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Belo Horizonte: Olhar conformado para o crack

03/06/2017

Realidade degradante não impressiona mais alguns vizinhos da cracolândia do bairro Lagoinha

 O Tempo
 
 
Local. Principal ponto de concentração de usuários de crack é na rua Araribá, quase esquina com a avenida Antônio Carlos
 
Encravada entre a Pedreira Prado Lopes e o conjunto IAPI, no bairro Lagoinha, na região Noroeste, está a cracolândia de Belo Horizonte há pelo menos duas décadas. Quem mora ou trabalha na área é envolvido todos os dias pelo mau cheiro de fezes e de urina, com os maços vazios de cigarro San Marino espalhados pelo chão e pelas marcas negras na vegetação e nas paredes.
A sensação de muitos moradores da região é a de que moram em um pedaço da cidade em processo de morte lento, causado pelo encontro diário com a indigência. São homens que carregam nas roupas seus próprios excrementos, mulheres que tentam limitar a sujeira com fraldas geriátricas, pessoas com lesões infeccionadas, mas que vagam ignorando a dor. Gente praticamente invisível aos olhos de quem se “acostumou” a ver essas cenas todos os dias. Esse cenário resistiu a toda intervenção do poder público realizada até agora. De tanto esperar, já há uma conformidade com a situação.
Rosilene Fonseca, 53, morou a vida inteira na Lagoinha. Hoje tem dois comércios, um na rua Araribá, local de maior concentração de usuários de crack, e outro na rua Itapecerica. Ela se entristece por ver uma região que poderia ser valorizada, mas está em total decadência. “Estamos aqui, perto do centro, temos infraestrutura, mas somos obrigados a viver em uma área que está sempre suja, onde há lixo humano, porque as cenas que vemos aqui são de uma situação total de indignidade”, disse.
Rosilene contou que a Lagoinha se transformou na cracolândia há 20 anos e que o processo se intensificou nos últimos oito anos. No início, ela se abalava muito ao ver pessoas “vagando como quem já perdeu a alma, sem capacidade até para regular suas necessidades fisiológicas”. Mas ela relata, que de tanto ver isso, já se acostumou.
A sócia de um supermercado que está há 50 anos na rua Araribá que não quis ser identificada acredita que a rua onde se instalou a cracolândia é um local perdido na cidade e que essa situação afasta clientes e também o resto da população da cidade. “A gente praticamente perde uma rua. É tanta sujeira, tanta gente em situação degradante, que é um lugar esquecido. A gente está aqui, trabalhando, e, de repente, vê mulheres que baixam as calças sem nenhuma cerimônia e defecam na rua”, contou.
Assim como Rosilene, ela explicou que a convivência diária acaba com a solidariedade. “De tanto ver isso, nossa compaixão morre um pouco também. No início, tinha alguns que nos cativavam, porque a maioria dos que estão aí é de boas pessoas. Hoje o coração se acostumou e endureceu. É o jeito que temos para continuar aqui”, revelou.
Fracasso.Para um dos líderes comunitários da Pedreira Prado Lopes, que pediu para não ser identificado por medo de represálias, as medidas adotadas até hoje pelo poder público não surtiram efeito, mas ele também considera que só repressão não resolveria, como ocorreu em São Paulo. “Em minha vizinhança, 75% das pessoas estão de alguma forma envolvidas com drogas, seja como usuário ou como traficante. Como mudar a realidade em um cenário como esse? Só com educação e geração de renda. Pelo menos 90% dos viciados em crack vieram de famílias completamente desestruturadas”, avaliou.

Ações priorizam cuidado com o dependente químico


O programa Consultório de Rua, a instalação de câmeras de monitoramento nos pontos de consumo de crack e os Centros de Apoio Psicossocial são algumas das medidas adotadas pelo poder público na tentativa de acabar com a cracolândia de Belo Horizonte. Ao contrário do que acontece em São Paulo, aqui não há ação de repressão aos usuários, e o foco permanece na política de redução de danos
“A premissa é o cuidado em liberdade, apontando para o reconhecimento do sujeito em sua singularidade, em sua maneira única de traçar sua história e de construir respostas frente a suas questões”, explica Valéria Gualberto, referência técnica da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA).
Segundo ela, a avaliação do Consultório de Rua, que começou em 2011 e acompanha atualmente 320 dependentes químicos, é positiva. “Atuamos no sentido da promoção da saúde e dos direitos humanos, de sensibilizar as pessoas para o cuidado, construindo com elas estratégias e saídas possíveis. A principal estratégia é a construção de vínculos”, diz.
Centro de referência. A Secretaria Municipal de Saúde informou que um novo Centro de Referência em Saúde Mental – Álcool e Outras Drogas (Cersam-AD) está em fase final de construção no bairro São José, na região da Pampulha. A data de inauguração e o investimento não foram divulgados.
Hoje, a capital tem três unidades do tipo nas regionais Pampulha, Barreiro e Nordeste. Elas funcionam em regime de porta aberta para demanda espontânea, com atendimentos diários em consultórios e internações, além de receber casos encaminhados por Consultórios de Rua, centros de saúde, Serviço de Urgência Psiquiátrica (SUP), hospitais e abordagem de rua.
Belo Horizonte: Olhar conformado para o crack Reviewed by DestakNews Brasil on 11:28 Rating: 5
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