Mayara, Ana Lúcia, Isamara, Lílian e Maria. 

Hoje em Dia


Mulheres de idades e histórias diferentes, mas vítimas da mesma tragédia. Todas foram alvo de feminicídio, crime hediondo que desde março de 2015 já motivou a abertura de 947 inquéritos em Minas, acompanhados pelo Ministério Público (MP).
O número coloca o Estado entre os primeiros do ranking nacional e reúne tanto as mortes quanto as tentativas de assassinatos contra mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Envolve casos de violência doméstica e familiar, além do menosprezo e a discriminação de gênero.
Ontem, em Coromandel, no Alto Paranaíba, um homem matou a esposa a tiros depois de disparar contra o cunhado e a própria filha. Em seguida, ele cometeu suicídio. Segundo informações preliminares da Polícia Militar, o crime teria sido motivado por excesso de ciúmes.
Registros
O cenário, no entanto, pode ser ainda mais trágico uma vez que o feminicídio não é tipificado nos Registros de Evento de Defesa Social (Reds). Como consequência, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) não possui estatísticas que diferenciem os tipos de crime contra a mulher. 
Ainda assim, os números contabilizados em Minas também chamam a atenção. De janeiro de 2015 até o último mês de julho, 941 mulheres foram vítimas de homicídio em Minas: o equivalente a uma mulher assassinada a cada dia nesse período.
Histórico
Em muitos casos, antes de serem mortas, as vítimas são alvo de agressões física, psicológica e até sexual, frequentemente no contexto doméstico e tendo o próprio parceiro como algoz. Foi esse o pesadelo vivido durante 20 anos pela servidora do Ministério Público Lílian Hermógenes da Silva. Mesmo trabalhando na Promotoria de Defesa dos Direitos da Mulher, ela foi morta a mando do marido, em agosto de 2016, em Contagem, na Grande BH.
“A sociedade hoje já tem a informação. É necessário que se leve também o conhecimento das origens do problema para que, assim, surja uma nova consciência, de respeito à mulher como ser humano” (Carla Silene, diretora do Instituto de Ciências Penais)




De acordo com as investigações, o crime aconteceu depois que Lílian rompeu a relação e foi morar com a mãe, a fim de dar um basta na situação de abusos. Insatisfeito, o marido contratou dois homens que abordaram a servidora em uma manhã, na ida para o trabalho, e a mataram com um tiro na cabeça. 
“Nossa família ficou destruída. Só depois soubemos, pelos filhos, o quanto ele era violento em casa. Hoje vivemos uma situação de medo. Não temos uma vida de liberdade”, relata Rose Hermógenes, irmã de Lílian. 
Mudanças
Especialistas avaliam que, passados mais de dois anos da criação da Lei do Feminicídio, pouca coisa evoluiu no campo das políticas de proteção à mulher. A advogada criminalista Carla Silene, diretora do Instituto de Ciências Penais (ICP), afirma que medida dificultou os pedidos de condenação para o crime. “(A lei) passou a exigir que o Ministério Público, para pedir a condenação de alguém pelo feminicídio, tenha que comprovar que o agente matou (a vítima) por ela ser mulher. Uma prova dificílima de ser feita”, explica.
Para Carla, a solução do problema passa pela melhoria da educação das novas gerações. “Se um Estado pretende, verdadeiramente, reduzir a violência contra a mulher, em todos os aspectos, ele deveria promover investimentos na educação e não na punição, mera e simplesmente”.

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