De um lado da tela, mulheres que exibem os atributos físicos em busca de alguém disposto a mimá-las com presentes, jantares e viagens, sem cobrança nem frescura.

Hoje em Dia
 
Do outro, homens sem nenhum pudor em ostentar a renda e o patrimônio pessoal, de milhões de reais, à caça de garotas para curtir a vida. 
Para unir o útil ao agradável, uma plataforma virtual. Meu Patrocínio é o primeiro site brasileiro voltado para relacionamentos sugar. Uma rede social para “quem tem sucesso, ambição e beleza. Ou quer ter tudo isso”, descreve a página. 
Trata-se, basicamente, de uma rede para conectar as chamadas sugar babies (jovens em busca de relacionamentos maduros com quem as apoie emocional, intelectual e financeiramente) aos sugar daddies (bem-sucedidos patrocinadores). 
Como em um supermercado, quem paga mais fica na “prateleira central”, ou seja, tem maior visibilidade. Para os homens, por exemplo, o acesso gratuito à plataforma dá direito a um pacote básico de serviços. Já o mais completo custa R$ 999 e, além de destacar o perfil em questão, permite troca de mensagens entre “padrinho” e “afilhada”. 
Para descartar qualquer desconfiança sobre um ambiente propício à prostituição, a CEO do Meu Patrocínio, a norte-americana Jennifer Lobo, uma sugar baby assumida, garante: “Não tem nada a ver. Prostituição é vender sexo por dinheiro, o produto é o corpo. No site, desde o início, cada um sabe o que procura”, diz, frisando que o serviço já é bastante popular na Europa e nos Estados Unidos. 
Inusitado
No ar há quase dois anos, a plataforma virtual vem chamando a atenção dos brasileiros pela maneira inusitada como promete formar casais. 
Às babies – a maioria, universitárias na faixa dos 20 anos – cabe realçar características físicas, além do que desejam para si: “homens que saibam realmente mimar suas princesas”, diz uma delas. 
No extremo oposto, daddies para quem o céu é o limite. Mais do que expor a própria renda e um estilo de vida convidativo, eles não economizam nas frases de efeito e promessas. Não por acaso, a expressão sugar daddy significa, numa tradução literal, “papai de açúcar”, ou pra lá de generoso.
“(Estou) em busca de mulheres que curtam festas e viagens a Miami ou Paris, nos meus apartamentos”, diz outro perfil.

