BELO HORIZONTE e PASSOS – Um intervalo de apenas 72 horas foi suficiente para escancarar as fragilidades e os gargalos estruturais do sistema prisional mineiro. Duas fugas registradas em diferentes regiões de Minas Gerais resultaram na evasão de 13 detentos — dos quais nove permanecem foragidos. O cenário colocou a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) sob pressão e acendeu o alerta do Sindicato dos Policiais Penais de Minas Gerais (Sindppen-MG), que denuncia sucateamento e déficits históricos na segurança pública do estado.
Fuga na Gameleira: parede escavada e muro ultrapassado
A primeira ocorrência foi registrada na madrugada de segunda-feira (27/07), no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) Gameleira, localizado na região Oeste de Belo Horizonte. Sete presos conseguiram cavar um buraco na estrutura da cela e transpor os muros do complexo.
Até o momento, quatro detentos foram recapturados pelas forças de segurança. Continuam sendo procurados pela polícia:
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Luiz Fernando Freitas Pereira, de 20 anos, conhecido como “Bolotinha”;
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Saymon Patric Gomes Silva, de 23 anos, o “LB”;
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Bruno Gustavo Gomes da Paixão, de 33 anos.
Cadeado rompido no Sul de Minas
Três dias após o episódio na capital, na quinta-feira (30/07), uma nova ocorrência movimentou o Presídio de Passos, no Sul do estado. Durante uma conferência matinal de rotina, os policiais penais identificaram que o cadeado de uma das celas havia sido arrombado.
Seis presidiários conseguiram escapar e, até a última atualização divulgada pelas autoridades, nenhum deles havia sido localizado. Os foragidos são:
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Diogo Henrique da Cruz Fabiano
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Júlio Arnaldo Toledo
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Leonardo Willians Silva Pereira
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Marcos Túlio Cruz Fabiano
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Matheus Loiola Divino
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Wagner Santos de Lima
Estrutura 'esfarelando' e equipamentos vencidos
Para o vice-presidente do Sindppen-MG, Wladimir Dantas, as ocorrências não podem ser encaradas de forma isolada. Ele afirma que as unidades prisionais do estado padecem com a falta de manutenção preventivas e corretivas, além de operarem com materiais obsoletos.
"Não é um fato isolado. Os cadeados são antigos e obsoletos, o maquinário é ruim e as unidades, principalmente o Ceresp Gameleira, sofrem com a falta de manutenção. Quem passa a mão na parede vê que o reboco esfarela. É uma estrutura muito antiga, com infiltrações e instalações deterioradas" — Wladimir Dantas, vice-presidente do Sindppen-MG.
O dirigente sindical pontua ainda que a burocracia governamental impede que os reparos aconteçam no tempo necessário. "Há pedidos de manutenção há muito tempo, mas tudo depende de licitação e esses processos acabam travando na morosidade do Estado. Enquanto isso, o tempo passa e a estrutura envelhece", desabafa.
Além dos prédios, o sindicato alerta para os riscos à integridade física dos próprios agentes. Segundo Dantas, a categoria convive com coletes balísticos com prazo de validade vencido, armamento antigo e equipamentos de proteção individual defasados.
Superpopulação vs. Falta de efetivo
A conta entre a quantidade de detentos e o número de agentes de segurança também é motivo de divergência. De acordo com o sindicato, Minas Gerais conta atualmente com pouco mais de 16 mil policiais penais para custodiar uma população carcerária expressiva espalhada por 168 unidades.
Dantas relembra a evolução dos números: quando a Polícia Penal assumiu a gestão das cadeias em 2004, o estado abrigava cerca de 20 mil detentos. Hoje, o volume de acautelados supera os 70 mil. "Somos a segunda maior malha carcerária do país. O ideal seria operarmos com um contingente entre 25 mil e 30 mil servidores para garantir a ordem, mas o crescimento da estrutura e do efetivo não acompanhou a explosão da população prisional", argumenta.
O outro lado: O que diz a Sejusp-MG
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública contestou as críticas sobre o sucateamento e rebateu as declarações do sindicato.
Em relação ao Ceresp Gameleira, a pasta informou que a unidade passou por uma ampla reforma na área carcerária entregue em 2024. Após quase dois anos de intervenções, a capacidade do presídio saltou de 412 para 798 vagas — uma ampliação de 93,69% na oferta de leitos (386 novas vagas).
Sobre o panorama geral do estado, os dados mais recentes da Sejusp (maio de 2026) indicam que a pasta administra 166 unidades prisionais, mantendo sob sua custódia cerca de 72 mil detentos para um total aproximado de 42.500 vagas formais.
Em nota oficial, a Sejusp destacou os investimentos recentes na recomposição do quadro de pessoal:
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Posse de novos agentes: Cerca de 3,4 mil novos policiais penais tomaram posse no sistema ao longo de 2024.
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Concursos em andamento: Está em fase de execução um processo seletivo para o preenchimento de 1.178 novas vagas.
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Balanço da gestão: A pasta ressalta que este é o segundo edital promovido pela atual administração estadual, somando quase 5 mil policiais penais contratados no período.
A Polícia Civil de Minas Gerais instaurou procedimentos administrativos e periciais para apurar as circunstâncias exatas das duas fugas e averiguar eventuais responsabilidades. As forças de segurança seguem com operações de varredura para localizar e recapturar os nove fugitivos.