Paulo Gonet afirma que houve “dupla nulidade” na investigação e sustenta que ministro do STF não poderia ter determinado diligências contra pessoas específicas; relatório da PF reúne mensagens, encontros e contratos milionários ligados ao Banco Master
A disputa em torno da investigação que colocou no centro das atenções a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (1º).
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao ministro André Mendonça que encerre a petição que levou a Polícia Federal (PF) a aprofundar as apurações.
A manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) não questiona apenas o conteúdo do relatório produzido pelos investigadores. Gonet coloca em xeque a própria forma como a investigação foi conduzida e sustenta que houve irregularidades capazes de comprometer a validade dos elementos obtidos pela Polícia Federal.
Para o procurador-geral, André Mendonça teria ultrapassado os limites de sua atuação ao determinar que a PF identificasse integrantes de uma suposta “rede de influência e monitoramento” ligada a Vorcaro.
O resultado, segundo a PGR, foi uma investigação que acabou alcançando diretamente Alexandre de Moraes.
O relatório policial possui 218 páginas. De acordo com a manifestação de Gonet, aproximadamente 190 delas são dedicadas a informações relacionadas ao ministro do Supremo.
Gonet sobe o tom contra atuação de Mendonça
A crítica da PGR foi contundente.
Gonet afirma que um magistrado não pode assumir funções próprias da acusação ou da investigação durante a fase pré-processual e utilizar a Polícia Judiciária para conduzir diligências sem a devida provocação.
Na manifestação, o procurador-geral foi direto:
“Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais.”
Gonet também afirmou que não caberia ao magistrado utilizar a estrutura policial como uma espécie de extensão de sua própria atuação investigativa.
Na avaliação da PGR, decisões anteriores do próprio Supremo estabelecem que a mistura entre as funções de juiz e investigador pode provocar a nulidade dos atos praticados e dos resultados obtidos a partir deles.
O argumento é particularmente relevante porque a investigação acabou atingindo um integrante da própria Suprema Corte.
PGR aponta “dupla nulidade”
Na parte final de sua manifestação, Paulo Gonet classificou a situação como uma “dupla nulidade”.
A primeira estaria na determinação de André Mendonça para que fossem realizadas diligências investigativas específicas sem pedido prévio do Ministério Público e sem iniciativa da Polícia Federal.
A segunda estaria relacionada ao surgimento de informações envolvendo Alexandre de Moraes.
Segundo a PGR, uma vez identificados possíveis elementos que justificassem uma investigação contra um ministro do STF, Mendonça deveria ter encaminhado o material à Presidência da Corte.
A decisão sobre a abertura de uma investigação, nesse cenário, caberia ao plenário do Supremo.
Gonet escreveu que seria necessário permitir que o colegiado avaliasse se existiam fundamentos suficientes para prosseguir com uma apuração contra Moraes.
Ao final, a PGR pediu que Mendonça reconheça a nulidade e extinga a petição.
Relatório da PF expõe mensagens, encontros e contratos milionários
A manifestação de Gonet veio no mesmo dia em que André Mendonça retirou o sigilo dos documentos relacionados ao caso.
Com a abertura do material, detalhes até então restritos aos investigadores vieram a público.
O relatório da PF reúne mensagens trocadas por Daniel Vorcaro, registros de encontros com Alexandre de Moraes e documentos relacionados a contratos firmados entre o escritório Barci de Moraes, ligado à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, e empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro.
Entre os documentos analisados estão contratos que envolvem valores expressivos, movimentações financeiras e ativos de alto valor.
A PF também investigou mensagens nas quais Vorcaro buscava informações sobre o avanço de investigações e discutia possíveis medidas judiciais que poderiam afetá-lo.
O material, porém, integra uma investigação. A existência dos documentos e das mensagens não significa, por si só, que tenha sido comprovada qualquer irregularidade ou crime.
Contrato de R$ 108 milhões chama atenção dos investigadores
Um dos pontos mais sensíveis do relatório é um contrato celebrado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes.
Segundo a PF, em 11 de janeiro de 2024, Viviane Barci de Moraes enviou a Daniel Vorcaro uma minuta de prestação de serviços.
O documento passou por alterações e, segundo os investigadores, o histórico do arquivo registrou o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação às 16h30 daquele dia.
Uma versão posterior também teria registrado o mesmo usuário como responsável pela última alteração.
Dias depois, em 23 de janeiro de 2024, o contrato foi assinado.
O acordo previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões.
No total, o valor chegava a R$ 108 milhões.
As circunstâncias envolvendo a elaboração, negociação e execução do contrato passaram a integrar o conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal.
Segundo contrato envolve avião e helicóptero
A investigação encontrou ainda outro contrato, desta vez datado de 12 de maio de 2025, envolvendo o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações.
As conversas analisadas pela PF mostram discussões sobre diferentes formas de transferência de ativos.
Uma das alternativas previa a transferência de bens e quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso determinadas obrigações contratuais não fossem cumpridas.
Daniel Vorcaro rejeitou essa possibilidade.
“Opção 1 não é o negócio”, respondeu o banqueiro.
Em seguida, afirmou:
“Os ativos são deles… já”.
Entre os bens mencionados nas tratativas estavam participações relacionadas a uma aeronave Legacy 650 e a um helicóptero EC 155 B1.
