AnuncioTop

Ultimas Notícias

recent

"A lei do amianto que o STF julga só passou por pressão econômica", diz pesquisador

23/08/2017

O pneumologista Hermano de Castro, da Fiocruz, diz que a indústria do amianto intimidou cientistas, financiou pesquisadores para enviesar estudos e patrocinou políticos para manter o comércio da fibra cancerígena 

Por Época

Telhas feitas de amianto, fibra cancerígena. O uso do material foi XXXXXX no Brasil pelo STF (Foto: Thinkstock/Getty Images)

O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou hoje (23/8) o julgamento sobre a possibilidade de banir o uso do amianto no Brasil. O amianto é uma fibra extraída de rochas, muito resistente, usada na produção de telhas e caixas d’água. O material, reconhecidamente cancerígeno, já foi banido por 75 países. No Brasil, estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco proibiram a industrialização e a comercialização. A votação no STF será retomada nesta quinta-feira (24/8). Votaram a favor da proibição três ministros -- a relatora Rosa Weber, Edson Fachin e Ricardo Lewandowski. Votaram contra a proibição quatro ministros -- Marco Aurélio de Mello, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luiz Fux. Faltam os votos de Celso de Mello e Cármen Lúcia (dois ministros, Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso, não votaram porque já advogaram sobre o assunto antes de serem nomeados para o STF).
As fibras de amianto podem causar mesotelioma (um câncer que atinge a pleura, a membrana que reveste os pulmões), câncer de pulmão e também uma espécie de endurecimento do órgão, chamada asbestose, causada pela aspiração das fibras durante a sua manipulação. Os trabalhadores da indústria da mineração estão mais expostos, mas, segundo o médico pneumologista Hermano de Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), toda a população sofre esse risco. “Não é um problema de saúde ocupacional, é um problema de saúde pública”, afirma Castro, que estuda a ocorrência dessas doenças no Brasil. “A população tem contato com o amianto diariamente e não há nível de exposição seguro.” As fibras se dispersam pelo ar pela quebra e manipulação de telhas e caixas d’água e pelo desgaste de pastilhas de freio de carros.

A matéria continua após à publicidade.

A Europa determinou, em 1999, a proibição do uso do amianto a partir de 2005. Na América Latina, o Chile e a vizinha Argentina também já não usam mais o material. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não há amianto seguro e recomenda que a melhor maneira de acabar com as doenças relacionadas ao material é banir o uso da fibra no mundo todo. No Brasil, a discussão se um tipo de amianto, chamado crisotila, seria mais seguro do que outros se usado em condições controladas se arrastou na última década. Segundo Castro, o debate foi criado pela indústria para prolongar a viabilidade de seus negócios. Em entrevista a ÉPOCA, Castro diz que a indústria do amianto intimidou cientistas como ele, financiou pesquisadores para enviesar estudos e patrocinou políticos para manter a produção e o comércio da fibra cancerígena. Leia a entrevista a seguir.


O pneumologista Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Foto: ENSP/Fiocruz)
ÉPOCA - Por que o Brasil ainda discute banir o amianto se outros 70 países já baniram?
Hermano de Castro - Aqui no Brasil tem uma única mina, na cidade de Minaçu, em Goiás, com poder econômico para não banir uma fibra assassina como essa. A que ponto o país chegou. Imagina se uma mina que emprega 150 trabalhadores justifica matar centenas de milhares de pessoas não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O Brasil exporta metade das 300 mil toneladas produzidas aqui por ano. É uma exportação da morte para outros países.


ÉPOCA - A discussão dos últimos anos, se o amianto crisotila é mais seguro e sobre a possibilidade do uso controlado, é justificada?
Castro - Essa discussão foi inventada pela indústria. Para substâncias que causam câncer - não é só para o amianto, é para qualquer substância - o limite de tolerância é zero. Ou seja, eu não posso ter contato com a substância cancerígena porque eu tenho risco de ter câncer no futuro. Ele aparece daqui a 10, 15, 20 anos. No caso do amianto, uma pequena exposição pode gerar um câncer, principalmente o de pleura, chamado mesotelioma. O que a indústria fez foi inventar esse termo de "uso seguro" para garantir a mineração na mina e a produção de telhas e caixas d’água dentro da fábrica. Esse controle é uma fantasia. Ele não existe.


ÉPOCA - Por quê?
Castro - Você pode até ter um pouco de segurança dentro da indústria por conta de equipamentos coletivos de exaustão, ventilação, enclausuramento de processo. Mas, quando a telha sai dali e vai para o comércio, não tem mais segurança. Tem o transporte, o desembarque, a instalação. Elas são furadas, as telhas quebram. São seis milhões de trabalhadores da construção civil que, até por conta da flexibilização da nossa legislação, não têm registro formal e não têm acesso a todos os equipamentos de segurança para mexer com esse material. Depois há o desgaste ao longo do tempo. As telhas ficam envelhecidas,  quebram a ponta, as pessoa que habitam ali embaixo inalam. O risco para o câncer está sempre presente. Não é um problema de saúde ocupacional, é um problema de saúde pública e é por isso que os países desenvolvidos no hemisfério norte baniram.


