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LGBTfobia afasta torcedores de Atlético e Cruzeiro dos estádios

30/07/2017

A reportagem de o Superfc conversou com torcedores LGBT que sentem aversão e medo do comportamento preconceituoso das torcidas mineiras

Superfc

Imagine um Mineirão pintado de azul e branco nas arquibancadas ou um Independência tomado por um mar alvinegro. Ali dentro, em qualquer um dos cenários, explode uma paixão compartilhada por uma infinidade de pessoas, com seus modos diferentes de torcer, suas manias e suas mais diversas superstições, em uma pluralidade de costumes, de etnias e de opiniões. Só que nem sempre todos cantam juntos. No meio de 60 mil cruzeirenses no Gigante da Pampulha ou dos mais de 20 mil atleticanos na Arena do Horto, existem torcedores invisíveis.
São vozes caladas em meio ao coro de “bicha” no tiro-meta e silenciadas por gritos de “franga” e “maria”, pessoas violentadas por sua própria torcida – e por torcidas adversárias. Não mais palco de celebrações, os estádios se tornam um espaço onde os termos homofóbicos são legitimados por uma “cultura” da maioria esmagadora de amantes do futebol. E, para o mais fraco, o silêncio se torna a escolha mais cabível.
A homofobia é, por definição, rejeição ou aversão à homossexualidade. E é capaz de afastar aficionados dos estádios e alimentar o ódio entre torcedores. A reportagem de o SuperFC foi atrás dessas vozes silenciadas pelo preconceito. E, após dois meses e meio à procura de relatos de pessoas LGBT+, a reportagem reuniu aqui histórias de torcedores que sofreram com a intolerância do futebol dentro e fora dos estádios. Alguns deles, deixaram de frequentar as arenas de Belo Horizonte, devido ao medo patente. Outros, acompanham as partidas in loco em raras ocasiões.
O tema é tão espinhoso que três pessoas voltaram atrás na decisão de dar seus depoimentos minutos antes do horário marcado para as entrevistas, enquanto outros não quiseram ter suas imagens registradas em fotos, com o temor de represálias ou perseguições.

VOZES SILENCIADAS

Uma atleticana envergonhada com sua torcida
Aos 22 anos, Isabella Souza, como todo jovem, tem poucas certezas na vida: o amor pela namorada e a paixão pelo Atlético. “Nasci atleticana, vou morrer atleticana”, contou a moça que confessa não conter as lágrimas quando assiste o time do coração no Independência. “Minha paixão aumentou quando comecei a ir ao estádio sozinha. Sou uma pessoa muito emotiva e quando vi a torcida cantando, a força de vontade para ‘empurrar’ o time para cima, tive certeza de que amo o Galo. A energia do estádio mexe muito com a gente, eu fico tão boba que até choro”, afirmou.
Mas apesar da potência do amor pelo alvinegro, suas experiências na Arena do Horto nem sempre foram positivas. “Fui em um jogo do Atlético contra a Caldense, no ano passado, e teve um momento em que um jogador da Caldense mandou a torcida do Atlético ‘calar a boca’. E então, um senhor que estava a meu lado começou a xingá-lo e dizer ‘você não tem direito de falar nada, porque você é viado’, e as pessoas que estavam com ele também xingavam da mesma forma. Fiquei olhando quieta para aquele senhor e, nesse dia, fiquei muito decepcionada. Eu tive medo de falar com ele e saí de perto porque fiquei realmente assustada. E não reagi porque aquele xingamento vinha carregado com muita violência, com muito ódio, então fiquei com medo de responder e sofrer algum tipo de violência”, desabafou.
Em bares da capital, a situação não é diferente e, sozinha, Isabella também silencia o seu grito de repressão em combate às homofobias presentes no futebol. “São sempre esses gritos de ‘maria’ e ‘franga’, e isso também me faz ter medo, porque se as pessoas gritam com um jogador que está na televisão, imagina com a gente que vai estar lá. Eu não tenho nem coragem de levar a minha namorada a um estádio”, relatou.

