WASHINGTON / BRASÍLIA – O clima diplomático entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca sofreu um forte abalo nesta semana. O governo dos Estados Unidos solicitou formalmente que o delegado da Polícia Federal, Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da corporação na Flórida, deixe o território americano imediatamente.
A medida é uma resposta direta à operação realizada na semana passada, que culminou na prisão do ex-deputado federal e ex-diretor da ABIN, Alexandre Ramagem (PL-RJ), em solo estadunidense.
A Acusação: Manipulação do Sistema Migratório
Embora o Departamento de Estado dos EUA mantenha o protocolo de não citar nomes de funcionários estrangeiros em comunicados abertos, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental publicou uma nota contundente na rede social X (antigo Twitter). Nela, o órgão acusa o oficial brasileiro de utilizar métodos irregulares para efetivar a captura do político brasileiro.
De acordo com o governo americano, o delegado teria tentado "manipular" o sistema de imigração para forçar a saída ou a entrega de Ramagem, ignorando os trâmites legais de cooperação jurídica internacional.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração tanto para contornar pedidos de extradições formais quanto para estender caça às bruxas política ao território dos Estados Unidos. Hoje, nós pedimos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso”, diz o comunicado oficial.
"Caça às Bruxas" e Soberania
O uso do termo “caça às bruxas política” chamou a atenção de analistas internacionais. A expressão sinaliza que Washington interpreta a ação da Polícia Federal não apenas como um erro procedimental, mas como um uso político das instituições brasileiras dentro de jurisdição americana.
Especialistas indicam que, para os EUA, o delegado teria tentado "atalhar" o processo de extradição — que costuma ser lento e exigir provas robustas analisadas pela justiça americana — ao tentar usar regras migratórias (como cancelamento de visto ou deportação sumária) para atingir um objetivo criminal/político.
Contexto: A Prisão de Alexandre Ramagem
Alexandre Ramagem, figura central em investigações sobre monitoramento ilegal pela ABIN durante o governo anterior, foi preso na Flórida na semana passada. A operação foi celebrada por setores do governo brasileiro, mas a forma como a coordenação com as autoridades americanas foi conduzida agora gera o revés.
A saída compulsória de um "oficial de ligação" é considerada uma medida severa na diplomacia. Esses profissionais são os responsáveis por facilitar a troca de informações em casos de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e crimes transnacionais.
Repercussão no Brasil
Nos bastidores, o Itamaraty trabalha para tentar conter o desgaste e evitar que o episódio prejudique outros acordos de cooperação entre a PF e o FBI.
Enquanto isso, a oposição no Congresso brasileiro utiliza o comunicado do Departamento de Estado americano para reforçar a narrativa de que as investigações contra aliados do ex-presidente estão extrapolando os limites legais e atingindo esferas internacionais.