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Mulheres deixam de tomar a pílula e querem dividir responsabilidade

09/09/2017

Temerosas dos efeitos colaterais, mulheres querem dividir responsabilidade da contracepção com parceiros

O Tempo

Thais mostra o aplicativo alemão que baixou, e que é recomendado pelo similar ao ministério da saúde naquele país

Ana, Carla, Isabel, Lílian, Rebeca, Sabrina e Thais têm profissões, idades e mesmo locais de nascimento distintos, mas compartilham uma determinação: a de não usar mais a pílula como método contraceptivo. Algumas veem nesta posição uma ação política. Outras migraram para outro método por conta de supostos efeitos colaterais da pílula – da sensação de inchaço a casos extremos, como a formação de um trombo (que, vale lembrar, está associada a uma predisposição genética).
Independentemente do motivo, não querem demonizar o medicamento que, liberado nos anos 60, chegou a ser visto como um marco da emancipação feminina. Elas apenas defendem um maior esclarecimento na hora da escolha, com a exposição minuciosa de prós e contras.
A psicóloga Carla Simone Castro chegou a criar um perfil no Facebook (“Unidas a Favor da Vida”) visando a partilha de experiências com anticoncepcionais – atualmente, tem cerca de 150 mil seguidores. Ou seja, a página não se limita a falar da pílula, embora tenha sido ela a fonte do seu caso – que, dada a gravidade, levou-a inclusive a ser personagem de matéria recente feita pelo médico Dráuzio Varella para o “Fantástico”.


Carla se submeteu a fisioterapia ocular, respiratória e motora, além de ter sido submetida a duas cirurgias no cérebro após problemas devido ao uso da pílula

 
O caso de Carla é impactante. Em 2014, trabalhando em Brasília, ela começou a tomar a pílula para tratar um mioma. Seis meses depois, a professora sentiu uma congestão nasal atípica e, na sequência, uma dor de cabeça lancinante. Recebeu o diagnóstico de sinusite. Dias depois, simplesmente acordou sem visão.
Naquele momento, ela ainda não sabia, mas havia sofrido uma trombose cerebral bilateral. Levada pela mãe para Goiânia, sofreu uma convulsão e foi direto para a UTI. Carla perdeu parte dos movimentos e teve que reaprender a falar. Atualmente recuperada, inclusive da visão, está ciente de que, pelo resto da vida, deverá ser monitorada – e fazer uso de anticoagulantes.
É fato que nem todas as mulheres que usam pílula correm este risco. Carla pertence a um grupo de portadoras de trombofilia, condição que é assintomática, mas que sim, pode ser detectada por exames. Ela questiona o fato de não ter sido informada sobre a existência do risco ou mesmo do exame citado – o que poderia ter evitado todo o seu martírio.
Sabrina Abreu: “Estou falando sobre termos clareza política sobre nossos corpos dentro das relações”

“Por ser professora, ainda no hospital tive a ideia de fazer um vídeo para contar o que havia ocorrido aos meus alunos”, rememora ela. “Postei no Facebook e logo já havia milhares de compartilhamentos. Comecei a receber contato de pessoas do Brasil inteiro”, narra a moça, que se ressente da falta de estatísticas sobre ocorrências afins à sua. “Comecei uma batalha junto à Anvisa, ao Ministério da Saúde (para um maior controle). Ao mesmo tempo, comecei a pesquisar tudo o que havia associando o uso da pílula à trombose. Descobri uma vasta documentação, mas praticamente ninguém falava nisso”, pontua.
No entanto, Carla volta a ressaltar: “Esse movimento não foi criado para demonizar a pílula. A proposta sempre foi pelo direito à informação. Conhecendo prós e contras, você consegue formar opinião. E se tomou, sentiu algo estranho, uma dor de cabeça forte... Veja, eu fiquei seis meses sentindo dor de cabeça”, revolta-se.

