CATALÃO / GO — Em um discurso marcado por forte tom diplomático e nacionalista, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reagiu publicamente nesta terça-feira (2) à proposta dos Estados Unidos de sobretaxar os produtos brasileiros. Lula afirmou que espera um telefonema direto do presidente americano, Donald Trump, para que ele explique a recomendação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) de aplicar uma tarifa geral de 25% sobre as exportações do Brasil.
A retaliação de Washington é baseada em um relatório que classifica as políticas comerciais brasileiras como "irrazoáveis", apontando supostas barreiras ao comércio norte-americano em seis áreas, incluindo o sistema de pagamentos instantâneos Pix, o mercado de etanol, patentes e o combate ao desmatamento ilegal.
Cobrança por Acordo de Bastidores e a "Química" Entre Líderes
A declaração ocorreu durante a cerimônia de inauguração do Hospital Universitário da Universidade Federal de Catalão (HU-UFCAT), no interior de Goiás. Em seu pronunciamento, Lula revelou detalhes de bastidores de suas últimas conversas com Trump e cobrou o cumprimento de um prazo de negociação que havia sido acordado entre as duas diplomacias:
“Eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência, porque esse acordo não pode ter a sua anuência. Nós dois combinamos 30 dias, até 15 de julho, para termos uma resposta sobre o que nós propusemos”, disparou o presidente brasileiro.
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Em tom informal e direto, o petista relembrou a suposta boa relação construída nos encontros bilaterais recentes:
“Trump, é o seguinte, cara: você disse que pintou uma química entre nós. Quem anunciou isso não foi você nem eu. Você me deu uma reunião e eu dei uma reunião para você, porque nós demos 30 dias para os nossos negociadores conversarem”, destacou.
As Contrapropostas do Brasil a Washington
Lula ressaltou que o governo brasileiro não adotou uma postura passiva diante das demandas americanas. Segundo ele, uma robusta pauta de cooperação estratégica foi apresentada a Donald Trump nas últimas semanas, demonstrando a disposição do Brasil em negociar, desde que de forma equilibrada. Entre os temas oferecidos pelo Brasil estão:
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Minerais Críticos e Terras Raras: Parcerias para o fornecimento de insumos essenciais para a transição energética e indústrias de alta tecnologia;
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Segurança Pública: Ações conjuntas transnacionais de combate ao crime organizado;
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Ampliação Comercial: Mecanismos para diversificar e aumentar o fluxo de importações e exportações entre os dois países.
O presidente brasileiro também fez uma defesa enfática do Pix, citado no relatório americano como um entrave para empresas de pagamento dos EUA. Lula classificou a ferramenta como uma "invenção brasileira que beneficia e liberta a população", rechaçando qualquer tentativa de interferência externa sobre o sistema financeiro nacional.
Diplomacia de "Cabeça Erguida" e Presença de Ministros
Diante do público presente em Goiás, Lula aproveitou o embate internacional para inflar o discurso de soberania nacional, afirmando que a diplomacia brasileira aprendeu a agir de “cabeça erguida”, sem se considerar inferior a qualquer potência estrangeira.
“Nós não somos melhores nem piores do que nenhum país. Eu nunca baixei a cabeça para ninguém e não vou baixar agora. Não tememos pressões de Trump. O Brasil não quer guerra com os Estados Unidos, o que nós buscamos é a paz, o comércio justo e o respeito mútuo”, declarou o petista.
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A comitiva presidencial no evento em Catalão contou com forte peso político, incluindo os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Leonardo Barchini (Educação) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), que endossaram o tom de defesa da soberania e dos investimentos federais em infraestrutura.
O Calendário do Impasse Comercial
O plano do USTR de impor a barreira tarifária de 25% segue agora um rito legal em Washington. O órgão abriu o texto para consulta pública até o dia 1º de julho. Uma audiência pública oficial para debater as sanções contra o Brasil está agendada para o dia 6 de julho, e o prazo legal limite para a tomada de medidas corretivas finais — data em que as tarifas podem entrar efetivamente em vigor — é o dia 15 de julho, exatamente o limite do prazo cobrado por Lula.