O roubo cinematográfico realizado por criminosos brasileiros em uma transportadora de valores no Paraguai, na madrugada de segunda-feira, deixou evidente o potencial de destruição das quadrilhas especializadas em crimes contra instituições financeiras. Amparadas com armamento cada vez mais pesado, compatível com grupos terroristas, elas também têm atuado em Minas.
Por aqui, os ataques a caixas eletrônicos, por exemplo, aumentaram 23% de 2015 para 2016, segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Só no primeiro trimestre deste ano, 38 ocorrências foram registradas em território mineiro.
Segundo dados da Associação Brasileira de Transporte de Valores (ABTV), de 2013 a 2016, nove ataques a carros-fortes foram registrados em Minas, sendo que seis aconteceram no interior do Estado e três na capital; no país, há mais de 160 mil caixas eletrônicos em funcionamento
Apesar de todo aparato criado para impedir os roubos, os bandidos têm empregado recursos para romper cofres e até violar vários tipos de blindagem. Os ataques a carros-fortes no Estado não são raros. Levantamento da Associação Brasileira de Transporte de Valores (ABTV) aponta 18 ocorrências de 2009 a 2016, sendo que os ladrões tiveram êxito em mais da metade delas.
O investimento dos marginais em armas cada vez mais letais, na opinião de especialistas, já coloca essas quadrilhas em pé de igualdade com grupos terroristas. 
Professor da Escola Mineira de Segurança, Jardel Moia Monteiro explica que, antes, os bandidos especializados em roubos de valores utilizavam munição antiaérea de calibre .50, capaz de derrubar helicópteros. Mas já há relatos, segundo ele, do uso de lança-rojões contra carros-fortes. 
“É uma arma que se assemelha a uma bazuca e é usada pelo Estado Islâmico, chegando ao Brasil geralmente pelo Paraguai. Os criminosos sempre buscam meios de melhorar, principalmente porque o país tem muitas brechas (facilidade para entrar pelas fronteiras)”, critica. 
Melhorar o armamento dos agentes de segurança privada, no entanto, não é tarefa simples. Monteiro diz que, por impedimentos legais, não é permitido utilizar calibres mais potentes nas empresas de segurança para fazer frente às quadrilhas. “Só são permitidos .38 e .380 (para pistolas automáticas) na escolta de transportes de valores. Mas os bandidos usam o .762, que atravessa as blindagens. Estamos ficando para trás. Na Europa, a segurança privada trabalha com o calibre .556, que é muito mais forte”.
Compatibilidade
Já a Polícia Militar (PM) mineira afirma que o armamento utilizado pelo efetivo é suficiente no combate aos ataques à caixas eletrônicos e carros-fortes no Estado.
“A tropa especializada, como o Batalhão de Eventos e o Bope (Operações Especiais), tem um artefato robusto para fazer frente a isso. Não temos esse estágio de amadurecimento do crime capaz de fazer com que exista essa competitividade. Alguns casos isolados de apreensões (de armas de grande potencial) acontecem, mas são casos pontuais”, afirma o tenente Cristiano Araújo, da Sala de Imprensa da corporação.

Rotina
O militar ressalta que ações específicas para coibir os ataques a caixas eletrônico e carros-fortes existem e são constantes. Além disso, são realizadas operações conjuntas com a Polícia Civil para prender suspeitos preventivamente, evitando novas investidas dos criminosos. 
“Temos uma frente de atuação chamada ‘saque seguro’ com a finalidade específica de reforçar áreas bancárias e onde há muitos caixas eletrônicos. Há um itinerário de segurança para esses pontos, sempre nos últimos cinco dias úteis de cada mês e nos primeiros cinco dias úteis do mês subsequente”, explica o tenente. 
Questionada sobre os projetos para reduzir os ataques a caixas eletrônicos e investimentos na melhoria do armamento das polícias mineiras, a Sesp informou que um grupo foi criado para planejar estratégias para o problema.
Por meio de nota, o órgão disse que “trabalha de forma sigilosa e que as informações são todas confidenciais, justamente para que não haja vazamento de informações que possam atrapalhar os trabalhos”.
Cidades mineiras desabastecidas após ação de criminosos
Das 38 ocorrências envolvendo a tentativa de explosões de caixas eletrônicos em Minas no primeiro trimestre deste ano, apenas em três casos os artefatos não foram detonados. O número ilustra como os bandidos têm obtido sucesso nesse tipo de crime no Estado. 
O prejuízo, no entanto, não é apenas das instituições financeiras que têm perda total dos equipamentos. Em municípios com poucas agências bancárias e caixas eletrônicos, a população fica sem qualquer opção de sacar dinheiro. 
É o caso de Dionísio, no Vale do Aço, onde a única agência do Banco do Brasil foi completamente destruída depois que criminosos destruíram o imóvel em um roubo, em agosto do ano passado. 
Dos 237 ataques a caixas eletrônicos no Estado no ano passado, os explosivos não foram detonados em apenas 27 ocasiões
“Os autores dos crimes já foram presos na cidade de Ipatinga, pouco tempo depois do crime. A agência do Banco do Brasil, no entanto, não foi reaberta na cidade até hoje. Para sacar dinheiro, as únicas opções são o Banco Postal, que funciona dentro da agência dos Correios, ou uma cooperativa de crédito”, explica o soldado Gonçalves, do pelotão da Polícia Militar do município.
Por meio de nota, o Banco do Brasil informou apenas que “o processo de reforma e reabertura da agência Dionísio está em fase de análise pelas diretorias responsáveis”.
Mucuri
Moradores do Vale do Mucuri também vivenciaram o desespero de assistir a ataques coordenados a caixas eletrônicos. 
No início de março, três agências bancárias, sendo uma da Caixa Econômica Federal (CEF), ficaram completamente destruídas durante uma madrugada de violência em Medina e Divisa Alegre.
Segundo a Polícia Civil, pelo menos 15 homens participaram dos ataques utilizando de três carros e uma quantidade ainda desconhecida de explosivos. As duas cidades ficaram sem o serviço bancário por vários dias.
A CEF informou que “informações sobre eventos criminosos em suas unidades são repassadas exclusivamente às autoridades policiais”. 
Projeto de lei
No último dia 17, na Câmara Municipal de BH, foi aprovado, em segundo turno, um projeto de lei que obriga bancos e instituições financeiras a utilizarem, em agências com caixas eletrônicos, película fumê ou adesivo perfurado nas portas e paredes voltadas para as vias públicas.
A proposta 1.996/2016, de autoria do vereador Reinaldo Gomes, visa garantir a segurança dos usuários e também dos bancos. “As pessoas que precisam utilizar os terminais de autoatendimento e o próprio banco ficam muito vulneráveis às ações de bandidos. A película ou adesivo irá tirar a visibilidade de dentro da agência, contribuindo para inibir essas ações”, defende o parlamentar.
O projeto prevê, ainda, que deverão ser disponibilizadas câmeras de segurança e vigilantes nos locais dos caixas eletrônicos após o expediente bancário e nos dias em que as instituições estiverem fechadas. 
Após a redação final, a proposta seguirá para análise do prefeito Alexandre Kalil.