DIU de cobre: método reversível mais usado no mundo
 

Autoconhecimento
A dor de cabeça persistente foi detectada pela estudante mineira Thaís Afonso, 20, assim como enjoo, cansaço, queda de cabelo, dores nas articulações e inchaço. “Vi que alguma coisa estava errada”, diz ela, lembrando que começou a tomar pílula aos 16 anos por indicação de uma dermatologista, por conta da acne.
Há dez meses, Thaís resolveu parar, e hoje adota os chamados métodos não hormonais, no caso, o sintodérmico, com ações como a observação do muco cervical e o controle da temperatura basal. Também baixou um aplicativo alemão, pelo qual paga uma mensalidade, o Natural Cycles, que calcula o ciclo da mulher – e tudo com a anuência do seu ginecologista. “A verdade é que não conhecia o meu organismo. Fiquei menstruada aos 12, e, nesta idade, ninguém nos dá muita informação sobre o corpo feminino. Aos 15 é que você começa a descobrir as coisas. Como comecei a tomar pílula aos 16, fiquei sem saber, por exemplo, quantos dias durava a minha menstruação. Só agora estou construindo, aos poucos, a relação com o meu corpo – e é libertador”.

Ana Lídia optou por não usar mais métodos hormonais após o nascimento da filha

Posição
A pedagoga Sabrina Abreu, 30, acaba de escrever um artigo sobre o tema: “É Mais do Que o Látex”, e enfatiza a importância de a mulher assumir as rédeas de seu corpo, embora o assunto deva ser discutido pelo casal. “Nós, mulheres, muitas vezes nos colocamos em nossas relações como reféns. E o respeito que a gente deve à nossa sexualidade vai muito além da preocupação em evitar uma gravidez”, firma. Para ela, o livre arbítrio tem toda uma marca simbólica: “a de que do meu corpo, eu cuido”. Uma posição política.
Ela lembra que desde cedo a menina é levada a assumir a responsabilidade pela contracepção. “Uma espécie de punição, já que é quem ovula, quem ‘estragará’ sua vida, já que os homens têm carta branca simbólica para não se responsabilizarem por nada disso, nem com a gravidez indesejada de uma mina, nem com o cuidado de prevenção que devem a qualquer uma delas”.
Sabrina diz que consolidou a existência desse pensamento coletivo quando, ao engravidar, ouviu do responsável biológico junto a ela “que o que eu estava passando era triste, mas que eu, como mulher e detentora do poder de tomar pílula, deveria ter me preocupado muito mais com isso do que ele. Afinal, era o meu corpo, disse ele”.