Segundo os documentos analisados pelos investigadores, a participação no avião estava avaliada em US$ 5,51 milhões, enquanto a do helicóptero chegava a aproximadamente US$ 1,33 milhão.
Pagamentos milionários também aparecem no relatório
O relatório da PF registra ainda movimentações financeiras relacionadas ao escritório.
Em 14 de julho de 2025, aparece um pagamento de R$ 3,42 milhões.
Dez dias depois, em 24 de julho, uma funcionária informou a Vorcaro sobre uma cobrança de aproximadamente R$ 22,8 milhões referente a uma fatura do escritório em nome da Viking.
Os registros passaram a fazer parte da documentação analisada pelos investigadores para compreender a relação comercial entre as partes.
Encontros entre Moraes e Vorcaro entram no radar da PF
Além dos contratos, a Polícia Federal identificou registros de encontros entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Um dos episódios citados ocorreu em dezembro de 2023.
Segundo o relatório, Fábio Faria compartilhou com Vorcaro o contato de Moraes. No dia seguinte, houve troca de mensagens relacionadas a um almoço de “Alex” em Campos do Jordão.
Vorcaro teria enviado a localização do hotel e orientado funcionários sobre a chegada.
Outros registros aparecem ao longo de 2025.
Em 19 de março, Vorcaro escreveu a uma pessoa próxima que estava “com o Ministro”. Pouco depois, teria informado a outra pessoa que estava “com Moraes aqui”.
Na madrugada seguinte, relatou que outras pessoas haviam chegado para “falarem com Alexandre”.
Em 19 de abril, afirmou que estava “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”.
Dez dias depois, novamente fez referência a estar com “Alexandre”.
A PF incluiu os registros no relatório como parte da análise dos contatos mantidos entre o banqueiro e o ministro.
Mensagens sobre buscas, sigilos e possível prisão
Outro trecho que ganhou destaque envolve mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro em outubro e novembro de 2025.
De acordo com a PF, algumas mensagens foram escritas inicialmente no aplicativo de notas do celular, transformadas em imagens e posteriormente enviadas pelo WhatsApp.
Os investigadores identificaram o destinatário como um contato salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Em uma das mensagens, datada de 30 de outubro, Vorcaro teria discutido a necessidade de interlocução com autoridades diante do avanço das investigações.
Em outro registro, perguntou:
“médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”
Na sequência, questionou:
“Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”
Dois dias antes de sua prisão, em 15 de novembro, outra mensagem chamou a atenção dos investigadores.
Vorcaro perguntou:
“Acha que segunda tenho que estar fora?”
As mensagens foram incorporadas ao relatório da PF como parte do conjunto de elementos que os investigadores consideraram relevantes para compreender a atuação e as preocupações do banqueiro naquele período.
Escritório de Moraes apresenta explicação
O escritório Barci de Moraes contestou qualquer interpretação de irregularidade.
Em nota, afirmou que Alexandre de Moraes foi consultado pelo setor de compliance antes da assinatura do primeiro contrato, justamente para verificar a existência de eventual impedimento legal.
Segundo o escritório, não havia previsão de atuação perante o STF em processos relacionados ao Banco Master.
A banca também afirmou que o ministro jamais julgou causa envolvendo o banco.
A justificativa apresentada é que, após a análise de compliance, não teria sido identificado impedimento jurídico para a contratação e os serviços foram efetivamente prestados.
O que pode acontecer agora?
O pedido de Paulo Gonet coloca a investigação diante de uma discussão que vai além do conteúdo das mensagens e contratos.
O ponto central agora é saber se os atos determinados por André Mendonça foram juridicamente válidos e se os elementos obtidos pela Polícia Federal poderão continuar sendo utilizados.
Caso Mendonça acolha o pedido da PGR, a petição poderá ser encerrada e a validade dos elementos produzidos a partir das determinações questionadas poderá ser colocada em xeque.
Se o pedido for rejeitado, a controvérsia deverá continuar no Supremo, com possibilidade de novos questionamentos sobre a competência do relator, os limites da atuação judicial durante a fase pré-processual e o tratamento de eventuais informações envolvendo ministros da própria Corte.
Caso coloca STF, PGR e PF no centro de uma disputa institucional
O episódio reúne três instituições centrais do sistema de Justiça brasileiro — STF, PGR e Polícia Federal — e abre uma discussão sobre os limites entre investigação, acusação e julgamento.
De um lado, a Polícia Federal produziu um relatório extenso, reunindo mensagens, documentos, registros de encontros e informações financeiras.
De outro, a Procuradoria-Geral da República questiona a legalidade da forma como parte dessa investigação foi conduzida.
No centro da controvérsia está Alexandre de Moraes, ministro do STF, e sua relação com Daniel Vorcaro, banqueiro que se tornou alvo de investigações.
Enquanto a PGR sustenta que o procedimento possui vícios capazes de provocar sua nulidade, os documentos divulgados pela PF continuam alimentando questionamentos sobre os contatos, contratos e interlocuções registrados durante o período investigado.
Por enquanto, o caso permanece em disputa no Supremo, e nenhum dos elementos divulgados deve ser tratado isoladamente como prova definitiva de crime ou de responsabilidade.
A decisão de André Mendonça sobre o pedido da PGR será determinante para definir o futuro da investigação e, principalmente, o destino dos elementos reunidos pela Polícia Federal.
Diálogos extraídos pela PF do celular do dono do Master, revelados pelo Estadão, mostram que banqueiro e ministro do STF conversaram sobre detalhes sensíveis da Operação Compliance Zero - que o acabou prendendo por duas vezes
Resumo cronológico
28/10/2025
11h04

