Os R$ 3,08 bilhões em propina paga a políticos por dois dos maiores conglomerados empresariais do Brasil e do mundo, a JBS e a Odebrecht, cujos executivos e ex-executivos fizeram delações na Operação “Lava Jato”, dariam para construir a Linha 3 subterrânea do metrô de BH, ligando a Estação Lagoinha, no Centro, à Savassi, na Região Centro-Sul, e ainda sobraria dinheiro. 

Hoje em Dia

Também resolveria pela metade o déficit habitacional de BH, que é de 56,4 mil moradias. A propina garantiria 27,3 mil tetos.
De acordo com delações premiadas, os valores foram pagos a políticos em troca de vantagens fiscais, aprovação de medidas provisórias que favoreciam as empresas, entre outros interesses.
Os donos da JBS, os irmãos Joesley e Wesley Batista, disseram ter entregue R$ 1,4 bilhão a 1.829 políticos de 28 partidos, em 214 repasses, conforme consta em 42 anexos apresentados pelos colaboradores. Já as delações da Odebrecht dão conta R$ 1,68 bilhão para 26 partidos.
Os valores não incluem eventuais propinas de outras empresas investigadas, como a Construtora UTC, Andrade Gutierrez e OAS. Algumas mantinham setores para cuidar de vantagens indevidas, os chamados “Departamentos de Propinas”.

A Linha 3 do metrô é orçada em R$ 2,4 bilhões (R$ 490 milhões/km), segundo a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop). O valor inclui cinco estações nos 4,9 quilômetros do ramal, a Lagoinha, Praça Sete, Palácio das Artes, Praça da Liberdade e Savassi.
Os R$ 3,08 bilhões garantiriam a reforma e ampliação dos 28,2 quilômetros de metrô de superfície já existentes, a Linha 1 (Eldorado/Vilarinho), orçadas em R$ 2,9 bilhões (R$ 100 milhões para cada quilômetro). A Linha 1 ganharia mais 1,5 quilômetro, até o Novo Eldorado, em Contagem, Grande BH.
Se a prioridade for o Barreiro, poderiam investir na Linha 2 (Barreiro/Nova Suíça). Os 10,5 quilômetros de metrô de superfície previstos sairiam por R$ 1,6 bilhão (R$ 133 milhões/km).
BR-381
Os R$ 3,08 bilhões são nove vezes o orçamento de R$ 320 milhões disponível neste ano para obras de duplicação de 308 quilômetros da BR-381, da capital a Governador Valadares, Vale do Rio Doce. Os trabalhos começaram em 2014 e andam a passos lentos, sem previsão de término.

Corrupção corrói recursos da saúde, educação e habitação
Cálculos da Associação Contas Abertas, ONG que busca estimular a participação da sociedade no debate sobre as contas públicas, revelam que os R$ 3,08 bilhões dariam ainda para construir 1.540 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) de porte II, com capacidade para atender 250 pacientes/dia (R$ 2 milhões/unidade), e outras 2.200 de porte I, para até 150 pacientes/dia (R$ 1,4 milhão/unidade).
Dariam ainda 870 escolas com capacidade de 433 alunos por turno (R$ 3.537.430,84 cada unidade), segundo o secretário-geral da instituição, Gil Castelo Branco.
Tomando como base a Escola Estadual Romero de Carvalho, em construção em Pedro Leopoldo, Grande BH, o montante da propina daria para construir 628 unidades de ensino semelhantes (R$ 4,9 milhões/unidade). As unidades teriam dois prédios perpendiculares, com três pavimentos no bloco um e dois pavimentos no bloco 2, composta por dez salas de aulas, dois laboratórios de ciências, sala de línguas, sala de informática, biblioteca, salas para a diretoria, supervisão e professores; banheiros/vestiários para alunos, vestiários para funcionários, cozinha, despensa, área de recreio, para circulação e quadra poliesportiva, todos cobertos. O dinheiro seria suficiente para levantar 1.621 creches para 160 crianças cada (R$ 1,9 milhão/unidade).
O dinheiro garantiria teto para R$ 27,3 mil famílias. Daria para construir 90 conjuntos habitacionais (R$ 34,13 milhões/cada), com apartamentos de dois ou três quartos. O valor tem como base o conjunto habitacional em construção pelo PAC Ferrugem, em Contagem, Grande BH. São 19 prédios de quatro pavimentos e 16 apartamentos cada, para atender 304 famílias.


“A corrupção é um crime contra cada um de nós. Na ótica do que a corrupção subtrai dos recursos da saúde, por exemplo, pode-se afirmar que a corrupção mata”

Gil Castelo Branco
Secretário-geral da Associação Contas Abertas.