BRASÍLIA – Documentos sigilosos da Receita Federal, encaminhados à CPI do Crime Organizado nesta semana de abril de 2026, revelaram movimentações financeiras expressivas envolvendo o banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, de propriedade de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
Os dados apontam que a instituição financeira transferiu um total de R$ 80,2 milhões para a banca de advocacia em um intervalo de 22 meses, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. O volume dos repasses e o contexto da liquidação do banco colocaram o contrato sob intenso escrutínio parlamentar.
O Contrato: Consultoria e Pareceres
De acordo com o relatório enviado aos parlamentares, os serviços prestados pela banca de Viviane Barci de Moraes focaram em áreas consultivas e preventivas. O escritório detalhou as atividades para justificar os honorários:
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Entregas Técnicas: Elaboração de 36 pareceres e opiniões legais de alta complexidade.
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Gestão Estratégica: Realização de 94 reuniões presenciais e virtuais para tratar de temas como compliance e estruturação jurídica estratégica.
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Divergência de Valores: Um ponto que chamou a atenção dos investigadores da CPI foi que o contrato original previa um valor de R$ 3,6 milhões, mas os pagamentos efetivados alcançaram a cifra de R$ 80,2 milhões, o que, segundo a banca, deve-se a demandas extras e honorários de êxito em consultorias específicas.
O Colapso do Banco Master
Os repasses milionários cessaram abruptamente em novembro de 2025. Naquele mês, o cenário do Banco Master mudou drasticamente com duas ações simultâneas:
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A liquidação extrajudicial da instituição decretada pelo Banco Central devido a inconsistências patrimoniais.
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A prisão de Daniel Vorcaro, controlador do banco, no âmbito de investigações que apuram crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
Defesa e Contrapontos
Tanto o escritório Barci de Moraes quanto o gabinete do ministro Alexandre de Moraes se manifestaram oficialmente para negar qualquer irregularidade ou conflito de interesses.
O Escritório Barci de Moraes: Em nota enviada à imprensa, a banca destacou que o sigilo fiscal foi violado por meio de "vazamentos ilícitos" de informações que deveriam ser protegidas. O escritório afirmou que todas as atividades foram lícitas, devidamente declaradas e que a banca jamais atuou em processos do Banco Master que tramitassem no STF, evitando assim qualquer impedimento legal do ministro.
O Ministro Alexandre de Moraes: Por meio de sua assessoria, o ministro refutou categoricamente qualquer ligação pessoal com Daniel Vorcaro. Moraes declarou que:
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Jamais utilizou aeronaves particulares de propriedade do dono do banco para deslocamentos.
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Não houve qualquer interferência ou atuação do ministro no processo de liquidação da instituição.
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O contrato de sua esposa era estritamente técnico e não possuía relação com as decisões do Banco Central.
Desdobramentos na CPI
A CPI do Crime Organizado agora deve convocar representantes da Receita Federal e técnicos do Banco Central para cruzar os dados dos pareceres emitidos com as movimentações financeiras do banco no período. O objetivo é verificar se os serviços jurídicos foram efetivamente prestados na proporção dos pagamentos realizados.