Por Malu Gaspar/Jornal O Globo
O ano de 2025 chega ao fim com um gosto amargo para as instituições brasileiras. Enquanto o país ainda digere os desdobramentos dos julgamentos dos atos de 8 de janeiro, o foco do debate público deslocou-se para uma teia de relações comerciais e políticas envolvendo nomes da cúpula do Judiciário e o sistema financeiro. No centro do imbróglio, o Banco Master e as figuras dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
O Contrato Milionário e a Suspeita de Conflito de Interesses
O estopim da crise reside em um contrato firmado pelo escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com o Banco Master. O acordo previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais ao longo de três anos — um montante que totalizaria quase R$ 130 milhões ao final do período.
Embora o ministro negue que o escritório tenha atuado na negociação de venda do Master ao BRB (banco estatal de Brasília), a falta de transparência sobre o objeto real do contrato levanta questionamentos. Em nota, Moraes afirmou que sua esposa não trabalhou na operação mais relevante da história da instituição, o que faz pairar no ar a pergunta: qual serviço justificaria pagamentos dessa magnitude?
Pressão sobre o Banco Central e Agendas Ocultas
A controvérsia se estende à relação de Moraes com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Revelações indicam que o ministro teria pressionado Galípolo pela aprovação da venda do Master ao BRB.
O comportamento do presidente do BC tem sido descrito por observadores como "errático":
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Reuniões fora da agenda: O Banco Central confirmou reuniões para discutir as sanções da Lei Magnitsky (aplicadas pelos EUA contra Daniel Vorcaro, do Master), mas tais encontros não constam nos registros públicos de Galípolo.
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Recuos e "off": Galípolo teria negado pressão a interlocutores, mas admitiu que o "Caso Master" foi pauta das conversas com Moraes.
O Paralelo com Dias Toffoli e o Espectro da Lava-Jato
O caso ganha contornos ainda mais graves quando comparado à conduta do ministro Dias Toffoli. O magistrado, que avocou para si o controle da investigação sobre o Banco Master e decretou sigilo máximo, teria viajado para Lima no jato de um empresário acompanhado pelo advogado de um dos investigados no caso.
A comparação com o desmonte da Operação Lava-Jato é inevitável. Se a operação de Curitiba ruiu devido à proximidade indevida entre juiz e acusação, críticos questionam qual régua ética deve ser aplicada agora, quando ministros da Suprema Corte se veem envolvidos em reuniões e contratos com partes interessadas em processos sob sua tutela.
O Destino das Provas e o Futuro da Democracia
A investigação sobre fraudes na cessão de créditos de R$ 12,2 bilhões pelo Master ao BRB continua, mas o futuro é incerto. O conteúdo do telefone celular de Daniel Vorcaro, apreendido em operação policial, permanece sob rígido controle e sigilo.
O cenário atual sugere que o caso corre o risco de ser tragado pela polarização política e pela antecipação da disputa eleitoral de 2026. No entanto, o episódio deixa duas lições fundamentais para a sociedade brasileira:
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Fatos sobre ideologia: Alinhamentos políticos não podem servir de escudo para ignorar evidências de conduta imprópria.
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Instituições vs. Heróis: Uma democracia que depende da blindagem de "heróis" ou "mitos" em detrimento da higidez das instituições é uma democracia permanentemente em xeque.
O desfecho do "Caso Master" definirá se o Brasil avançou na transparência pública ou se apenas trocou os atores de velhos esquemas de poder.