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A Odebrecht expõe a corrupção como ela é

18/04/2017

Chegou a hora de os políticos sofrerem e prestarem contas à lei pelo que fizeram

Época

Com terno e camisa social azuis, sem gravata, Marcelo Odebrecht aparece nas imagens à vontade diante dos procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato. No papel que mais gosta de exercer, o de gestor, presidente de uma das maiores empresas do Brasil, ele discorre sobre as normas para pagamentos lícitos e ilícitos. “Não se teria uma doação, um acerto, sem passar pelo ‘blessing’ (bênção) do padrinho”, diz Marcelo. “No Rio, por exemplo, a relação principalmente com o governo Sérgio Cabral (PMDB) era com o (Benedicto) Junior. Então ninguém faria uma doação ao Cabral ou aos candidatos do Sérgio Cabral sem alinhar com o Junior”, diz. Em seu grupo empresarial, cada político tinha seu padrinho e outros executivos não podiam acertar pagamentos sem o consentimento deste. Propina e doação eram tratadas na Odebrecht com o rigor dos princípios da boa gestão.
A Marcelo cabia organizar os pagamentos de propina e doações eleitorais a centenas de políticos, orientar subordinados para que não fizessem acertos com candidatos que prejudicavam os interesses do grupo e identificar os “padrinhos”. Ele explica isso e muito mais com naturalidade, clareza, chega a esboçar sorrisos ao narrar o que, na verdade, é um desastre institucional sem precedentes no Brasil.

Desde a semana passada estão disponíveis cerca de 900 horas de vídeos, como o de Marcelo, com depoimentos nos quais 77 executivos da Odebrecht explicitam o desagradável cotidiano do submundo que há décadas conecta a política e as empresas. Na terça-feira (11), o ministro relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, suspendeu o sigilo dos 76 inquéritos derivados dos depoimentos que os executivos da Odebrecht deram no acordo de colaboração. Mais de 100 políticos e operadores serão investigados por suas relações suspeitas com a Odebrecht. O rol de investigados traz oito ministros do governo Michel Temer, 12 governadores, 24 senadores e 39 deputados federais – além de quatro ex-presidentes. Chegou a vez de os políticos sofrerem e prestarem contas à lei pelo que fizeram.

Assistir aos vídeos é aprender com profissionais como se corrompe no Brasil. Nada de discursos contra corrupção, sobre esperança e desenvolvimento. Marcelo e seus executivos relatam como uma porção enorme de políticos vive de pedir dinheiro em troca de favores; alguns, como criminosos ousados, fazem achaques diretos. Em um episódio simbólico, o ex-vice-presidente Márcio Faria relata que seu colega Rogério Araújo trouxe um problema: fora avisado pelo lobista João Augusto Henriques que o contrato de cerca de US$ 800 milhões celebrado pela Odebrecht com a Diretoria Internacional da Petrobras, em 2010, só sairia se o PMDB recebesse 5% em propina. “Valor muito alto”, afirma Faria – algo em torno de US$ 40 milhões. “Vamos em frente, paciência, vamos pagar”, diz Faria. Feito o negócio, Faria foi convocado por Rogério a uma reunião com a “cúpula do PMDB”, em 15 de julho de 2010. No local, segundo a delação, descobriu que se tratava do escritório político do então vice-presidente Michel Temer em São Paulo. Temer estava acompanhado dos deputados Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves – um está preso e o outro é réu pela Lava Jato. De acordo com Faria, Temer disse: “Esses jovens, esses rapazes resolvem para mim lá, não estou preocupado”. Temer afirma que “jamais tratou de valores com Faria”.
O pagamento de propina era visto como investimento – e, como tal, precisava ser avaliado a partir de resultados. Quando executivos planejavam fazer pagamentos a políticos que não ajudaram a resolver problemas ou atender a interesses da Odebrecht, Marcelo desaconselhava. Durante sua explanação aos investigadores, ele apresentou um caso de mediação de conflito e avaliação de resultados, referente a doações solicitadas pelo ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em 2014. Havia uma disputa entre Márcio Faria, ex-presidente da Odebrecht Engenharia Industrial, e o ex-diretor superintendente no Nordeste João Antônio Pacífico. “Márcio não se envolvia em campanha, em apoio político. (Mas) ele aí uma vez mencionou ‘eu tô lá ajudando na campanha de Eduardo’. Aí eu falei: ‘Ô Márcio, você não vai fazer nada sem alinhar com o Pacífico’, porque Pacífico que era diretor nosso estava reclamando que Márcio estava ajudando ele quando ele tinha vários problemas com o governo do estado para resolver”, disse.
Os políticos corruptos ficavam à disposição dos empresários da Odebrecht. Outro delator, o ex-diretor da construtora Benedicto Junior, conta que sempre que ele ou o ex-presidente do grupo procuravam o então governador de Minas, Aécio Neves, do PSDB, para tratar de assuntos de interesse da empresa, eram atendidos sem demora. “Me faz crer que as doações ajudaram muito para que ele nos enxergasse como parceiros. Eu não acompanho, mas toda vez que ou eu ou Marcelo pedimos fomos recebidos. Nunca tivemos uma espera para a semana que vem”, afirmou Benedicto Junior. Aécio é o campeão de inquéritos derivados das delações: cinco. 
>> Guilherme Fiuza: A lista anestésica de Fachin
Como presidente, Marcelo se ocupava de coisas mais importantes, como os repasses às campanhas presidenciais e políticos desse entorno. Seus depoimentos criam situações complicadíssimas para os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, além de seus auxiliares mais próximos, os ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci (preso) e Guido Mantega. Mantinha uma conta chamada “Amigo”. “Tinha um saldo de uns R$ 40 milhões, aí o que eu combinei com o Palocci, essa era uma relação minha com a presidência do PT no Brasil”, diz. “A gente sabia que ia ter demanda de Lula, na questão do Instituto. A gente entendia que Lula ainda ia ter influência no PT, como era uma relação nossa com presidência, PT, tudo se misturava.”
Os apelidos revelados pela Lista de Fachin (Foto: ÉPOCA)
Lula era um “Amigo” da Odebrecht desde os tempos do pai de Marcelo, Emílio. Ele relata que a empresa pagava uma mesada a Frei Chico, irmão de Lula, para manter bom relacionamento. Ajudou o filho do ex-presidente a meter-se numa aventura com futebol americano. Veterano, Emílio disse aos procuradores que a cultura dos pagamentos ilícitos a políticos estava enraizada há décadas. “Nós estamos falando de 30 anos aqui. Tudo que está acontecendo era um negócio institucionalizado, era uma coisa normal em função de todos esses números de partidos. Eles brigavam era por quê? Por cargos?”, afirmou.