A 20 dias de sua prisão pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro sonda a possibilidade de um encontro com o ministro do STF Alexandre de Moraes em Brasília
30/10/2025
13h26

Na ocasião, Moraes viajou à capital espanhola como representante do STF no VI Congresso da Conferência Mundial sobre Justiça Constitucional. O evento foi realizado entre os dias 28 e 30 daquele mês
13h33

O primeiro registro da troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes em que o banqueiro sugere uma tentativa de intervenção para frear as investigações sobre o Banco Master também traz uma atualização sobre a situação financeira da instituição
13h41

Após encaminhar os nomes dos delegados e procuradores à frente da Operação Compliance Zero ao ministro do STF, Vorcaro diz que não há problema em investigar o Banco Master
13h52

13h55

4/11/2025
17h21

Diálogo indica, segundo investigadores da Polícia Federal, que o ministro do STF repassou informações sigilosas sobre a investigação ao banqueiro
17h43

17h51

Referência ao procurador-geral da República, Paulo Gustavo Gonet Branco, que se reuniu com advogados de Vorcaro antes da prisão do banqueiro e disse em diálogos que sentia 'saudades' do empresário, segundo a PF
17h52

Vorcaro estava empenhado em vender os ativos do Banco Master a um grupo de investidores sediados em Dubai, nos Emirados Árabes , e a Fictor Holding Financeira. O negócio foi frustrado com a prisão de Vorcaro e posterior liquidação do banco
18h15

A 13 dias, Alexandre de Moraes adiantou ao banqueiro que ele seria alvo de buscas ou quebra de sigilo, apontam diálogos
19h09

20h45

Daniel Vorcaro rogava ao ministro do STF por um acompanhamento interno da investigação que o prenderia em 17 de novembro, indica PF
5/11/2025
08h16

Pierpaolo Cruz Bottini, advogado criminalista, e Roberto Podval, criminalista, ambos atuando na defesa do banqueiro na ocasião, se reuniram antes da primeira fase da operação com o PGR Paulo Gonet, diz mensagem
08h17

