O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, em parceria com a Receita Federal, deflagrou na manhã desta quinta-feira (28) uma nova e contundente fase da Operação Carbono Oculto. A ação interestadual tem como alvo principal uma rede altamente profissionalizada de empresários e operadores financeiros suspeitos de capitanear um bilionário esquema de lavagem de dinheiro para a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro do mercado de combustíveis.
Ao todo, as equipes cumprem 55 mandados de busca e apreensão espalhados por endereços estratégicos nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.
A insistência no crime: Movimentações milionárias contínuas
O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a audácia da organização criminosa. Mesmo após sofrer sucessivos baques em operações policiais anteriores, o grupo não interrompeu as atividades. Pelo contrário: as apurações apontam que eles continuaram movimentando milhões de reais.
Para garantir o fluxo do dinheiro sem chamar a atenção das autoridades, a rede criminosa estruturou uma engenharia financeira paralela, composta por empresas de fachada e contas digitais. Esse ecossistema servia para ocultar os recursos astronômicos gerados por:
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Adulteração sistemática de combustíveis;
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Fraudes tributárias complexas (sonegação fiscal);
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Outras atividades ilícitas ligadas à facção.
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O Ministério Público identificou que dezenas de postos de combustíveis passaram a operar de forma integrada. Em vez de cada estabelecimento gerenciar suas próprias finanças, o grupo concentrava as movimentações de dezenas de postos em pouquíssimas contas centralizadoras, uma tática desenhada especificamente para pulverizar os valores e dificultar o rastreamento dos órgãos de controle financeiro.
Fintechs: O "Banco Paralelo" do Crime Organizado
Nesta nova etapa, a Operação Carbono Oculto conseguiu mapear a migração do dinheiro para o ambiente digital. O Gaeco identificou pelo menos seis fintechs (bancos digitais) que operavam de forma clandestina, funcionando como uma espécie de "instituição bancária própria" da organização criminosa.
Essas plataformas digitais eram utilizadas para fazer compensações financeiras diretas entre distribuidoras, redes de postos e outras empresas ligadas ao esquema. O dinheiro circulava entre as contas dessas fintechs e fundos de investimento controlados pelo próprio grupo, criando um circuito fechado e blindado contra fiscalizações tradicionais.
Sempre que uma empresa ou conta era identificada em investigações anteriores, o comando do esquema rapidamente abria novos CNPJs e migrava os recursos para outras fintechs, garantindo que o dinheiro nunca parasse de rodar.
Mercado clandestino e o uso cruel de "Laranjas"
Outra frente crucial da operação cortou o fluxo de abastecimento do combustível adulterado na Região Metropolitana de São Paulo. A investigação mirou um núcleo especializado no desvio de nafta petroquímica (um solvente derivado do petróleo usado ilegalmente para "batizar" a gasolina).
Para viabilizar a compra do solvente na indústria, o grupo abria empresas de fachada em diversos estados do país. Essas firmas simulavam compras totalmente regulares do produto químico, mas a nafta nunca ia para fins industriais legalizados; ela era desviada diretamente para alimentar o mercado clandestino de adulteração.
Para registrar essas dezenas de empresas e blindar os verdadeiros chefes, a organização utilizava uma rede de "laranjas" estruturada de forma perversa, que incluía:
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Parentes próximos dos operadores;
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Pessoas em extrema situação de vulnerabilidade social;
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E até mesmo presidiários, que tinham seus dados utilizados sem saber para a abertura de empresas de fachada.
Fundos de Investimento: Explosão patrimonial de 200%
A sofisticação do PCC no mercado financeiro ficou evidente com a descoberta de que o grupo utilizava fundos de investimento regulamentados para ocultar o patrimônio e disfarçar quem eram os reais beneficiários dos lucros.
Os investigadores analisaram detalhadamente quatro fundos de investimento ligados aos suspeitos, cujo patrimônio somado está estimado em cerca de R$ 205 milhões. O Gaeco apurou que o volume desses fundos registrou um crescimento astronômico de mais de 200% em pouco mais de um ano, um ritmo completamente incompatível com a atividade de mercado legal.
Os Líderes na Mira
O foco do Ministério Público nesta fase é asfixiar o sistema financeiro clandestino que dá suporte ao crime organizado no setor de combustíveis, indo além dos frentistas e gerentes de postos.
No topo dessa pirâmide criminosa, dois nomes foram apontados pelos investigadores como os grandes líderes e mentores intelectuais da estrutura:
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Mohamad Hussein Mourad, amplamente conhecido no submundo como “Primo”;
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Roberto Augusto Leme da Silva, vulgo “Beto Louco”.
Ambos são os alvos principais dos mandados de busca e das quebras de sigilo desta quinta-feira, que prometem desencadear novos desdobramentos e prisões nos próximos dias.