RIO DE JANEIRO – O clima de festa na Marquês de Sapucaí deu lugar a uma intensa batalha judicial logo após o encerramento do desfile da Acadêmicos de Niterói. Na manhã desta segunda-feira (16), o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), confirmou que acionará o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a agremiação e o governo federal, alegando crimes eleitorais e desrespeito a valores institucionais.
"Ataque ao projeto de Deus": A reação de Flávio
Através de suas redes sociais, o "filho 01" do ex-presidente Jair Bolsonaro subiu o tom contra o enredo que homenageou o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Para Flávio, a escola ultrapassou os limites da liberdade de expressão artística ao utilizar recursos públicos para promover o que classificou como "ataques pessoais" e ofensas à estrutura familiar.
“Nossa ação contra os crimes do PT na Sapucaí, com dinheiro público, será protocolada rapidamente no TSE! Além dos ataques pessoais a Bolsonaro, eles atacaram o maior projeto de Deus na Terra: a família! Vamos vencer o mal com o bem!”, declarou o senador.
Os pontos de conflito: Sátira e Simbolismo
A revolta da ala bolsonarista foca em elementos específicos que compuseram a narrativa visual da escola na avenida:
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A Estética do "Palhaço": Na Comissão de Frente, um ator representando Jair Bolsonaro apareceu vestido de palhaço enquanto ostentava a faixa presidencial. O clímax da apresentação mostrou o personagem preso, utilizando uma tornozeleira eletrônica danificada — uma referência direta às investigações judiciais que cercam o ex-mandatário.
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Alex Ferro / Riotour
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A Família "em Conserva": A ala intitulada “Neoconservadores em Conserva” foi um dos pontos mais sensíveis. Os componentes desfilaram dentro de fantasias que simulavam latas de conserva gigantes. No rótulo, a imagem de uma família tradicional (pai, mãe e dois filhos) era exibida como algo "datado" ou "preservado artificialmente".
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Estereótipos e Crítica Social: No livro abre-alas (documento oficial entregue aos jurados), a Acadêmicos de Niterói detalhou que a ala buscava satirizar grupos que fazem oposição sistemática ao governo Lula. Entre os representados estavam figuras do agronegócio, mulheres de classe alta (identificadas como "peruas"), entusiastas do período militar e lideranças evangélicas.
Debate sobre o Uso de Verba Pública
Um dos pilares da ação que será movida pelo Partido Liberal (PL) é o financiamento do desfile. Estima-se que a escola tenha recebido cerca de R$ 1 milhão via recursos públicos. A oposição argumenta que o uso desse montante para um enredo que exalta um pré-candidato à reeleição e ridiculariza seus adversários configura abuso de poder econômico e propaganda eleitoral antecipada.
A legislação eleitoral brasileira proíbe qualquer pedido de voto ou promoção pessoal de candidatos antes do período oficial de campanha. O TSE, que anteriormente havia negado um pedido de censura prévia ao desfile, agora deverá analisar se o conteúdo apresentado na Sapucaí gerou desequilíbrio no pleito que se aproxima.
O posicionamento da Escola
Em nota prévia, a Acadêmicos de Niterói afirmou que o Carnaval é um espaço de manifestação popular e crítica social, e que o enredo buscou retratar a história do Brasil sob a ótica da trajetória de Lula, incluindo as tensões políticas inerentes ao processo democrático. A agremiação nega que tenha havido qualquer irregularidade e defende o caráter artístico das alegorias.
O que pode acontecer agora?
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Multas: Caso o TSE entenda que houve propaganda antecipada, as multas podem variar de R$ 5 mil a R$ 25 mil, ou o valor equivalente ao custo da propaganda.
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Inelegibilidade: Em casos extremos de abuso de poder político, a chapa beneficiada pode sofrer sanções mais severas.
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Fotos: Alex Ferro / Riotour