Assim como no mundo real, o grau de compromisso entre “padrinho” e “afilhada” é variável, dependendo mais do desejo e da entrega de cada um do que da rede virtual, é claro! 
Moradora de São Paulo, a mato-grossense Anna Cristina Martins, de 24 anos, revela que se cadastrou no site ao descobrir que estava grávida. O filho, João Gabriel, tem hoje 9 meses. 
Deu certo. Anna relacionou-se, até poucas semanas atrás, com um homem de 44 anos que bancava tudo para ela. “Arcava com todas as minhas contas: aluguel, faculdade, gastos do meu filho e roupas. Terminamos por uma briga e, por enquanto, estou com o orgulho ferido. Mas existe uma enorme chance de voltarmos”, avisa. 
“O que me chamou a atenção foi realmente a gama de mulheres jovens e bonitas, a maioria em busca de homens maduros, experientes, com boa condição de vida e que já atingiram um certo patamar financeiro. Ninguém está ali para ser bancado pelo outro. Não se trata de um contrato financeiro. Mas se a pessoa não tiver condições, normal. Será natural eu me unir a ela. Como todo e qualquer relacionamento, o outro está para somar e não para diminuir. Essa questão de troca (financeira) é natural. E se acontece no dia a dia, porque não em um site também? Minha expectativa é por um relacionamento sério, até porque os últimos foram através de sites. A gente conhece a pessoa, sai do virtual e vai para o mundo real. Quero encontrar alguém que combine comigo. Estou sozinho há dez meses” - Franciscoempresário paulistano de 50 anos, cadastrado no site há 7 meses. ele já foi casado e tem duas filhas, de 27 e 29 anos. 
Empresário e ‘cara-metade’ bem mais nova já têm até bebê 
Quem pensa que amor de Carnaval não sobe a serra, ou melhor, que relação de Meu Patrocínio não vinga está muito enganado. Há um mês, nasceu o primeiro bebê brasileiro – um autêntico sugar baby – fruto de um relacionamento iniciado no site de paquera. 
Catherine é a primogênita de Fernanda, de 22 anos, que há dez meses vive com o empresário gaúcho Jairo Winck, de 44. A moça, que não quis dar entrevista, é três anos mais nova que a primeira filha de Jairo. 
O casal decidiu viver sob o mesmo teto assim que descobriu a gravidez. A relação dos dois, afirmam, é “normal”, assim como em qualquer outro lar onde o papel de provedor cabe ao homem. 
“Não existe essa coisa de ‘ah, é relacionamento sugar’. Na realidade, nada mais é do que o homem como provedor da relação e isso sempre existiu. É que nos dias de hoje as mulheres estão mais independentes e a novidade é que existe um nome. Mas tem muito sugar por aí que só não sabe que é”, diz. 
Sobre a baby que “adotou” assim que concluiu o cadastro virtual, um ano atrás, o empresário é enfático. “Nunca dei R$ 1 para ela. Uma vez, ela me pediu R$ 1 mil e falei que não ia dar. Não dou dinheiro à toa para ela nem para qualquer outra mulher. Agora não, sou provedor dela, da minha filha, de tudo”, enfatiza, reforçando que o patrocínio propriamente dito foi somente das passagens para que a moça, que é de Criciúma (SC), pudesse visitá-lo, no início da paquera. 
Segundo Jairo, que não gosta de mulheres da idade dele, ser o “lado mais forte”, financeiramente falando, não é fetiche nem dá segurança à relação a dois. “Não me envolvo com mulheres mais velhas. Aliás, não me envolvia, pois agora sou casado. Só abaixo dos 30. Também nunca tive problema com mulher alguma, todas bem mais jovens, ou precisei envolver dinheiro para ter alguém ao meu lado. Sou um homem bonito”, ressalta, adiantando que a esposa pretende terminar a faculdade e ganhar um bom salário. “Quem sabe até me sustentar no futuro”, brinca. 
“Estou com 40 anos. Muitos amigos estão namorando, casados, com filho, e eu passei da fase de ir para a balada e encher a cara para pegar mulher. Não sou um cara bonito e tenho que pelejar para conseguir alguém. Jovens não têm muitos planos nem conta para pagar. A onda é outra. Com 40 anos, não tenho mais essa dinâmica, também não consigo paquerar no trabalho, em cursos. Tenho amigos que fazem dança de salão, teatro, só para pegar mulher. Não tenho paciência com isso. Em outros sites, você entra no fim da fila, elas deixam no vácuo. Há dezenas de homens atrás. Lá (Meu Patrocínio) tem o interesse mútuo, consigo atenção. Tenho espaço para dizer quem sou, conversar, desenvolver um assunto. Não tenho preconceito nenhum (com a questão do patrocínio), não me furto de nada. Tenho amigos que também pagam tudo, só não falam” - Rodrigo, carioca de 40 anos, gerente de novas mídias em uma empresa de informática. No site há cerca de um mês, ele busca um relacionamento legal
Além disso:
Doutora em psicologia pela PUC Minas, a psicóloga Maria Clara Jost, da TIP Clínica, em BH, alerta para os riscos de relacionamentos iniciados virtualmente. O principal deles, segundo ela, é o desconhecimento completo de quem está por trás da tela. Questão que fica mais aparente quando se impõe uma contrapartida financeira em “troca” de um relacionamento afetivo. 
“Usa-se como moeda de troca valores fundamentais para o ser humano: a busca por liberdade e o desejo de ser amado, ‘bens’ preciosos para a pessoa, tratados como se estivessem à venda. É como comprar um produto no supermercado, seguindo a lógica de uma sociedade que consome coisas e pessoas”, diz. 
Na avaliação da especialista, que cita o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos a era do amor líquido, dos relacionamentos de bolso. “É como vitamina C, que só existe enquanto dura a efervescência”, reforça. No caso do Meu Patrocínio, então, as duas partes, de acordo com ela, permitem-se, por um “contrato”, ser usadas. 
“Há um discurso de independência ou liberação para se fazer o que se quer, confundido com a possibilidade de autorrealização. Esquece-se que quando se lida com o sentimento humano e com afetividade o risco é alto. Minha experiência clínica demonstra que, nessas circunstâncias, o vazio se instala, a vida perde a razão de ser, sobrevém a angústia e a trajetória pessoal perde a cor. A chance de sofrer e causar sofrimento é grande. Estão querendo comercializar algo que é próprio do humano: a liberdade, capacidade de amar e de ser amado”, alerta.

Site Meu Patrocínio