Rio de Janeiro — O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou na noite de sexta-feira (10) a soltura do ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, Márcio Canella (União Brasil). O político fluminense havia sido preso em flagrante no início da semana durante um desdobramento da Polícia Federal (PF). Com o alvará de soltura expedido, a saída de Canella do sistema prisional do Rio de Janeiro estava prevista para ocorrer ao longo deste sábado (11).
Canella cumpria prisão preventiva desde a última terça-feira (7). Na ocasião, agentes federais que cumpriam mandados de busca e apreensão interceptaram o veículo em que o político estava e localizaram um fuzil de alto poder de fogo, calibre 556. A decisão de Moraes também estendeu o benefício da liberdade Provisória a um policial militar que atuava como segurança do ex-prefeito e que havia sido detido na mesma ocorrência.
Liberdade condicionada a restrições e tornozeleira
Apesar de conceder o direito de responder ao processo em liberdade, o ministro do STF impôs um pacote rigoroso de medidas cautelares que o político deverá cumprir à risca. Entre as restrições determinadas por Alexandre de Moraes estão:
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Monitoramento Eletrônico: Instalação obrigatória e uso ininterrupto de tornozeleira eletrônica.
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Retenção de Documentos: Entrega imediata do passaporte às autoridades, ficando Canella proibido de deixar o país.
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Restrição de Armas: Suspensão total e imediata do porte de armas de fogo.
Na fundamentação de sua decisão, o ministro sinalizou que o mérito da posse da arma ainda será amplamente debatido. Ele destacou que a tese apresentada pelos advogados — de que o fuzil pertencia exclusivamente ao policial militar responsável pela segurança privada do político — é um ponto que precisa ser "devidamente esclarecido no decorrer das investigações presididas pela Polícia Federal".
A defesa de Márcio Canella se manifestou por meio de nota oficial, classificando a prisão preventiva como uma medida que "não se sustentava juridicamente". Segundo o corpo jurídico do ex-prefeito, a arma apreendida possui registro legal e está devidamente documentada em nome do segurança, documentação esta que já foi integralmente juntada e apresentada aos autos no STF.
Operação Unha e Carne: O esquema bilionário de lavagem
A prisão em flagrante pelo armamento foi um desdobramento inesperado da sexta fase da Operação Unha e Carne. O foco principal do inquérito da PF é desmantelar uma robusta e sofisticada organização criminosa suspeita de lavar dinheiro ilegal utilizando uma extensa rede de postos de combustíveis espalhada pelo estado do Rio de Janeiro.
Cifras bilionárias: De acordo com relatórios detalhados da Polícia Federal e cruzamentos de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o esquema sob investigação teria movimentado impressionantes R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, levantando alertas por transações financeiras atípicas e incompatíveis com o faturamento declarado das empresas.
Nesta sexta etapa, a PF colocou nas ruas dezenas de agentes para cumprir 19 mandados de busca e apreensão na Região Metropolitana do Rio e em cidades do interior do estado. A ofensiva resultou no bloqueio judicial de contas bancárias, suspensão das atividades comerciais de empresas fantasmas ou suspeitas e na apreensão de um arsenal de bens de alto valor, incluindo joias, quantias expressivas de dinheiro em espécie e automóveis de luxo.
Embora Márcio Canella não fosse alvo de um mandado de prisão inicial nesta operação — figurando apenas na lista de busca e apreensão para recolhimento de provas —, a localização do fuzil de grosso calibre dentro do veículo configurou o flagrante que o levou ao cárcere.
O elo político e a ADPF das Favelas
As investigações da Polícia Federal apontam que o papel de Canella no organograma do grupo seria o de atuar como um dos principais elos políticos do esquema, facilitando caminhos ou dando sustentação institucional ao grupo. Caso as suspeitas sejam formalizadas pelo Ministério Público, os investigados poderão responder por crimes como:
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Organização criminosa;
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Lavagem de dinheiro;
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Contratação direta ilegal (fraude em licitações);
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Outros delitos correlatos apurados na conclusão do inquérito.
Um detalhe jurídico importante é que esta operação corre sob a guarda do STF devido à ADPF 635 (conhecida como a ADPF das Favelas). A diretriz da Suprema Corte delegou especificamente à Polícia Federal a atribuição de investigar e sufocar financeiramente esquemas que demonstrem a perigosa fusão e o vínculo de agentes e lideranças públicas com organizações criminosas no Rio de Janeiro.
De Belford Roxo ao plano de voo rumo ao Senado
Márcio Canella construiu uma sólida e rápida carreira política na Baixada Fluminense. Ele ingressou na vida pública em 2012, quando se elegeu vereador em Belford Roxo. Pouco tempo depois, ganhou projeção estadual e garantiu três mandatos sucessivos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). No intervalo de sua atuação parlamentar, entre 2017 e 2019, licenciou-se do cargo de deputado para assumir as funções de vice-prefeito de sua cidade natal.
Nas eleições municipais de 2024, Canella atingiu o ápice local ao ser eleito prefeito de Belford Roxo. No entanto, em abril deste ano, o político optou por renunciar formalmente ao comando do Executivo municipal — um movimento estratégico e calculado para desimpedir seu caminho eleitoral e focar integralmente na disputa por uma cadeira no Senado Federal pelo Rio de Janeiro nas próximas eleições. O desenrolar do processo no STF deve agora ditar o ritmo e a viabilidade jurídica de suas ambições políticas.