O cenário jurídico internacional envolvendo figuras políticas brasileiras registrou uma reviravolta histórica. A Suprema Corte de Cassação da Itália anulou, nesta sexta-feira (22), a decisão anterior da Corte de Apelações que havia dado aval para a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli para o Brasil. Com a nova decisão, a corte máxima da Justiça italiana determinou a liberação imediata da ex-parlamentar.
Zambelli deixou as instalações prisionais poucas horas após o anúncio do veredito. Logo em seguida, um de seus advogados italianos, Pieremilio Sammarco, publicou um vídeo nas redes sociais onde a ex-deputada celebrou a conquista da liberdade.
“Hoje, 22 de maio de 2026, dia de Santa Rita, a gente conseguiu. O [Pier]emilio conseguiu fazer o impossível, que era lutar contra um sistema gigantesco. Ele foi um grande leão em tudo isso. Esse é o primeiro vídeo que eu faço em liberdade. Em liberdade. Foi muito bonito”, declarou Zambelli.
Na gravação, a ex-parlamentar relatou o momento em que recebeu o alvará de soltura dentro da instituição penal, afirmando ter sido aplaudida: “E, disse bem alto, dentro da prisão: cada um de vocês que creem em Deus, [ele] vai abençoar”. Zambelli também acrescentou que, a partir de agora, “continuará uma vida de missão” e que trará novos anúncios em seus canais oficiais em breve.
Próximos Passos: Decisão Final Cabe ao Ministério da Justiça Italiano
Apesar da vitória crucial obtida na Suprema Corte de Cassação, o embate jurídico não está totalmente encerrado, mas migra agora para a esfera política e administrativa.
O processo contra a ex-deputada foi encaminhado para o Ministério da Justiça da Itália. O titular da pasta, o ministro Carlo Nordio, passa a ter um prazo legal de 45 dias para se manifestar oficialmente a favor ou contra o pedido de extradição formulado pelas autoridades brasileiras. Até que haja essa definição, Zambelli aguardará o desfecho em liberdade em solo italiano.
Até então, a ex-parlamentar vinha cumprindo prisão preventiva desde julho de 2025, quando foi detida na ala feminina da Penitenciária de Rebibbia, localizada na capital Roma.
O Histórico de Condenações no Brasil e a Rota de Fuga
O pedido de extradição e a posterior inclusão de Carla Zambelli nos sistemas da Interpol decorrem de uma série de condenações criminais de grande repercussão impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil.
1. O caso da invasão ao sistema do CNJ
Em maio de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Zambelli a uma pena de 10 anos de prisão em regime inicialmente fechado. Ela foi considerada culpada por arquitetar e participar da invasão cibernética aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), episódio que contou com a atuação do hacker Walter Delgatti Neto.
Imediatamente após a condenação, a ex-deputada iniciou uma rota de fuga internacional para evitar o cumprimento da pena:
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Maio de 2025: Deixou o Brasil rumo a Buenos Aires, na Argentina;
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Na sequência: Viajou para o estado da Flórida, nos Estados Unidos;
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Junho de 2025: Desembarcou na Itália, local onde pretendia se fixar de forma permanente sob a crença de que sua cidadania italiana impediria qualquer envio forçado ao Brasil. No entanto, ainda no dia de seu desembarque, seu nome foi inserido na lista da Difusão Vermelha da Interpol.
2. Episódio armada em São Paulo
Em agosto de 2025, enquanto já estava detida na Europa, o STF emitiu uma nova sentença contra Zambelli. Ela foi condenada a cinco anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal.
A punição faz referência ao emblemático episódio ocorrido na véspera do segundo turno das eleições de 2022, no qual a então deputada sacou uma pistola e perseguiu um homem negro pelas calçadas do bairro dos Jardins, na zona oeste de São Paulo.
Perda de Mandato e Renúncia
O cerco jurídico provocou também o fim de sua carreira parlamentar na Câmara dos Deputados. Em dezembro de 2025, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou a revogação de um ato interno da Mesa Diretora da Câmara que tentava blindar e manter o mandato da parlamentar. Diante da iminência de uma cassação fulminante no plenário, Carla Zambelli optou por assinar sua carta de renúncia ao cargo dias após a decisão do ministro.