Violência sem trégua: Em menos de 72 horas, BH registra dois feminicídios e uma tentativa de extrema brutalidade

BELO HORIZONTE (MG) — Em um intervalo de menos de três dias, a capital mineira transformou-se no centro de uma dolorosa sequência de crimes contra a mulher. Entre a segunda-feira (20) e a terça-feira (21), dois feminicídios consumados e uma tentativa cometida com requintes de crueldade chocaram a população e expuseram, de forma dramática, a contínua escalada da violência de gênero em Minas Gerais.

Todas as ocorrências compartilham uma marca em comum: as vítimas foram covardemente atacadas por homens com quem mantinham laços afetivos — companheiros, namorados ou maridos.

1º Caso: Capitã da Polícia Militar é morta pelo marido sargento

O crime de maior impacto e repercussão envolveu a cúpula da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). A capitã Michele Leão Azevedo, de 41 anos, foi levada sem vida ao Hospital Odilon Behrens na noite de segunda-feira (20) por seu marido, o 3º sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos.

Exames periciais da Polícia Civil constataram que a oficial apresentava traumatismo craniano, graves lesões na face e marcas extensas de espancamento por todo o corpo. A versão do sargento — que alegou que a esposa havia sofrido acidentes após uma queda durante práticas sexuais consensuais — foi desconstruída diante da incompatibilidade do laudo médico.

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Além de ter a prisão preventiva decretada por feminicídio, o sargento também responderá por tráfico de drogas, após ter sido flagrado tentando descartar comprimidos de ecstasy no sanitário do hospital.

Em entrevista à imprensa, o síndico do edifício onde o casal residia, Dimas Oliveira, revelou um ambiente conturbado no imóvel:

"Na maioria das vezes, depois das festas, a gente sabia que terminava em conflito. Moradores evitavam registrar reclamações formais por medo, justamente por se tratar de dois policiais militares", afirmou.

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2º Caso: Mulher encontrada morta no apartamento após namorado sair com malas

Poucas horas antes, no bairro Camargos, Região Oeste de Belo Horizonte, a Polícia Militar foi acionada para responder a outro achado nefasto. Stifanie Ribeiro Firmino Silva, de 36 anos, foi encontrada morta dentro do apartamento em que vivia.

A desconfiança de vizinhos foi crucial para a descoberta do crime. Moradores estranharam a atitude do namorado da vítima, de 24 anos, visto deixando o condomínio carregando duas malas pesadas. Outro sinal de alerta veio nas interações digitais: Stifanie, que mantinha o hábito de enviar mensagens de áudio para amigas e vizinhas, passou a responder aos chamados exclusivamente por texto.

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Diante do sumiço, a polícia foi acionada. No dia seguinte, o autor apresentou-se no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), confessando a autoria do crime. Ele foi preso em flagrante por feminicídio, e a Polícia Civil investiga a motivação exata do assassinato.

3º Caso: Vítima é espancada e arremessada do 3º andar no Jonas Veiga

Na madrugada de terça-feira (21), a Região Leste de Belo Horizonte foi palco de uma cena de extrema barbárie no bairro Jonas Veiga. Uma mulher de 31 anos sobreviveu milagrosamente após ser submetida a uma sessão de tortura e, em seguida, arremessada da sacada do terceiro andar de uma residência pelo companheiro, identificado como Carlos Antonio Avelar de Oliveira.

A investigação apurou que a vítima sofreu socos, chutes, esganadura e golpes com garrafas de vidro antes de ser lançada de uma altura considerável. Uma amiga da vítima que estava no imóvel tentou conter o agressor, mas também acabou agredida. A mulher foi socorrida em estado gravíssimo para a Sala Vermelha do Hospital João XXIII.

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A prisão em flagrante de Carlos Antonio foi convertida em preventiva pela Justiça nesta quarta-feira (22). Na decisão, o juiz Diego Gómez Lourenço destacou a "extrema brutalidade" da conduta, a alta periculosidade do acusado e seu histórico criminal reincidente, que conta com condenações anteriores por roubo e tráfico de entorpecentes.

Estatísticas alarmantes: Minas Gerais acumula mais de 2,7 mil vítimas em sete anos

A sucessão de tragédias reflete dados estatísticos alarmantes no estado. Levantamento oficial aponta que Minas Gerais contabilizou 2.725 vítimas de feminicídio — somando casos consumados e tentativas — entre janeiro de 2019 e maio de 2026.

Somente nos primeiros cinco meses de 2026, o estado acumulou 148 ocorrências (63 feminicídios consumados e 85 tentativas). Se a média diária persistir até o fim de dezembro, o ano de 2026 poderá fechar com os piores números da série histórica do estado.

Falha na proteção e o risco do armamento

Para especialistas em segurança pública e direitos humanos, os indicadores reforçam que as políticas atuais precisam ultrapassar a fase do incentivo à denúncia.

A professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora da Rede Feminina de Estudos sobre Violência, Justiça e Prisões, Ludmila Ribeiro, destaca que cerca de 90% dos casos registrados enquadram-se como feminicídios íntimos — cometidos no seio familiar por parceiros ou ex-parceiros.

"Hoje as mulheres denunciam mais, mas o Estado ainda demonstra dificuldades para fiscalizar efetivamente as medidas protetivas de urgência. Precisamos pensar em novas formas de proteção para que essa responsabilidade de fiscalização deixe de recair sobre a mulher que já sofreu a violência", analisa a pesquisadora.

Ludmila Ribeiro faz ainda um alerta decisivo sobre o perigo do armamento dentro dos lares. Estudos analisados pela pesquisadora revelam que mulheres vítimas de violência doméstica que convivem em residências onde há presença de armas de fogo possuem 27 vezes mais chances de serem mortas em comparação àquelas que vivem em locais sem armamento.

A especialista conclui ressaltando a urgência de uma rede integrada de acolhimento que una segurança pública, saúde, educação e assistência social, focando também na reeducação de agressores:

"Grande parte desses autores cresceu em ambientes onde a violência contra a mulher era naturalizada. É preciso romper esse ciclo cultural antes que ele termine em tragédias como as registradas nesta semana".

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