Para além de investigados, Ministério Público e juízes, um conjunto de protagonistas ganha destaque na trama da operação Lava-Jato: os advogados dos envolvidos.

Hoje em Dia
 
Muitos deles são figurões conhecidos nos centros de poder do país, tendo atuado desde em casos como o impeachment de Fernando Collor ao Mensalão, e cobram milhões em honorários para defender nomes como Marcelo Odebrecht, Aécio Neves (PSDB), Zezé Perrella (PMDB), Dilma Rousseff (PT)e Eduardo Cunha (PMDB).
Outros têm ganhado espaço ao se especializarem na condução da delação premiada dos clientes, instrumento recente e controverso no mundo jurídico brasileiro e que, ao lado das prisões preventivas, tem ditado o ritmo da operação.
Dentre os advogados, mineiros ganham os holofotes. Um dos mais reconhecidos é Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Natural de Patos de Minas, mas radicado em Brasília desde o final do anos 1970, Kakay atua para o senador Zezé Perrella e também foi advogado do doleiro Alberto Yousseff, uma peça-chave nas investigações. Kakay deixou Yousseff quando ele decidiu aderir à delação.
“Não sou contra a delação. Sou contra a forma como ela tem sido utilizada. Você vai lá, mente, omite, fala de 20% do que surrupiou do país... Se for pego mentindo, vai lá e paga um pouquinho mais. É uma vergonha”, diz.
Crítico e bon vivant
O advogado afirma que, diante da crise entre os poderes Executivo e Legislativo, o país tem sido controlado por um “super-judiciário”, que por sua vez é controlado por um “super-Ministério Público”.

Kakay também já advogou para nomes como José Dirceu (PT), no julgamento do Mensalão, bem como a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney (PMDB) e a atriz Carolina Dieckman. Além disso, por cerca de 17 anos foi sócio de um dos ícones de Brasília, o restaurante Piantella, famoso reduto de políticos. Extrovertido, Kakay adora passeios pelo mundo, restaurantes caros e arrisca cantorias ao microfone.
Sobre a relação com os clientes, afirma estar a disposição a qualquer momento. “Sou advogado full time, pode ligar quando quiser. Estamos a disposição o tempo todo para fazer o trabalho”, afirma.
Questionado se eles não teriam medo de serem presos, Kakay rebate que há três anos não tem nenhum detido pela ‘Lava-Jato’, mas pondera o papel psicológico que o advogado desempenha nesses casos.
“Atuamos em casos de muita exposição na mídia. A imprensa é muito agressiva no mundo inteiro, faz pré- julgamentos. Isso é bem difícil para o cliente e o advogado tem que estar atento para poder lidar com a situação”, diz.
Dilma e Aécio concordam em uma coisa: a escolha do advogado

Os adversários políticos Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSBD) partilham um mesmo advogado, o renomado Alberto Toron, que também atuou para Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, e cuida da defesa de Fernando Bittar – do sítio frequentado por Lula em Atibaia.

Outro crítico agudo das delações premiadas e das prisões preventivas, Toron se preocupa com a maneira como o exercício da defesa têm sido visto pela opinião pública.
“As pessoas vêem o direito de defesa como ‘proteção de bandidos’. É o contrário do que vivíamos nos anos 1970, quando, devido ao contexto, havia uma visão contra a repressão de forma geral. Hoje, as pessoas têm uma visão muito repressiva. Vejo isso no olhar delas. E muitas me falam ‘você está defendendo a Dilma, o Aécio?’, como se os dois não tivessem esse direito”.
Em família
Mineiro que caiu no gosto dos figurões envolvidos em operações policiais, Marcelo Leonardo, foi a escolha feita por Andrea Neves, irmã do senador tucano Aécio Neves, pela cúpula da Mendes Júnior, na “Lava-Jato”.

Marcelo que, ganhou notoriedade nacional com a na defesa de Marcos Valério, no Mensalão, é parte de uma tradicional família de advogados criminalistas, cuja fama teve origem com o pai, Jair Leonardo, falecido em 2016.
Jair foi desembargador do Tribunal de Justiça, professor emérito da UFMG e um dos responsáveis pela comissão da revisão do Código Penal, de 1984. Assim como seguiu os passos do pai, o discreto Marcelo deu espaço aos filhos na banca de direito dele, que conta com escritórios em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília.

Maratonista de rua e de delações premiadas

Contrariando o discurso de boa parte dos colegas, o escritório paranaense de Marlus Arns aproveitou o bonde das delações para fazer clientes. Hoje, são cerca de 30 assessorados por ele só na “Lava-Jato”. Ele defende nomes como os ex-diretores da Odebrecht, Dalton Avancini, e Eduardo Leite, bem como o ex-tesoureiro do PP, João Cláudio Genu, solto pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Também assessorou Renato Duque, ex-diretor da Petrobras e, até o vazamento das delações da JBS, o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Como Kakay, Marlus afirma estar a disposição 24 horas por dia, mas conta que ainda assim é possível cuidar da vida pessoal. “A equipe é boa e dá tempo de fazer meu treino - também sou maratonista”, diz.
Ainda assim, ele reforça o cuidado no trato dos clientes. “O direito penal tem uma força brutal. No caso mais simples, de ser testemunha num processo, as pessoas já têm medo de serem presas. Quem nos procura sempre está fragilizado, seja por ter sido preso, ter sido alvo de condução coercitiva, ou outro procedimento”, diz.
Quem também ganhou espaço na defesa de envolvidos na operação foi Nabor Bulhões. Conhecido por atuar para o ex-presidente Fernando Collor e PC Farias no STF, nos anos 1990, assumiu a condução da bombástica delação da Odebrecht, após colocar de escanteio a advogada Dora Cavalcanti. Pulso firme, Dora era sócia do falecido ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Antes de morrer, no fim de 2014, Bastos atuou na articulação da estratégia de defesa das grandes empreiteiras envolvidas no escândalo.