Adeus ao Mestre da Crônica: Luis Fernando Verissimo Morre aos 89 Anos

O Brasil perdeu, neste sábado (30), um de seus mais talentosos e queridos escritores. Luis Fernando Verissimo, o cronista que traduziu com maestria o cotidiano e os absurdos da vida brasileira, morreu aos 89 anos em Porto Alegre (RS). O autor, que estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento, não resistiu a complicações decorrentes de uma pneumonia, conforme comunicado pela instituição. A morte de Verissimo encerra uma era na literatura e no jornalismo, deixando um legado de mais de 70 obras, milhões de leitores e personagens que se tornaram parte do imaginário popular.

A saúde de Verissimo, que já convivia com a doença de Parkinson e problemas cardíacos – tendo implantado um marcapasso em 2016 –, se deteriorou nos últimos anos. O escritor sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em janeiro de 2021, enquanto estava em sua casa, também em Porto Alegre, e escrevia uma crônica para o jornal O Globo. O AVC afetou sua capacidade de ordenar pensamentos, embora ele mantivesse a compreensão do que acontecia ao seu redor. Um fato inusitado dessa fase foi a maior facilidade de se comunicar em inglês, língua que dominou na infância, quando viveu nos Estados Unidos.

 

Uma Vida Dedicada às Palavras e à Arte

 

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Luis Fernando Verissimo foi muito mais que um escritor. Ele era um multiartista: cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e, para a alegria dos gaúchos, torcedor fanático do Sport Club Internacional. Filho do também aclamado escritor Erico Verissimo, Luis Fernando iniciou sua carreira no jornalismo em 1966. Apesar de ter tentado outros caminhos, como a arte e o comércio, foi no texto que encontrou sua verdadeira vocação.

A sua genialidade se manifestava na capacidade de extrair humor e reflexão das situações mais banais. Seus personagens são a prova disso. A Velhinha de Taubaté, que ironizava a ditadura militar, o detetive Ed Mort, uma sátira dos romances policiais, e a série de crônicas "A Comédia da Vida Privada" se tornaram referências. Com "O Analista de Bagé", em 1981, Verissimo se tornou um fenômeno de vendas. A obra, que esgotou a primeira edição em apenas dois dias, unia a sofisticação da psicanálise freudiana com a "grossura" caricatural do gaúcho da fronteira, criando um humor único e atemporal.

 

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Humor e Resistência

 

Verissimo sempre definiu seu ofício com uma distinção: "Acho que há uma diferença entre ser humorista e fazer humor. O humorista é o cara que tem uma visão humorística das coisas. O humor é sua maneira de ver e de ser." Essa visão aguçada foi uma ferramenta essencial durante a ditadura militar. Em uma fase de censura, ele chegou a ter textos barrados, mas usava a perspicácia para driblar os censores. Ele dizia que os cartuns, por serem considerados mais "infantis", eram mais fáceis de passar, e muitas vezes uma "crônica de reserva" era a que acabava publicada.

O professor Elias Thomé Saliba, da USP, especialista em humor, descreveu Verissimo como "o cronista mais popular do Brasil", aquele que conseguia "dizer o que o leitor quer falar, mas não consegue". A sua obra, atrelada aos eventos do cotidiano, criou um pacto de cumplicidade com o leitor, que se sentia representado e compreendido.

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A despedida de Luis Fernando Verissimo está sendo realizada no Salão Nobre Julio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde a família, amigos, admiradores e fãs prestam suas últimas homenagens. Ele deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, três filhos e dois netos, além de um vazio imenso na literatura brasileira.

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