BELO HORIZONTE (MG) — As empresas de transporte rodoviário de cargas de Minas Gerais e do Brasil estão acendendo o sinal de alerta. Mudanças profundas na legislação tributária, o aumento de encargos trabalhistas, restrições a créditos fiscais e a volatilidade no preço dos combustíveis prometem pressionar os custos operacionais do setor e forçar reajustes nos valores dos fretes a partir de 2027.
O alerta é feito pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg). De acordo com a entidade, a sobreposição dessas medidas ameaça a sustentabilidade financeira das transportadoras, exigindo planejamento financeiro rigoroso e renegociações transparentes com os embarcadores (indústrias e comércio).
Efeito Cumulativo: Tributos, Encargos e Limitação de Créditos
Para o presidente do Setcemg, Antonio Luis da Silva Junior, a grande preocupação está no acúmulo de medidas em um curto espaço de tempo. Em um segmento onde combustível, folha de pagamento, manutenção e seguros determinam o sucesso ou o fracasso operacional, a margem de absorção de prejuízos é mínima.
"Não podemos tratar cada mudança de forma isolada. O transporte precisa absorver os efeitos de diferentes medidas ao mesmo tempo. Sem uma remuneração compatível com esses custos, as empresas correm o risco de comprometer seu caixa e seu patrimônio", alerta Antonio Luis.
1. Carga Tributária e Reoneração da Folha
A partir de janeiro de 2027, a previsão de reoneração da folha de pagamento deve elevar os encargos trabalhistas em cerca de cinco pontos percentuais. Além disso, com a Reforma Tributária, a alíquota informada para a CBS é de 11,3% e o IBS foi fixado em 18,7%, atingindo uma carga combinada próxima a 30%.
2. Restrição aos Créditos de Combustíveis
Outro entrave financeiro decorre da Portaria MF nº 3.074/2026, que estabeleceu um limite de R$ 0,3515 por litro para o aproveitamento de créditos de combustíveis, independentemente do preço de venda. Como os combustíveis representam entre 35% e 50% do custo total de uma frota, a perda de créditos impacta diretamente a liquidez do setor.
3. Fim da Escala 6x1 e Impactos Trabalhistas
A eventual transição para o fim da jornada 6x1 sem redução salarial tem potencial de aumentar os custos com mão de obra em cerca de 20%. Em centros logísticos e armazéns com operação ininterrupta (24/7), o impacto pode ser ainda maior devido à necessidade de ampliação das equipes e ao pagamento de horas extras.
Combustíveis e Desafios Logísticos nas Rodovias
A imprevisibilidade sobre o diesel agrava o cenário. A subvenção governamental temporária de R$ 2,12 por litro foi prorrogada por apenas 30 dias, deixando o setor em incerteza quanto aos custos imediatos de abastecimento.
Somam-se a isso os gargalos estruturais já conhecidos pelo transportador mineiro:
-
Má qualidade e conservação de trechos rodoviários;
-
Longos tempos de espera para carga e descarga nas pontas do processo;
-
Restrições de circulação em centros urbanos;
-
Juros elevados no mercado e restrições ao crédito bancário.
Continua após a publicidade
Renegociação dos Fretes é Fator de Sobrevivência
O Setcemg orienta que os empresários revisem urgentemente a composição de custos de seus contratos e cobrem as taxas operacionais devidas (como GRIS, TSO e Ad Valorem).
A entidade reforça que a tabela de frete mínimo serve apenas aos transportadores autônomos e não cobre tributos gerais, riscos, custos administrativos e margem de lucro de uma empresa estruturada. Operar abaixo do custo real para manter volume de carga pode levar à alienação de ativos e à falência.
"Transportadoras e embarcadores dependem uns dos outros. Se os custos do transporte não forem reconhecidos nos contratos, o problema não ficará restrito às empresas de logística. Poderá afetar a regularidade das entregas, o abastecimento e o escoamento da produção", conclui o presidente da entidade.
Programação de Treinamentos e Capacitação
Para mitigar os impactos, o Setcemg promoverá nos próximos três meses uma série de seminários, treinamentos e palestras voltados para empresários, contadores e gestores de frota. O objetivo é capacitar as lideranças do setor em organização financeira, planejamento tributário e técnicas de negociação comercial.