RIO DE JANEIRO – A Marquês de Sapucaí foi palco de um dos desfiles mais controversos dos últimos anos na noite deste domingo (15). A Acadêmicos de Niterói, responsável por abrir os desfiles do Grupo Especial, levou para a avenida o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". A apresentação, que narrou a biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, transformou o sambódromo em um verdadeiro campo de batalha política entre o governo e a oposição.
O presidente Lula assistiu à homenagem em posição de destaque no camarote do Executivo municipal, acompanhado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), além de uma comitiva de ministros e aliados próximos.
O Desfile: Da Retirada de Garanhuns à Prisão de "Bozo"
A escola percorreu a linha do tempo de Lula, iniciando pela infância no agreste pernambucano e a migração para São Paulo. O ponto alto — e mais polêmico — da apresentação ficou por conta da Comissão de Frente, que utilizou encenações teatrais para representar momentos recentes da história do Brasil:
-
A Sucessão e o Impeachment: A entrega da faixa para Dilma Rousseff e a subsequente tomada de poder por Michel Temer, retratado "roubando" o adereço presidencial.
-
O Personagem "Bozo": Em uma clara alusão a Jair Bolsonaro, a escola utilizou o palhaço Bozo para representar o governo anterior. Nas alegorias, o personagem apareceu recebendo a faixa de Temer e, posteriormente, sendo preso em uma cena que contava com a presença de um componente representando o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
-
Programas Sociais: Alas inteiras foram dedicadas a programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, com componentes carregando estandartes de exaltação às marcas das gestões petistas.
A Ofensiva Jurídica e a Tese de Propaganda Antecipada
O desfile não aconteceu sem resistência. O Partido Novo protocolou uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tentando barrar a exibição do enredo e proibindo a escola de entoar o samba, sob o argumento de propaganda eleitoral antecipada, uma vez que Lula é pré-candidato à reeleição em 2026.
Na última quinta-feira (12), o TSE decidiu por unanimidade que não poderia impedir o desfile, classificando a medida como "censura prévia". No entanto, os ministros deixaram claro que a legalidade do evento será julgada a posteriori. Se a Justiça entender que o desfile teve caráter eleitoral deliberado, Lula e a escola de samba podem enfrentar multas pesadas e complicações no registro da futura candidatura.
Outro ponto de desgaste é o financiamento: a revelação de que a Acadêmicos de Niterói recebeu cerca de R$ 1 milhão em verbas públicas muniu a oposição com argumentos de mau uso do dinheiro do contribuinte para fins de promoção pessoal.
Repercussão Nacional: Oposição reage com dureza
A bancada de oposição no Congresso utilizou as redes sociais para condenar a apresentação. O senador Sergio Moro (União-PR) classificou o desfile como algo próprio de "caudilhos populistas" e afirmou que o país caminha para uma "democracia de fachada".
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) rebateu as cenas de prisão do "palhaço" no desfile, lembrando que o histórico judicial de prisão por corrupção pertence a Lula, e não ao seu marido. Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), foi enfático ao classificar o episódio como "constrangedor e inacreditável", prometendo levar o caso às instâncias judiciais cabíveis.
O que diz a Legislação
Segundo o Código Eleitoral brasileiro, a propaganda oficial só é permitida após o dia 15 de agosto do ano da eleição (ou 5 de julho, dependendo de interpretações específicas de calendários eleitorais vigentes). A Justiça agora terá o desafio de definir a fronteira entre a liberdade de expressão artística de uma agremiação cultural e o abuso de poder econômico e político em um ano que precede o pleito nacional.
O Outro Lado
A Acadêmicos de Niterói defende que o enredo é uma homenagem cultural a uma figura histórica do país e que não houve pedido explícito de votos. A assessoria do Palácio do Planalto não emitiu nota oficial sobre as críticas, limitando-se a registrar a presença do presidente como um ato de prestígio à cultura popular carioca.