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Aliás, o amor pela namorada e pelo futebol caminham lado a lado. A namorada é vascaína, mas assiste a todos os jogos do Atlético com Isabella, sempre em casa. “Eu não levo minha namorada ao estádio por causa da homofobia e da violência. Nós duas temos muita vontade de ir juntas”, explicou.
“Eu teria coragem de dar a mão pra minha namorada no estádio. Acho que a gente tem que se reafirmar independentemente do lugar em que estejamos, é uma espécie de militância. Mas isso não quer dizer que eu não teria mais medo num estádio que em outros lugares, sentiria uma insegurança maior que em qualquer outro lugar”

Um cruzeirense que execra as "brincadeiras"

Para o analista de marketing de 23 anos, João Luiz, “se você é homofóbico dentro do estádio você vai ser homofóbico na vida e no seu cotidiano, não é só uma ação que você tem ali naquele lugar”, declarou. Militante contra a homofobia nas causas esportivas e cruzeirense apaixonado, o rapaz cresceu assistindo a grandes nomes do time celeste como forma de se aproximar do pai.
Esta paixão de berço que o levou diversas vezes para dentro dos estádios e até fez com que ele atuasse como voluntário na Copa das Confederações 2013 não é suficiente para acabar com o medo que o jovem sente e com a revolta que o acomete quando as torcidas trocam gritos homofóbicos. “Se alguém grita ‘bicha’ perto de mim, não tem como eu me manifestar por segurança própria, eu me sinto acuado. O estádio reúne um aglomerado de pessoas que compartilham desta manifestação homofóbica que é mais aceita, porque é tido como brincadeira, 'coisa do futebol'. E não é”, salientou.
Apesar de algumas punições imputadas a clubes e à própria seleção brasileira pelos gritos homofóbicos entoados pelas torcidas, João acredita que as instituições esportivas preferem arcar com as multas em vez de promover campanhas para educar o torcedor. “Não adianta nós querermos ações mais duras dos clubes ou da CBF, porque eles não vão mexer nesse assunto, eles não vão dar a cara a tapa porque a homofobia é algo muito maior que eles, é um comportamento de uma sociedade, e não é restrita apenas aos estádios”, justificou.
Afastado dos estádios pela violência e pelas ofensas a homossexuais, João reencontrou o amor pelo esporte também fora das quatro linhas. O rapaz, natural de Divinópolis, não apenas acompanha os jogos do Cruzeiro – e do Guarani –, como também participa de uma liga do Cartola, na qual costuma figurar entre as primeiras posições. No entanto, conta que conhecidos se surpreendem com seu entusiasmo pelo esporte. “As pessoas ficam muito chocadas quando você fala que gosta de futebol e elas sabem que você é gay. Me perguntam ‘mas você entende de futebol? Você gosta?’. Sim, eu gosto e entendo de futebol. O meu gostar pelo esporte não está ligado à minha sexualidade”.
“Eu fico chocado com o fato das pessoas não entenderem que ‘maria’ e ‘franga’ é algo preconceituoso, e quando você tenta explicar, elas também não entendem que isso é homofóbico e também machista. É difícil explicar porque as pessoas justificam dizendo que ‘é só uma brincadeira, no futebol’. E não, não pode brincar. Aliás, você pode brincar no futebol desde que não seja preconceituoso”.