ÉPOCA - A população no geral também corre riscos?
Castro - A população tem contato com o amianto diariamente. Até mais ou menos uns cinco anos atrás, ainda existiam freios com amianto. Ainda deve ter freio com amianto importado. Cada vez que você freia o seu automóvel e ele tem uma pastilha de freio com amianto, você libera amianto no ambiente, no ar e respira aquilo. Então, todos nós temos possibilidade de ter o mesotelioma. Ele é um câncer muito raro que, de repente, começou a aparecer no século XX. Hoje, no Brasil, há uma média de 250 a 300 mortes por mesotelioma por ano. A metade desses casos não têm história de exposição ocupacional. É exposição ao amianto ambiental. Todos nós respiramos amianto em algum momento, com mais ou menos intensidade, mas quem habita ambientes que têm muita telha tem mais chance de respirar mais amianto por muito tempo -- em baixas doses, mas fica mais tempo exposto. 


ÉPOCA - Como passou a lei de 1995, permitindo o uso controlado, com estudos de décadas mostrando os riscos?
Castro - Há um jogo econômico e político que impede as pessoas de olharem a questão da saúde. A lei de 1995, que regulamentou o “uso controlado” do amianto crisotila, é por causa do poder econômico. É uma mineração que financiou parlamentares, eleições e isso tem um poder, um lobby dentro do congresso nacional e da esfera de poder. Em um documentário francês [A morte lenta por amianto,de Sylvie Deleule, de 2005], um dos então deputados de Goiás, o hoje senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), diz que sua campanha política foi financiada pela indústria da mineração do amianto e que isso é muito transparente.


ÉPOCA - A indústria do amianto no mundo tem uma história de contestar os estudos que contrariam seus interesses. O senhor já sofreu pressão por seus estudos aqui no Brasil?
Castro - Sim. No meu caso, o Instituto Brasileiro de Crisotila abriu um processo para eu explicar um estudo epidemiológico que foi feito aqui. Era um levantamento de mortalidade por mesotelioma. Isso é para intimidar. Na hora que eles me processam, eles não querem intimidar só a mim - porque a mim eles não vão intimidar. No fundo, é para intimidar a comunidade científica que está trabalhando em estudos que comprovem malefícios a saúde de determinadas substâncias e produtos. Você não pode fazer mais estudo que comprovem a nocividade de qualquer coisa que você toma um processo e, normalmente, você não tem amparo institucional, o que deixa você muito vulnerável. É uma ameaça a toda a comunidade científica.

ÉPOCA - Um estudo feito no Brasil sugere que é possível fazer uso controlado do amianto. A indústria de mineração repassou uma verba para a realização do estudo e pagou viagem dos pesquisadores para congressos? Esse tipo de prática da indústria é frequente e pode influenciar no resultado dos estudos?
Castro - Sim, essa é uma estratégia antiga das indústrias. Há um conflito de interesse claro e direto e porque a empresa financiou essa pesquisa. Tem até um debate científico sobre um trabalho em que os pesquisadores se propuseram a estudar 10 mil trabalhadores que passaram pela indústria nos últimos 20 anos. Eles não conseguem os 10 mil, apenas 2 mil trabalhadores - ou seja só 20% do que era necessário. Nesses 2 mil trabalhadores, eles identificaram um caso de câncer. Se você pega 2 mil pessoas e encontra um caso de câncer, está dizendo que o amianto tem até um efeito protetor porque, em 2 mil pessoas, na população em geral, você vai encontrar mais do que um caso de câncer. Quem me garante que nos 8 mil trabalhadores que não foram incluídos no estudo não estão os casos de câncer? Essa amostra é uma amostra viciada, é um viés de seleção como a gente chama em epidemiologia.

ÉPOCA - Quais as consequências da decisão do STF?
Castro -  Se o amianto for banido hoje, haverá uma curva de crescimento dos casos de mesotelioma nos próximos 20 anos. Só depois de 20 anos começa a cair. Se não banir, a tendência é aumentar ano a ano. Aqui a tendência de subnotificação é enorme. A gente registra cerca de 250 casos de morte e isso deve estar subnotificado pela metade ou mais. Alguns países mantêm hoje ainda níveis de 500/600 mortes por ano, como a França. Todo mês de outubro tem uma passeata em Paris pelo banimento do amianto em todo planeta porque, mesmo tendo banido em 2005, até hoje eles têm casos de mesotelioma naquela população que foi exposta jovem. Até hoje morre gente de mesotelioma na França, na Itália, por conta dessa exposição passada.

 

"A lei do amianto que o STF julga só passou por pressão econômica", diz pesquisador Reviewed by DestakNews Brasil on 20:35 Rating: 5
Postar um comentário
DESNEWS

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.