BELO HORIZONTE – O caso do magistrado mineiro filmado consumindo bebida alcoólica e fumando durante uma audiência remota ganhou novos e graves desdobramentos. O juiz Milton Lívio Lemos Salles, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), publicou um vídeo nas redes sociais em que rebate as acusações de quebra de decoro, afirma estar sendo vítima de "difamação" e faz duras acusações de corrupção contra cúpulas do Judiciário estadual e federal.
Na gravação, gravada a partir do Rio de Janeiro, o magistrado dirige ofensas diretas a membros do próprio TJMG, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao Supremo Tribunal Federal (STF) e nominalmente ao ministro Alexandre de Moraes.
Ofensas diretas e alegações sem provas
Com declarações fortes e tom ostensivo, Salles afirmou ter 36 anos de carreira na magistratura e disse falar com "conhecimento de causa" sobre supostas irregularidades nos tribunais superiores e na Corte mineira.
"Quero deixar um depoimento sobre essa difamação que estão fazendo contra mim. Esse Tribunal de Justiça de Minas Gerais, esse STJ, o STF, o Alexandre de Moraes, são todos uns corruptos, [palavra de calão]. Falo como juiz com conhecimento de causa. Olha, tô cansado. Muito cansado", declarou o juiz.
Ainda no vídeo, o magistrado cita nominalmente ex-presidentes e ex-corregedores do TJMG e menciona episódios específicos, como a suposta aquisição irregular de frotas de veículos oficiais, declarando que "sabe de muita coisa do tribunal". Contudo, ele não apresentou documentos ou provas materiais que sustentem as acusações lançadas na gravação.
Ao final da manifestação, Salles declarou estar no Rio de Janeiro "tomando café e curtindo a mulher" e desafiou integrantes do sistema de justiça para debates públicos:
"Se alguém quiser bater de frente comigo, em alguma TV, no Jornal Nacional, o que quer que seja, eu estou à disposição. Muito obrigado", concluiu.
O estopim: Vinho, maçarico e bermuda em sessão virtual
As declarações ocorrem na esteira da polêmica gerada durante um julgamento promovido pelo Núcleo de Justiça 4.0 (Cível e de Família) do TJMG. Durante a transmissão remota, participantes notaram que o juiz empunhava uma garrafa com líquido escuro (semelhante a vinho) e bebia diretamente do gargalo.
Na sequência, o magistrado acendeu um cigarro com o auxílio de um maçarico e continuou fumando durante o ato processual. Em determinado momento, ao se movimentar da cadeira, o enquadramento da câmera revelou que ele vestia um blazer na parte superior, mas usava apenas bermuda na parte inferior. A sessão foi imediatamente suspensa pelos pares diante da evidente incompatibilidade da conduta com o decoro funcional.
Reação do Judiciário e medidas disciplinares
Diante da gravidade dos episódios — tanto da conduta no julgamento quanto do ataque subsequente às instituições —, o Judiciário acionou seus órgãos de controle interno e externo:
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Abertura de Procedimento: A Corregedoria-Geral de Justiça (CGJ-MG) e o Órgão Especial do TJMG instauraram procedimento para apurar eventuais faltas funcionais e infrações ao Código de Ética da Magistratura.
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Atuação do CNJ: A Corregedoria Nacional de Justiça, vinculada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), também acompanha o caso e instaurou Reclamação Disciplinar para examinar os fatos.
Em nota oficial, a presidência do TJMG destacou a rigidez da apuração:
"O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), tão logo ciente dos fatos, solicitou imediata e rigorosa apuração, mediante instauração de procedimento para eventual constatação de falta funcional junto à Corregedoria-Geral de Justiça e ao Órgão Especial do Judiciário estadual mineiro."
Trajetória profissional do magistrado
Milton Lívio Lemos Salles possui longa trajetória no Judiciário mineiro. Atuando na segunda instância da Justiça estadual como juiz convocado/auxiliar de desembargadores, o magistrado já passou por comarcas do interior como Brumadinho, Araçuaí e Montes Claros.
Na capital, Belo Horizonte, ele exerceu por anos a titularidade da 4ª Vara Criminal antes de passar a compor estruturas de apoio do tribunal de segunda instância.