Ex-cruzeirense, atleticano por três horas

O professor de inglês César Vinícius Magalhães Junior, 33, é gay e ex-cruzeirense. Quando garoto, frequentava o Mineirão juntamente com o padrasto para torcer pela Raposa, uma lembrança de um passado distante, mesmo que inolvidável. A violência incrustada no futebol o afastou das arquibancadas. Mas foi a homofobia quem causou uma rusga quase perpétua em seu âmago.
“Com o tempo, sofrendo bullying por ser gay e sabendo desse vocabulário pejorativo de ofensas, comecei a ter uma aversão ao futebol. Sempre que alguém me chamava para assistir futebol, eu dizia ‘não’ porque eu não queria ouvir ninguém gritando ‘viado’, como se ser ‘viado’ fosse menos. Deixei de gostar de futebol mesmo pela homofobia, não queria correr o risco de apanhar, de voltar para casa com a cara destruída. Não gostava mais de futebol”, afirmou o ex-cruzeirense, que, no entanto, em 2013, se tornou atleticano por, aproximadamente, três horas.
“Tenho uma amiga atleticana que gosta muito de futebol e que me chamou para ver um jogo na final da Libertadores de 2013 num bar da Savassi. Eu não queria ir inicialmente, mas ela insistiu. Eu fui e tive uma experiência diferente. Ali na Savassi, todos os bares estavam lotados, com muita gente assistindo ao jogo. Havia uma energia interessante, não era tão negativa quanto tudo aquilo que eu tinha na cabeça. Talvez porque era num lugar mais eclético, mais ‘neutro’, em que as pessoas não usam esse palavreado de ‘bicha’ e ‘viado’. Acabei curtindo o evento. Fiquei ansioso na hora dos pênaltis. E comemorei o título com uma bandeira nas costas”, relatou.
Só que aquele momento em questão não passou de uma euforia temporária. “Quando fui para a Praça Sete, foi quando tive um momento de pânico e foi quando caiu a ficha. Bateu-me novamente um medo, simplesmente por estar ali, eu com a bandeira do Galo enrolada em mim, gritando e fazendo festa. Eu tenho um jeito afeminado e sofri medo de ser agredido ali. No outro dia, fiquei pensando: ‘o que eu fiz?’”, disse o ex-torcedor, que, apesar desse ódio pelo futebol, chegou a praticar o esporte, recentemente, nas famosas “peladas” envolvendo amigos gays e lésbicas.
“Cruzeirenses e atleticanos ficam falando ‘franga’ e ‘mariada’ (respectivamente), coisa desnecessária. Chamar o outro de ‘maria’ por que? Por que é mulher? Por que é gay? Eu garanto a esses caras que tem muito gay que é muito mais homem que eles. É desnecessário esse tipo de linguagem pejorativa. Eu acho um problema. É um tipo de coisa que a gente precisa se policiar. Até mulher e gay acaba fazendo isso, o que é problemático.”

Paixão pelo Galo, aversão à violência

Costureiro desde os 15 anos, torcedor do Atlético e homem trans, Paulo Santos, 27, tem um prazer enorme para falar do Galo, mas também não se esquece de tecer árduos comentários ao preconceito sofrido por ele e por tantos amigos LGBT+ relacionados ao futebol. A violência e, posteriormente, a homofobia, o afastaram dos estádios, apesar de manter sua torcida pelo alvinegro.
Paulo, aliás, nunca foi aos novos Independência e Mineirão. “Já tem bastante tempo que não frequento estádios. Eu ia quando era criança e adolescente. Era uma época em que nem haviam reformado o Mineirão. Mesmo assim, acompanho o Atlético. Minhas paixões são o futebol e o UFC”, declarou o aficionado atleticano.
Estudante da ONG Transvest, Paulo gostaria que o futebol fizesse jus ao lema de unir pessoas em vez de segmentar classes. “A gente já sofre um preconceito e uma violência muito grandes no dia a dia. E no futebol isso é pior ainda. As pessoas trans evitam estar em determinados lugares, não pelo fato de fugir das coisas, mas pela própria segurança mesmo”, ressaltou.
Questionado se haveria alguma forma de retornar aos estádios para acompanhar seu time do coração, ele disse que ‘sim’. “Com certeza, voltaria, sinto falta disso. É totalmente diferente de ver um jogo em casa ou em um barzinho. A sensação de você estar ali dentro do estádio é diferente, não é a mesma coisa. A adrenalina muda um pouquinho. Mas só voltaria se houvesse total segurança. Meu filho, Gustavo, tem dois anos. Já pensou se eu fosse levar meu filho comigo para um estádio?”, comentou.
“Sendo eu uma pessoa trans, sofreria agressão verbal se fosse a um estádio. Eu me sentiria ofendido. E, por tudo que já passei, eu teria uma reação. A gente começa a ver os preconceitos e as ações físicas negativas sem necessidade. Somos apenas pessoas que temos as nossas diferenças. As pessoas deveriam viver e respeitar as diferenças”.