Segunda referência ao suposto compartilhamento de dados sigilosos pelo ministro do STF ao banqueiro, de acordo com a PF
14h11

Pualo Gonet disse aos advogados de Vorcaro que não haveria 'sacanagem' na investigação, aponta diálogo
19h05

6/11/2025
16h26

Terceiro momento que indica repasse indevido de informações sensíveis da Operação Compliance Zero ao banqueiro pelo ministro Alexandre de Moraes
20h57

Advogado Pierpaolo Cruz Bottini, então defensor de Vorcaro, tentava antecipar informações da investigação, sugere diálogo
22h18

Pedido de orientação de Vorcaro ao ministro para que checasse internamente se a investigação estaria “controlada” em Brasília, base original da investigação, que depois alçou ao Supremo
22h29

Vorcaro indica que advogados insistiam no acompanhamento processual paralelo do caso, aponta PF
22h33

10/11/2025
17h50

A sete dias da prisão, Vorcaro deu início a uma blitz para se encontrar com o ministro do STF
11/11/2025
20h44

12/11/2025
08h55

A família do ministro, citada no diálogo, conhecia o banqueiro Daniel Vorcaro. O escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, firmou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master. Os dois filhos do ministro, Giuliana e Alexandre, trabalham no escritório Barci de Moraes como advogados
09h20

Vorcaro seguiu em busca de encontros com o ministro Alexandre de Moraes poucos dias antes de ser preso
09h21

09h37

Alexandre de Moraes aceitou o convite do banqueiro para um encontro em meio a uma série de divulgações de informações sigilosas da investigação pelo ministro, segundo a PF
13/11/2025
10h40

14/11/2025
10h03

Encontro acertado entre o ministro do STF e o banqueiro suspeito de fraudar R$ 12 bilhões em ativos podres do Banco Master, aponta mensagem
18h19

Após o encontro, um afago ao ministro, sugere diálogo
15/11/2025
18h22

A dois dias da prisão, Vorcaro recebeu, por intermédio do ministro, a confirmação de que o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10.ª Vara Federal do DF, estava com o pedido de prisão do banqueiro em seu gabinete, diz PF
18h23

Pedido expresso do banqueiro do Master ao ministro do STF, segundo a PF, para que o diretor-geral da corporação, delegado Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, travassem a investigação
19h43

Vorcaro reclama ao ministro das investidas promovidas pelos investigadores da Polícia Federal
21h23

O último encontro de Vorcaro e Moraes antes da prisão estava selado neste diálogo, segundo a PF
21h33

21h41

21h49

22h03

22h06

22h12

O banqueiro pede orientação jurídica ao ministro Alexandre de Moraes diante da iminência da deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, que resultaria na prisão de Vorcaro no dia seguinte ao envio da mensagem
22h28

Menção ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que decretou a liquidação do Master um dia após a prisão do banqueiro
22h43

16/11/2025
13h40

Vinte e quatro horas antes de ser preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, tentando deixar o País, Daniel Vorcaro foi a Brasília para se encontrar com o ministro Alexandre de Moraes
16h57

Vorcaro sugeriu ao ministro do STF que conversasse com Andrei Rodrigues para atrasar o cumprimento da prisão, indica diálogo; ordem foi cumprida no dia seguinte
18h20

Trecho de relatório da PF sobre relação de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro
17/11/2025
07h19

Preocupado com a ofensiva da Polícia Federal, Vorcaro tentou obter do ministro informações sobre a data e a hora do cumprimento da primeira fase da operação
17h22

Vorcaro anunciou a venda do Banco Master a investidores estrangeiros e à Fictor como parte da estratégia para se desfazer dos ativos podres do banco e evitar a deflagração da operação. O banqueiro fez questão de informar o ministro sobre o movimento
17h26

20h04

20h48

Aguardando no terminal executivo do Aeroporto Internacional de São Paulo por seu jatinho, que o levaria a Malta e depois a Dubai, Vorcaro enviou sua última mensagem ao ministro Alexandre de Moraes. Duas horas depois, seria preso pela Polícia Federal.
Reportagem: Fausto Macedo, Felipe de Paula, Aguirre Talento e Gustavo Côrtes; Edição: Francisco Leali e Anna Carolina Papp; Design multimídia: William Brizola; Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia multimídia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor Executivo em Brasília: Murilo Rodrigues Alves/Estadão Conteúdo.