A mentalidade do patriarca provocou discussões acaloradas com os procuradores da Lava Jato. A divergência girava em torno de acertos de Marcelo Odebrecht com os ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega, que totalizaram cerca de R$ 300 milhões. Emílio chama de “ajuda de campanha”, o que os procuradores dizem com propriedade que é “propina”. “Eu não tenho dúvida que, efetivamente, nada disso que acontecia e que aconteceu conosco não foi correto. Pronto”, disse Emílio.  “Se nós não fizermos determinadas mudanças, nós vamos continuar tendo uma pressão enorme, descontrolada, e aí vai terminar o senhor tendo quase o país (inteiro) na cadeia. Haja cadeia!”
Os pagamentos feitos por vias oficiais eram simples. A dificuldade era realizar os pagamentos de caixa dois, que envolviam dinheiro em espécie, transações com doleiros, transferências bancárias internacionais e outros mecanismos. No exterior, havia quatro níveis de contas em nome de empresas offshore. Só a primeira offshore era vinculada diretamente à Odebrecht, enquanto as outras ficavam em nome de laranjas para ocultar a origem. “A razão ilegítima óbvia é você querer ocultar e dificultar o rastreamento. Se você chega lá na ponta e quebra, se tem problema a quem você pagou por qualquer razão, você não consegue rastrear de volta para a Odebrecht porque você tem três níveis que não têm relação com a Odebrecht”, disse Marcelo Odebrecht.

Em 2007, a Odebrecht criou o departamento de propinas, batizado sob o eufemismo de Setor de Operações Estruturadas. Cuidava da geração de dinheiro destinado ao pagamento de políticos. Esses pagamentos ficavam registrados em um sistema chamado Drousys, concebido para que as informações se apagassem automaticamente. O responsável pelo setor de operações estruturadas era o executivo Hilberto Mascarenhas, pessoa da mais estrita confiança de Marcelo e de Emílio. “Não era eu que operava o dia a dia dessas contas, eu liderava a área muito mais como uma pessoa da confiança da empresa, porque, quando você está lidando com um caixa que é fora da contabilidade, ele pode sumir, então precisava de alguém que garantisse que ele não ia sumir”, contou Hilberto aos procuradores. Segundo o executivo, o uso de doleiros para gerar dinheiro destinado aos pagamentos de propina dava “insegurança” aos gestores.

Falhas na engrenagem criminosa provocaram a derrocada da empresa na Lava Jato – e começaram a ser reveladas com a delação de uma ex-secretária, Maria Lúcia Tavares. Os executivos do grupo, incluindo Marcelo Odebrecht, surpreenderam-se ao constatar que os dados do sistema Drousys não foram apagados, o que reforçou a decisão de partir para a delação premiada. O setor de operações estruturadas forneceu as provas mais robustas contra a Odebrecht. “O Drousys foi uma total surpresa para a gente”, confessou Marcelo Odebrecht, dizendo não fazer ideia que o sistema havia deixado rastros de todas essas negociações ilícitas. Se ele soubesse antes, a resistência a uma delação premiada não seria tão enfática. “Seria burrice”, disse. Por anos, a Odebrecht foi eficiente na operação de negócios ilegais com o governo. Seu sucesso anda de mãos dadas com a derrocada de uma geração de políticos.

 

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