Dossiê Ubá: R$ 14 milhões em emendas e zero real para prevenir a tragédia que parou a cidade

UBÁ (MG) – Enquanto o Rio Ubá transbordava, atingindo a marca histórica de 7,82 metros e arrastando caixões pelo centro histórico, um abismo orçamentário vinha à tona. Um levantamento realizado pela Jovem Pan News com dados do Portal da Transparência do Governo Federal revela uma realidade incômoda: em 2025, o município recebeu uma "chuva" de recursos, mas nenhum centavo foi carimbado para obras de drenagem ou contenção de encostas.

O Raio-X do Dinheiro Público em 2025

No ano passado, nove deputados federais e a bancada mineira destinaram um total de R$ 14,3 milhões para Ubá. No entanto, a prioridade política ignorou a infraestrutura hídrica, mesmo com o histórico de enchentes da região.

A distribuição dos recursos foi a seguinte:

  • Saúde (Custeio): R$ 10,2 milhões (71,4% do total). Destinados ao Fundo Municipal de Saúde para pagar despesas correntes (pessoal, medicamentos e serviços).

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  • Emendas "Pix" (Transferências Especiais): R$ 3,5 milhões. Recursos de livre aplicação, que entram no caixa da prefeitura sem finalidade definida.

  • Bancada Estadual: R$ 1,05 milhão.


A Ironia dos "Hospitais Afundados"

O levantamento aponta uma contradição trágica: os equipamentos de saúde que receberam o maior volume de verbas de custeio — como a Policlínica Regional, o Centro de Especialidades Odontológicas e unidades de atenção primária — foram justamente os primeiros a fechar as portas, invadidos pela lama e pela destruição.

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"O dinheiro que foi para o custeio da Policlínica está vinculado a um equipamento que as próprias chuvas colocaram fora de operação."

O Mistério dos R$ 3,5 Milhões sem Rastro

Diferente das verbas da saúde, que são vinculadas, os R$ 3,5 milhões enviados via "Emenda Pix" pelos deputados André Janones, Misael Varella, Lafayette de Andrada e Delegada Ione poderiam ter sido usados em obras preventivas de engenharia.

Até o momento, não há transparência sobre onde esse recurso foi aplicado pela gestão municipal. Se ainda estivesse em caixa, esse valor representaria a maior margem de manobra para a reconstrução imediata da cidade.

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Concentração Suspeita: R$ 10 Milhões em 30 dias

Outro dado que chama a atenção na investigação é a "corrida do ouro" ocorrida em julho de 2025. Em um único mês, o Governo Federal liberou 15 ordens bancárias para Ubá, totalizando quase R$ 10 milhões.

O deputado André Janones (Avante-MG) foi o maior doador individual, enviando sozinho R$ 3,99 milhões (27% de todo o recurso federal da cidade), apesar de sua base política ser no Triângulo Mineiro, e não na Zona da Mata.


Cenário de Calamidade e Vulnerabilidade

A tragédia não foi um evento imprevisível. Dados do Cemaden já apontavam Juiz de Fora e Ubá como áreas de altíssimo risco. Na madrugada da última terça-feira (24), o volume de chuva chegou a 170 milímetros em apenas três horas.

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O saldo atual da crise na região:

  • Mortos: 36 (confirmados até o momento).

  • Desaparecidos: 33.

  • Resgatados com vida: 208.

O que acontece agora?

Com o decreto de calamidade pública assinado pelo prefeito José Damato Neto, a prefeitura ganha poderes extraordinários, como a dispensa de licitação. A cobrança agora recai sobre a Câmara Municipal e os órgãos de controle para rastrear se os R$ 14 milhões recebidos em 2025 foram efetivamente executados ou se "evaporaram" antes da chegada da tempestade.


Este conteúdo foi produzido com base em dados públicos do Portal da Transparência (portaldatransparencia.gov.br).

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