O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) apresentou, nesta quinta-feira (17), uma representação pedindo a suspensão cautelar e imediata do reajuste de 15% nos benefícios do programa Bolsa Família. O pedido, assinado pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, solicita que a Corte de Contas impeça o governo federal de realizar pagamentos com os novos valores até que o mérito da questão seja julgado em definitivo.
A medida contesta diretamente o Decreto nº 13.120/2026, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicado em edição extra do Diário Oficial da União (DOU). O ato do Executivo eleva o valor base mensal do benefício de R$ 600 para R$ 691 por família, com previsão de início dos pagamentos reajustados para o dia 1º de outubro.
Alegações de irregularidade orçamentária e extrapolação de poder
Na representação enviada ao TCU, o subprocurador-geral elenca uma série de possíveis descumprimentos das normas de responsabilidade fiscal e orçamentária. Segundo a análise técnica do órgão ministerial, a medida apresenta as seguintes inconformidades:
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Ausência de estudo de impacto: O decreto assinado pelo presidente não apresenta estimativa formal do impacto financeiro e orçamentário para os exercícios vigentes e futuros;
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Falta de indicação de fonte de custeio: O documento oficial não especifica a origem dos recursos que financiarão o acréscimo nas despesas públicas;
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Incompatibilidade com leis orçamentárias: A representação aponta que não foi demonstrada a conformidade da expansão dos gastos com a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO);
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Extrapolação do poder regulamentar: Furtado questiona se o Executivo poderia alterar a estrutura e os valores de despesas obrigatórias de forma unilateral por meio de decreto, sem a aprovação prévia de um projeto de lei específico pelo Congresso Nacional.
Os valores do reajuste sob contestação
O Decreto nº 13.120/2026 altera a composição dos repasses pagos às famílias cadastradas no programa. A estrutura anunciada pelo governo e agora questionada na Justiça de Contas prevê:
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Piso do Benefício: Elevação do valor mínimo por família de R$ 600,00 para R$ 691,00;
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Benefício de Renda de Cidadania: Fixado em R$ 164,00 por integrante da família;
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Benefício Primeira Infância: Ajustado para R$ 173,00 por criança com idade entre 0 e 7 anos incompletos;
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Benefício Variável Familiar: Mantido em R$ 58,00 por integrante enquadrado em situações específicas previstas em regulamento (como gestantes e adolescentes).
Posição do governo federal e justificativa oficial
A expansão dos valores do Bolsa Família foi anunciada publicamente pelo ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. Durante coletiva de imprensa, o titular da pasta garantiu que relatórios recentes de acompanhamento fiscal indicaram margem suficiente para acomodar o reajuste no orçamento federal.
Moretti rebatendo as críticas sobre o momento do anúncio — feito a apenas 17 dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026 —, afirmando que a medida não possui motivação eleitoral. Segundo o ministro, a alteração visa tão somente recompor as perdas inflacionárias acumuladas sobre o poder de compra das famílias de baixa renda.
Histórico: O reajuste do benefício social nas eleições de 2022
O debate em torno do timing político e das bases legais para reajustes em programas de transferência de renda em anos eleitorais resgata o precedente registrado no pleito anterior.
Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro promoveu o maior aumento percentual da história do programa social (na época batizado de Auxílio Brasil):
| Parâmetro | Reajuste de 2022 (Governo Bolsonaro) | Reajuste de 2026 (Governo Lula) |
| Aumento do piso | De R$ 400,00 para R$ 600,00 | De R$ 600,00 para R$ 691,00 |
| Percentual de reajuste | Cerca de 50% de acréscimo | Cerca de 15% de acréscimo |
| Instrumento Jurídico | Proposta de Emenda à Constituição (PEC) | Decreto Presidencial (Decreto 13.120/2026) |
| Contexto Legal | Aprovado pelo Congresso Nacional | Editado diretamente pelo Poder Executivo |
A diferença nos instrumentos jurídicos utilizados — enquanto em 2022 o aumento foi chancelado pelo Congresso via emenda constitucional para contornar restrições da Lei Eleitoral, o reajuste de 2026 foi editado por decreto sumário — é o ponto central da contestação apresentada pelo Ministério Público junto ao TCU. A representação aguarda designação de relator para análise do pedido de liminar.