BELO HORIZONTE – O Tribunal do Júri de Belo Horizonte condenou, na última quarta-feira (29/07), três integrantes de uma torcida organizada do Cruzeiro envolvidos em uma violenta emboscada contra um ônibus do transporte coletivo em novembro de 2021. O ataque, motivado por rivalidade entre organizadas, culminou na morte brutal de um jovem atleticano de 20 anos e espalhou terror entre os passageiros da linha 6350 (Vilarinho/Barreiro), no bairro Novo das Indústrias, região do Barreiro.
A acusação foi conduzida pela 7ª Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), representada pelos promotores de Justiça Rodrigo Ladeira de Araújo Abreu, Janaíni Keilly Brandão Silveira e Luciano Sotero Santiago.
Penas ultrapassam 92 anos de reclusão no total
Os réus foram responsabilizados por homicídio qualificado consumado e, no caso do réu de maior pena, por cinco tentativas de homicídio contra outros passageiros que estavam no coletivo.
Com o acolhimento integral das teses apresentadas pelo Ministério Público, as penas foram fixadas da seguinte forma:
-
Réu de 25 anos: Condenado a 48 anos e 6 meses de prisão em regime fechado (condenado pelo homicídio consumado e pelas tentativas de homicídio com uso de fogo);
-
Réu de 28 anos: Condenado a 24 anos de prisão;
-
Réu de 24 anos: Condenado a 20 anos de prisão.
Continua após a publicidade
Com a prolatação da sentença em plenário, o juiz expediu imediatamente os mandados de prisão, e os três condenados — que aguardavam o processo em liberdade — foram conduzidos diretamente para o sistema prisional mineiro. Um quarto envolvido teve o processo desmembrado e responderá em um julgamento posterior.
O crime: Emboscada, coquetel molotov e recusa de socorro
De acordo com a denúncia do MPMG, o crime ocorreu em novembro de 2021, logo após o Atlético Mineiro vencer o Fluminense no Estádio Mineirão. Sabendo que torcedores rivais retornavam para a região do Barreiro, os réus mobilizaram comparsas e utilizaram um carro de passeio para interceptar a linha de ônibus 6350.
Armados com pedras, bolas de sinuca, barras de ferro, pedaços de pau e bombas caseiras, os agressores cercaram o coletivo e iniciaram o massacre, gritando que todos ali iriam morrer.
"Trata-se de um caso bastante complexo e que envolvia a atuação de torcidas organizadas. Eles foram flagrados após esses atos agressivos contra o coletivo, atacando também pessoas comuns, só porque estavam no mesmo coletivo do que pessoas uniformizadas com camisas do Atlético. Eles utilizaram paus, pedras e bombas contra o coletivo" — Janaíni Keilly Brandão, promotora de Justiça.
Ainda segundo a investigação, passageiros desesperados tentaram negociar com os agressores, pedindo a liberação de idosos, crianças e pessoas que sequer tinham relação com o futebol. O pedido foi negado pelos réus. Pessoas que tentavam pular pelas janelas do ônibus eram covardemente espancadas.
A vítima fatal, um jovem de 20 anos que sequer vestia camisa de torcida organizada no momento do ataque, foi severamente agredida ao tentar fugir. Ele chegou a ser socorrido e hospitalizado, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos.
Qualificadoras mantidas pelo Júri
Os jurados acataram todas as qualificadoras sustentadas pelos promotores no julgamento:
-
Motivo torpe: Derivado da rivalidade irracional entre torcidas organizadas;
-
Recurso que dificultou a defesa das vítimas: Caracterizado pela emboscada e pelo cerco ao veículo em movimento;
-
Meio cruel: Pela brutalidade das agressões e utilização de fogo/explosivos contra as vítimas no interior e entorno do coletivo.
Logo após o crime, a Polícia Militar agiu rápido e interceptou o veículo usado pelos acusados na fuga. Dentro do carro, os policiais apreenderam três bastões de madeira, cinco artefatos explosivos de fabricação caseira, um soco inglês e rojões.
Justiça após anulação de julgamento anterior
Os réus já haviam sido submetidos ao Tribunal do Júri anteriormente, mas a sessão havia sido anulada por decisões judiciais que reconheceram falhas formais no processo. Durante o período de remarcação, os acusados permaneceram em liberdade.
Para o promotor de Justiça Luciano Sotero Santiago, a decisão traz alívio e sensação de dever cumprido para a família da vítima.
"Nós obtivemos essa condenação em respeito à vítima que morreu. Um jovem de 20 anos que foi trucidado pelo ódio de uma torcida em relação a outra. A mãe dele há muito tempo ansiava por isso" — Luciano Sotero Santiago, promotor de Justiça.
O promotor Rodrigo Ladeira também destacou o esforço conjunto da equipe para enfrentar a complexidade do plenário: "Foi um processo de grande dificuldade, com diversas imputações. Alcançamos esse resultado com a união de esforços em um julgamento de dois dias repleto de nuances", concluiu.