Agressões às trans

“A única vez que estive num estádio de futebol foi para ver o show da Xuxa, em Uberlândia”. Ludmilla Ferraz, 25, travesti, queria sentir a vibração em uma arena do esporte jogado com os pés, mesmo não sendo torcedora de algum clube específico.
“Nunca fui a jogos. Mas ter uma oportunidade de estar num estádio seria a realização de um sonho. Agressões verbais e físicas das pessoas nos afastam de um estádio. Se um dia isso mudasse, eu gostaria de ir”, completou.
A amiga trans Michelly Colt compartilha da opinião e relata problemas vivenciados com torcedores homofóbicos. “Algumas organizadas são agressivas e extremamente primitivas. Nos domingos, que deveriam significar o lazer de fim de semana e em outros dias de jogos, torcedores hostilizam, xingam e agridem verbalmente e fisicamente a nós, trans”, relatou ela, que culpa, inclusive, os clubes por essa situação.
“Os clubes tinham que fazer campanhas, mas tudo isso começa com eles, que não apoiam, e termina nas ações das torcidas. Deveria haver uma campanha educativa. Nunca fui a um estádio e não me vejo num estádio, pois não há segurança. Só iria se tivesse uma melhora muito grande, mas hoje eu não me arriscaria”, afirmou.
Homofobia nas organizadas
Encontros, churrascos, caravanas e charangas fazem parte do universo das torcidas organizadas. Regadas ao fanatismo e à paixão incomensurável por um clube de futebol, as organizadas agregam boa parte dos torcedores que frequentam os estádios. São pessoas que torcem “profissionalmente”, estão uniformizadas e cantam durante todo o jogo. E neste cenário, “desvios” não são permitidos.
Na busca por personagens, o SuperFC se deparou com um depoimento de uma torcedora, que é bissexual, de uma organizada de Minas Gerais que comentou a realidade da homofobia dentro de grandes torcidas organizadas do Estado.
Em entrevista, a fonte anônima afirmou que “as organizadas não aceitam gays em hipótese alguma”. Foi descoberto que existem acordos “verbais”, regras não escritas e respeitadas à risca que proíbem a presença de homens gays dentro destas torcidas. Em contraponto, a presença de mulheres lésbicas é, inclusive, bem quista.
“As lésbicas são aceitas porque se o torcedor rival vê uma mulher com outra, tudo bem. Mas se ele ver dois ‘caras’ juntos, vira motivo de zoação, vai tirar foto e publicar na internet”, comentou.
Para a entrevistada, pode ser que exista vários casos de membros expulsos de organizadas por sua sexualidade, contudo estas histórias são abafadas. Segundo a fonte, a preocupação em não ter membros gays é tão grande que “tem torcida que não aceita nem brinco ou cabelo colorido”. Além disso, é sabido que torcidas de Atlético e Cruzeiro, em Minas Gerais, romperam relações com organizadas que aceitam torcedores gays nos estádios.
“Tem uma torcida no Rio de Janeiro que é bem aberta a questões de sexualidade e, por isso, virou chacota no Brasil. Muitas torcidas em Minas cobram às outras que isso não aconteça, que se tivessem torcedores gays em organizadas de Belo horizonte, eles iriam morrer”, confidencia.
A questão do respeito é uma das principais justificativas que as organizadas utilizam para não aceitar homossexuais. “Conheço gente que não concorda com os cânticos ofensivos, que é bem desconstruída, mas tem comportamentos homofóbicos e age assim para ser respeitado na torcida”.
“O que acontece na organizada fica dentro da organizada”.
 
LGBTfobia afasta torcedores de Atlético e Cruzeiro dos estádios Reviewed by DestakNews Brasil on 15:38 Rating: 5
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