severa). O médico responsável pelo seu acompanhamento já havia emitido um encaminhamento para o parto via cesariana, agendado originalmente para o dia 13 de janeiro.

Foto: Arquivo Pessoal
No entanto, a fatalidade começou a se desenhar dois dias antes, no dia 11, quando a jovem deu entrada no hospital apresentando descontrole na pressão arterial.
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A Denúncia: Mesmo com os relatórios em mãos e o histórico de risco, a equipe do CSSJD teria optado por ignorar a indicação de cesárea e iniciar a indução do parto normal com o uso de medicamentos para dilatação.
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Posição do Bebê: A mãe relatou ainda que a bebê estava em posição pélvica (sentada). Para prosseguir com o parto normal, os médicos teriam realizado uma manobra de versão cefálica externa para tentar virar a criança manualmente dentro do útero.
Dez Horas de Sofrimento e o Uso de Fórceps
O relato da mãe é angustiante. Após dez horas de trabalho de parto sob intensa medicação e monitoramento, os batimentos cardíacos da bebê começaram a oscilar até desaparecerem.
Diante da urgência extrema e do esgotamento da paciente, a equipe médica utilizou o fórceps — um instrumento metálico para auxiliar a saída do bebê. A recém-nascida nasceu sem sinais vitais, foi reanimada pela equipe de neonatologia e encaminhada em estado gravíssimo para a UTI Neonatal. Após lutar pela vida por dois dias, a bebê não resistiu e faleceu.
Entenda os Riscos: O que é a Pré-eclâmpsia?
A pré-eclâmpsia é uma das complicações mais temidas na obstetrícia. Ela se caracteriza pelo aumento súbito da pressão arterial após a 20ª semana de gravidez e pode causar danos a órgãos como rins e fígado. O risco de morte materna e fetal é alto, e o controle rigoroso da via de parto é fundamental para a sobrevivência de ambos.
Posicionamento do Hospital e das Autoridades
Em nota oficial, o Complexo de Saúde São João de Deus afirmou que o caso está sob análise de sua comissão médica interna. A instituição informou que está verificando se todos os protocolos técnicos e padrões de segurança foram seguidos. O hospital ressaltou seu compromisso com a ética e o sigilo profissional, conforme exigido pela LGPD e pelo Código de Ética Médica.
A Polícia Civil já iniciou a coleta de depoimentos e deve requisitar o prontuário médico completo da paciente para perícia. A investigação busca apurar se houve erro médico, imperícia ou negligência na decisão de forçar o parto normal em uma paciente com indicação cirúrgica prévia.
Justiça e Direitos
O caso acende o debate sobre a Violência Obstétrica e o direito da gestante de ter suas orientações de pré-natal respeitadas no ambiente hospitalar. A família aguarda o laudo do Instituto Médico Legal (IML) para anexar ao inquérito.