O pior já passou. Rebeca fará uso de anticoagulantes, mas por apenas seis meses

No texto, ela diz: “Se analisarmos a própria história da pílula, criada na década de 60 após uma ostensiva militância feminina pelo direito de não querer engravidar, a gente já entende o raciocínio bizarro oriundo do patriarcado que permeia a questão”.
Raciocínio que, diz, qualificou o papel da mulher apenas para a procriação. “Tanto que o que conseguimos conquistar como forma de cuidado foi: interromper com a produção quase industrial de gerar filhos por meio de um medicamento ingerido por nós. Apenas por nós”. Ao Pampulha, ela celebra que outras mulheres já estejam antenadas para o absurdo de pensamentos assim. “Acho maravilhoso ver que já é uma geração de luta pelos nossos direitos”. 
Escolha deve envolver casal
Semana passada, a apresentadora Bela Gil compartilhou sua opção contraceptiva: o DIU de cobre, ou seja, uma via não hormonal – funciona pela danificação dos espermatozoides, evitando o encontro com o óvulo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o método tem eficácia de 99%, mas não protege contra as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Em março, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação do acesso ao DIU de cobre, já distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 
Segundo a OMS, 170 milhões de mulheres usam, hoje, o DIU de cobre, superando os 110 milhões que usam a pílula. Diretora da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Thelma de Figueiredo e Silva lembra que muitas mulheres, porém, reclamam do aumento do fluxo menstrual. “Mas mesmo algumas que já têm um fluxo expressivo não se incomodam de um dia a mais. De todo jeito, a colocação é relativamente simples, e pode garantir uma proteção por até dez anos. Como cada vez mais há mulheres adiando a maternidade, acaba sendo um método conveniente – mas é necessário tomar cuidado com infecções”, alerta. “Se perceber febre, dores, é preciso ir ao médico”.
Ela também entende que o DIU é uma alternativa prudente para mulheres que não têm muita disciplina no uso da pílula (esquecimentos e afins). Por outro lado, ressalva que não protege das DSTs. “A verdade é que ainda não temos, à disposição, um método barato, acessível, reversível, 100% eficaz e sem efeitos colaterais”, lamenta.
Em defesa da pílula, Thelma lembra que há estudos relativos à prevenção do câncer endometrial ou mesmo do de ovário. O ginecologista Garibalde Mortoza acrescenta: “A indústria vem buscando compostos diferentes e diminuindo dosagens dos hormônios que compõem as pílulas, buscando diminuir efeitos colaterais com a mesma eficácia (contraceptiva)”. Ambos os médicos enfatizam que a escolha do método deve ser feita de forma consciente, “com participação dos dois envolvidos”, diz Mortoza.
A jornalista Ana Lídia de Noronha Ribeiro ratifica. “A responsabilidade é do casal. Tem que ser dividida”, diz ela, que também opta por não colocar a pílula no posto de vilã. “Muitas vezes, a sociedade opera numa espécie de 8 ou 80 – ou vilã ou a salvação. No meu caso, interromper o uso foi uma decisão acertada, mas há casos em que a mulher se adapta bem”, pondera.
O alerta de Ana Lídia se deu depois que ela passou a ter enxaqueca crônica e, ao pesquisar a causa junto a vários profissionais – como dentista e oftalmologista – chegou, por eliminação, à pílula. De fato, o problema cessou com a interrupção do uso. “Hoje, no dia que a menstruação vem, tenho a dor de cabeça natural ao meu ciclo – mas nada que me atrapalhe”

