Em um desdobramento que acentua as tensões entre as instituições de controle e a Suprema Corte, o ministro Dias Toffoli anunciou, na noite desta quinta-feira (12), seu afastamento da relatoria do inquérito que envolve o Banco Master. A decisão ocorreu após uma reunião de emergência a portas fechadas entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que durou até as 20h30.
Embora Toffoli tenha resistido inicialmente, argumentando que não havia base jurídica para sua saída, o magistrado viu-se isolado perante os pares. A avaliação interna é de que sua permanência no caso estava gerando um "desgaste desnecessário" à imagem do Tribunal, especialmente após a Polícia Federal (PF) revelar conteúdos sensíveis extraídos do celular do dono da instituição, Daniel Vorcaro.
O Pivô da Crise: O Celular de Daniel Vorcaro
O estopim para a saída de Toffoli foi um relatório técnico da Polícia Federal enviado ao presidente do STF, Edson Fachin, na última segunda-feira (9). No documento, a PF detalha diversas menções ao nome do ministro no aparelho celular de Vorcaro.
As investigações apontam trocas de mensagens entre o banqueiro e seu cunhado, Fabiano Zettel, discutindo pagamentos à Maridt Participações — empresa da qual Toffoli e seus irmãos são sócios. Os repasses estariam ligados à venda do Tayaya Resort, empreendimento no qual a Maridt possuía participação societária.
A Defesa de Toffoli: "Ilações e Falta de Legitimidade"
Em nota oficial, o gabinete de Dias Toffoli refutou as suspeitas, classificando-as como "ilações". O ministro defendeu-se apresentando cronogramas societários:
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Vínculo com a Maridt: Toffoli afirmou ser apenas sócio, sem funções administrativas, conforme permitido pela Lei Orgânica da Magistratura.
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Resort Tayaya: O magistrado alegou que sua empresa encerrou a participação no grupo em fevereiro de 2025, meses antes de o processo do Banco Master ser distribuído ao seu gabinete (o que ocorreu em 28 de novembro de 2025).
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Relação com Vorcaro: Negou qualquer amizade íntima ou recebimento de valores ilícitos do banqueiro ou de seus familiares.
Nota dos 10 Ministros: Um Apoio Institucional "Estratégico"
Para evitar que a saída de Toffoli fosse interpretada como uma admissão de culpa, os dez ministros do STF assinaram uma nota conjunta. No texto, o colegiado:
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Validou todos os atos praticados por Toffoli enquanto relator.
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Rejeitou a arguição de suspeição levantada pela PF, alegando falta de cabimento legal.
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Afirmou que a redistribuição do caso ocorre por iniciativa própria do ministro, visando o "bom andamento dos processos" e o interesse institucional.
Com a extinção da ação de suspeição, os autos foram redistribuídos por sorteio ainda nesta quinta-feira para um novo relator.
Entenda o Colapso do Banco Master
O caso é considerado um dos maiores escândalos do sistema financeiro nacional recente. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master após identificar:
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Fraudes Contábeis: Estruturação de operações para inflar balanços.
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Riscos Excessivos: Oferta de CDBs com rentabilidade fora dos padrões de mercado.
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Crise de Liquidez: Deterioração rápida dos ativos que impediu a continuidade da operação.
O impacto é bilionário. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) já iniciou o ressarcimento aos credores, com valores que somam R$ 40,6 bilhões. O caso também gerou atritos institucionais entre o STF e o Tribunal de Contas da União (TCU), além da já mencionada tensão com a Polícia Federal.
Linha do Tempo: Do Resort à Relatoria
| Data | Evento |
| Set/2021 | Início da saída da Maridt (empresa de Toffoli) do grupo Tayaya. |
| Fev/2025 | Encerramento total do vínculo societário da Maridt com o resort. |
| Nov/2025 | Banco Central decreta liquidação do Banco Master. |
| 28/Nov/2025 | Caso Banco Master é distribuído para o ministro Dias Toffoli. |
| 09/Fev/2026 | PF envia relatório sobre celular de Vorcaro citando Toffoli. |
| 12/Fev/2026 | Toffoli deixa a relatoria após reunião do Plenário. |