MANAUS (AM) – O sistema de segurança pública do Amazonas enfrenta uma crise ética após a prisão em flagrante do delegado Fabiano Rosas e do investigador Charles Rufino, ambos da Polícia Civil (PC-AM). A dupla é acusada de extorquir R$ 30 mil de um empresário e desarmar um policial militar que realizava a escolta dos valores. Na última sexta-feira (17), a Justiça converteu as prisões em preventivas.
O Crime: Abordagem na Balsa Amarela
De acordo com o Boletim de Ocorrência e as investigações preliminares, o crime teve início na última quinta-feira (16), no Porto de Manaus. Os agentes civis foram até uma embarcação atracada na Balsa Amarela, onde abordaram um empresário e um policial militar que atuava como segurança privado do valor transportado.
Sob pressão, as vítimas foram obrigadas a revelar a quantia que carregavam. Após a confissão de que havia R$ 30 mil no local, o delegado e o investigador confiscaram o dinheiro e a arma de fogo do PM, forçando ambos a entrarem em uma viatura descaracterizada pertencente ao 9º Distrito Integrado de Polícia (DIP).
Sequestro e "Ronda do Crime"
O veículo circulou por diversas ruas da Zona Sul de Manaus enquanto as vítimas eram mantidas sob custódia dos policiais civis. Segundo o delegado Marcelo Martins, titular do 24º DIP e responsável pelo flagrante, a ação foi uma clara simulação de operação policial para encobrir a extorsão.
"Eles alegaram que o dinheiro foi 'apreendido', mas em nenhum momento a ocorrência foi formalizada ou o valor foi apresentado na delegacia de forma legal. Isso caracteriza o crime de extorsão", afirmou Martins.
O Confronto com a Rocam
Após serem abandonados em uma avenida da capital, o policial militar que acompanhava o empresário conseguiu acionar a Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam). A equipe de elite da PM localizou a viatura descaracterizada, sem saber inicialmente que se tratava de colegas da Polícia Civil.
A abordagem foi marcada pela tensão. O delegado Fabiano Rosas recusou-se a sair do veículo, sendo necessária a aplicação de força tática para retirá-lo. Vídeos gravados por testemunhas que circulavam pela região mostram o delegado imobilizado e algemado no asfalto. Somente após a chegada de reforços e de outro delegado de polícia, a situação foi estabilizada e os envolvidos encaminhados à delegacia.
Desdobramentos Jurídicos
O investigador Charles Rufino também foi localizado e detido. Ambos passaram a noite na carceragem do 24º DIP. Durante a audiência de custódia realizada na sexta-feira (17), o magistrado de plantão acompanhou o parecer do Ministério Público do Amazonas (MPAM) e decidiu pela prisão preventiva dos dois servidores públicos.
Próximos Passos:
-
Corregedoria: A Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança Pública já foi notificada para abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que pode resultar na expulsão definitiva dos agentes.
-
Investigação: A polícia agora apura se houve a participação de outros comparsas ou se a dupla está envolvida em outras abordagens semelhantes a empresários no centro da cidade.
A Polícia Civil do Amazonas reiterou, em nota, que não compactua com desvios de conduta e que o caso será rigorosamente apurado para garantir a integridade da instituição.