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Grupo no Facebook

Aos 33 anos, a revisora de texto Lilian de Oliveira fez uso ininterrupto da pílula até os 28. Depois, intermitente. Há três, resolveu parar. Até então, convivia com efeitos colaterais como inchaço, cansaço e até uma certa vertente depressiva. Certo dia, se deparou com um grupo de discussão sobre métodos não hormonais no Facebook. Hoje, aderiu ao método sintotérmico, que compara a um autoconhecimento, junto à camisinha. “Entendo muito mais o funcionamento do meu corpo. Para se ter uma ideia, depois que parei, certa vez senti uma dor fortíssima e fui ao hospital. Na verdade, era dor da ovulação, que nunca havia sentido antes por ter iniciado a pílula ainda adolescente, por conta da acne”.
Professora, formada em engenharia de alimentos, Isabel Debien, 33, brinca com a decisão de ter interrompido o uso da pílula: “Quem convive comigo está muito feliz”, diz, sobre a irritabilidade de outrora. “Ficava pronta para matar mesmo”. O inchaço era outro desconforto. “Mãos, rosto... Parei, e voltei ao normal. Outra coisa: a libido vai quase a menos 15. Na verdade, a impressão era a de que sofria todos os efeitos colaterais descritos na bula em meu organismo. Queria emagrecer, mas não tinha ânimo para praticar exercícios”, relembra ela, que hoje optou por métodos não hormonais.
Questionamento
A engenheira civil Rebeca Diniz, 25 anos, entende que a pouca visibilidade dada a casos que acometem algumas mulheres que fazem uso da pílula acaba reforçando a crença de que é raro ter problemas com o uso. “E ainda que acreditem que nunca vai acontecer com elas. Mas por trás das cortinas, sabemos que são muitos mais episódios do que imaginamos ao ler a bula”.
Ela, que passou por uma experiência marcante, analisa que hoje há mais questionamentos sobre o fato de só a mulher ter que se submeter ao uso de métodos hormonais, e sobre a não aprovação de um método masculino (“sabemos que por falta de tecnologia não é”). “São muitas perguntas sem respostas, mas só com a união das mulheres vamos poder avançar nesta questão”.
Anticoncepcional masculino
Pesquisas Um anticoncepcional masculino, que funciona como uma espécie de vasectomia temporária, foi testado com sucesso em macacos por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos EUA. Batizado de Vasalgel, o produto é um gel que é injetado no canal que leva os espermatozoides ao pênis e bloqueia sua passagem. Os testes do Vasalgel em humanos devem ser iniciados a curto prazo. Já o anticoncepcional injetável que vinha sendo testado teve pesquisa suspensa após revelar efeitos colaterais semelhantes ao feminino.
Efeitos não são os mesmos para todos
Foi no dia 11 de maio de 1960 que a agência reguladora de remédios dos EUA, a FDA, aprovou a primeira pílula anticoncepcional da história, a Enovid. De lá para cá, a indústria farmacêutica tratou de implantar muitos avanços na tentativa de minimizar os danos colaterais. O que, no entanto, não foi capaz de deter o drama vivido pela engenheira Rebeca Diniz, que, no último dia 18 de junho, foi diagnosticada com trombose venal cerebral. Sete dias antes, ela havia acordado com uma dor de cabeça forte e repentina. Tomou o analgésico habitual, mas não houve redução.
“No segundo dia, a dor permanecia junto a desconforto no pescoço, fonofobia, fotofobia, visão embaçada e cabeça latejando – nesta noite, foi o ápice da dor, só pensava em me matar”. A moça chegou a bater a cabeça contra a parede. Na manhã seguinte, foi a um hospital do SUS, em Itabuna, Bahia. Sem nenhum exame ou pergunta, ouviu apenas a frase: “Você está com sintomas de enxaqueca”. Desconfiada, suspendeu a pílula e, no dia seguinte, em outro hospital, ela própria sugeriu uma tomografia, a cujo resultado nunca teve acesso: o neurologista não apareceu na instituição naquele dia.
Passavam-se os dias e, sem melhora, Rebeca foi para sua cidade, Salvador. Novo analgésico receitado e, mais uma vez, em vão. “Foi então que minha mãe, desesperada, fez um plano de saúde que me atendesse em emergência. No meu sétimo dia de dor e no quarto hospital que procurei, dei entrada na emergência”.
Fez, então, nova tomografia. “E, infelizmente, se confirmou aquilo que a gente queria eliminar. Estava com uma trombose no seio venoso cerebral, possivelmente causada por uso de anticoncepcional”. Atualmente, ela faz uso de um anticoagulante e está sem o uso de anticoncepcional há dois meses e meio. “Percebi que as espinhas voltaram a aparecer com mais frequência e a libido está voltando. Além disso, também noto que o corpo ficou menos inchado. Hoje, vejo que o menos danoso mesmo é camisinha, mas irei optar pelo DIU de cobre por não ter hormônios”, diz ela, que, como a personagem Carla Simone Castro, que também teve uma trombose cerebral, nunca recebeu indicação de fazer o exame para detectar trombofilia, cuja propensão é a provável causa dos acidentes vasculares sofridos pelas duas. Trombofílicas não devem fazer o uso pílula anticoncepcional pois o risco de trombose venosa aumenta em 149 vezes. Diante disso, a engenheira ressalta a importância do esclarecimento em relação às possíveis consequência do uso da pílula, cujos efeitos não são os mesmo e nem necessariamente negativos a todas as usuárias.
Ainda em processo de recuperação, ela, que chegou a tomar morfina para aplacar a dor, frisa a importância de maiores informações, abalizando, ainda que involuntariamente, a fala de Sabrina Abreu, no seu relato dos dias de abandono da pílula. “Sentia zero desconforto tomando pílula, ao contrário de algumas mulheres que, de fato, sentiram-se melhores após a retirada. Fisicamente, estava me sentindo bem pior (com a interrupção), mas, ao peitar isso, entendi que devolveria a mim o controle das escolhas pelo meu corpo e meus limites. Devolveria parte da minha liberdade”, finaliza a pedagoga, convicta.
 
Mulheres deixam de tomar a pílula e querem dividir responsabilidade Reviewed by DestakNews Brasil on 17:54 Rating: 5
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