BRASÍLIA – O cenário jurídico da chamada Operação Narco Fluxo sofreu uma reviravolta dramática na tarde desta quinta-feira (23). Poucas horas após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinar a soltura dos investigados, a Justiça Federal acolheu um novo pedido da Polícia Federal e decretou a prisão preventiva do cantor MC Ryan SP e de outros 34 alvos da força-tarefa.
A decisão atinge figuras centrais do entretenimento digital e da música, como MC Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, proprietário da página de fofocas Choquei. A nova ordem judicial anula os efeitos da liberdade que havia sido concedida anteriormente, mantendo o grupo sob custódia por tempo indeterminado.
O "Vaivém" Judiciário
O imbróglio começou na manhã de hoje, quando o ministro Messod Azulay Neto, relator do caso no STJ, concedeu um habeas corpus coletivo aos investigados. O magistrado apontou uma “flagrante irregularidade” no decreto anterior de prisão temporária.
Segundo o entendimento do STJ, o pedido inicial da PF era de cinco dias de prisão, mas a Justiça de instâncias inferiores havia estendido o prazo para 30 dias sem a fundamentação adequada, o que foi considerado um excesso ilegal. No entanto, a liberdade durou pouco: a Polícia Federal apresentou novos elementos e representou pela conversão da medida em prisão preventiva, que foi prontamente aceita pela Justiça Federal.
Bilhão no Alvo: O Esquema Narco Fluxo
A investigação da PF descreve uma engrenagem financeira sofisticada e bilionária. De acordo com o inquérito, o esquema movimentou aproximadamente R$ 1,6 bilhão em um curto período. A estrutura criminosa operava em três frentes principais:
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Origem Ilícita: Os recursos teriam origem em plataformas de apostas não autorizadas (bets), rifas clandestinas e, no escalão mais grave, no tráfico internacional de drogas.
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Lavagem de Capitais: Para "limpar" o dinheiro, o grupo utilizava a pujante indústria fonográfica e de eventos. A suspeita é de que contratos de shows, faturamentos de páginas de entretenimento e carreiras artísticas fossem inflados para camuflar o lucro do crime.
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Engenharia Financeira: O uso de empresas de fachada e contas em nomes de terceiros servia para ocultar os verdadeiros beneficiários dos repasses.
Ordem Pública e Aplicação da Lei
Ao fundamentar o novo pedido de prisão, a Polícia Federal argumentou que a manutenção dos acusados no sistema prisional é indispensável para a “garantia da ordem pública”. A corporação sustenta que, em liberdade, os influenciadores e artistas possuem recursos e influência suficientes para destruir provas, alinhar depoimentos ou até mesmo dar continuidade às operações financeiras ilícitas.
Além disso, a PF apontou o risco à "aplicação da lei penal", sugerindo que o alto poder aquisitivo dos investigados e as conexões internacionais poderiam facilitar uma eventual fuga do país.
Defesas em Alerta
Até o fechamento desta reportagem, as assessorias jurídicas de MC Ryan SP e MC Poze do Rodo não haviam se manifestado oficialmente sobre o novo decreto de preventiva. Em ocasiões anteriores, a defesa de Raphael Sousa Oliveira negou qualquer envolvimento do dono da Choquei com atividades criminosas, afirmando que suas movimentações financeiras são estritamente ligadas ao mercado publicitário.
O caso segue sob sigilo em determinadas etapas, mas a nova decisão judicial sinaliza que as autoridades federais consideram as provas colhidas até agora como "robustas e preocupantes".