Tráfico 4.0: Pontos de droga no Rio são avaliados e classificados como Lojas no Google Maps

RIO DE JANEIRO – A ousadia das facções criminosas no Rio de Janeiro ultrapassou as barreiras geográficas e físicas para ocupar um espaço inusitado: as plataformas digitais de geolocalização. Pontos de comercialização de entorpecentes nas zonas Norte e Oeste da capital fluminense estão sendo cadastrados, classificados e até avaliados por usuários dentro do Google Maps, funcionando como se fossem comércios legítimos.

A prática utiliza o sistema de "Google Meu Negócio" para criar estabelecimentos fictícios sob categorias como “lojas”, “farmácias” e “serviços de conveniência”, servindo de guia para consumidores e um desafio aberto às autoridades.

A "Boca da Praça": Ousadia a 400 metros da Polícia

Um dos casos mais emblemáticos registrados pela reportagem é o da chamada “Boca da Praça”. O ponto de venda de drogas aparece registrado na plataforma a apenas 400 metros da Cidade da Polícia, no Jacarezinho — o maior centro de inteligência e operação policial do estado.

Mesmo com a proximidade física de delegacias especializadas e unidades de elite, o local seguia visível no mapa, com localização exata e um sistema de notas que varia de 1 a 5 estrelas, acessível a qualquer internauta.

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Comentários e "Qualidade do Produto"

O que mais chama a atenção de especialistas em segurança digital é a seção de avaliações. Na “Boca da Lapa”, por exemplo, o campo de comentários públicos é utilizado por usuários para validar a experiência de compra.

  • Alusões Diretas: Comentários elogiam abertamente a "qualidade" da cannabis e a rapidez no atendimento.

  • Cânotagem Semântica: Para evitar filtros automáticos de moderação, os usuários utilizam gírias. Em um local classificado falsamente como "farmácia", um autor cita encontrar "remédio de qualidade", em clara referência a drogas ilícitas.

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  • Facilidade de Acesso: Há relatos sobre a facilidade de chegar ao local e a "segurança" (oferecida pelo tráfico) para quem vai comprar.

O Desafio da Moderação em Gigantes Digitais

A exposição de atividades ilícitas em uma das ferramentas de geolocalização mais utilizadas no mundo levanta um debate urgente sobre a responsabilidade das plataformas digitais. O sistema do Google Maps permite que usuários adicionem locais novos, e a moderação, muitas vezes baseada em algoritmos de inteligência artificial, falha em identificar ironias ou contextos criminosos específicos de determinadas regiões.

Para especialistas, o caso demonstra uma falha crítica na verificação de dados geográficos e na fiscalização de conteúdos que incitam ou facilitam o crime.

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Posicionamento Oficial

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ), questionada sobre a exposição desses pontos, afirmou que mantém um monitoramento constante e atua de forma "firme e contínua" no combate ao narcotráfico.

"As ações são estratégicas e baseadas em inteligência e investigação qualificada. O trabalho busca não apenas fechar os pontos de venda, mas desarticular as estruturas financeiras das facções, identificar lideranças e responsabilizar todos os envolvidos", afirmou a corporação em nota.

A polícia também reforçou que denúncias sobre esses locais podem ser feitas de forma anônima via Disque-Denúncia, e que as informações digitais também servem como subsídio para investigações em curso.

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O Que Diz o Google

O Google informou que possui políticas rígidas contra conteúdos que promovam atividades ilegais e que trabalha para remover perfis de empresas falsas assim que são identificados ou denunciados por usuários.

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