Calçadas esburacadas, moradores de rua, roubos em ascensão, prédios abandonados e camelôs atuando sem qualquer fiscalização. A realidade do Hipercentro da capital mineira vai demandar do poder público uma série de ações para reorganizar o espaço urbano na cidade. No entanto, as estratégias apresentadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para mudar esse cenário ainda são incipientes.
No curto prazo, apenas a repressão ao comércio irregular será uma ação efetiva. De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, os 647 ambulantes que atuam ilegalmente no Hipercentro serão retirados das ruas em, no máximo, 60 dias. Caso haja resistência, o uso da força policial não é descartado pelo órgão. 
De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, os 647 camelôs que atuam no Hipercentro serão retirados das ruas em, no máximo, 60 dias; caso haja resistência dos ambulantes ilegais, o uso da força policial não é descartado pelo órgão
Secretária de Serviços Urbanos da PBH, Maria Caldas explica que haverá um esforço conjunto, com setores de inteligência, para combater também os fornecedores que alimentam esse tipo de comércio por meio do contrabando de mercadorias. 
“A ideia é um cadastramento e o conhecimento das motivações. Sabemos que muitos dos camelôs deixaram suas lojas em shopping populares porque conseguiram empregos melhores, em um momento em que a economia estava aquecida. Com a chegada da crise, muitos deles voltaram a ser camelôs nas ruas”, explica. 
Camelôs
O Hoje em Dia mostrou, em edições recentes, o retorno dos camelôs ao Hipercentro e o aumento da população de rua em toda a capital; hoje, Belo Horizonte tem pelo menos três mil pessoas sem abrigo
Quem ganha a vida como ambulante critica a decisão da PBH. Sidnei Santos, dono de uma banca de chinelos na Praça 7, afirma que a repressão pode tirar os vendedores das ruas por alguns dias, mas a tendência é que aos poucos eles voltem à ativa. 
“Não temos opção. Nosso ramo é esse, a situação do país é uma tristeza e todo mundo precisa trabalhar. Se não fosse tão difícil abrir e manter uma loja, todo mundo trabalharia regularizado”, avalia.
Segurança
O combate ao número crescente de roubos de celulares é outra grande urgência no Hipercentro. Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) indicam que os roubos na região cresceram 23,22% no ano passado, no comparativo com 2015. Até novembro de 2016, foram 2.128 casos, conforme o Hoje em Dia mostrou em 6 de março.
Segundo o comandante da Guarda Municipal, Rodrigo Prates, a estratégia é intensificar a presença de policiais nos locais onde é maior a incidência dos crimes. “Teremos pelo menos cem agentes diariamente nas imediações das praças 7 e da Estação”.
Reformas
As barreiras enfrentadas por pedestres com mobilidade reduzida e idosos no dia a dia do Hhipercentro também estão na lista de melhorias que deverão ser priorizadas pela PBH. Hoje, as calçadas irregulares e a inexistência de banheiros públicos são um grande obstáculo para esse público.
A revitalização da rua Guaicurus, nos arredores da rodoviária de Belo Horizonte, deve ser realizada juntamente com a construção de novos sanitários públicos. Além disso, os banheiros do Parque Municipal deverão ser reformados. 
Para o presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) e idealizador do Movimento S.O.S Hipercentro, Lindolfo Paoliello, a vontade de realizar alguma mudança na região já é algo a ser comemorado.
“Mas, obviamente, é necessário que haja efetividade, agilidade e sustentab ilidade em todas as ações. Dentro de tudo que está proposto, vale lembrar ainda que o combate ao tráfico de drogas precisa continuar sendo forte”, avalia. 
Morador de rua
PBH estuda melhoria no atendimento ao morador de rua; estima-se 3 mil pessoas nessa condição na cidade

Plano em desenvolvimento contempla melhorias no atendimento a moradores de rua na cidade
O crescimento da população de rua é um dos problemas sociais mais gritantes do Hipercentro da capital.De acordo com a Secretaria de Políticas Sociais da PBH, cerca de 3.000 pessoas devem viver, atualmente, nas ruas da cidade. O aumento é de quase 70% em relação ao último censo, que apontava a existência de 1.827 pessoas nessa condição. 

Secretária de Políticas Sociais, Maíra Colares explica que dentre as medidas em planejamento para alcançar esse público estão melhorias da abordagem e do serviço de atendimento aos moradores, a ampliação do atendimento oferecido nos fins de semana, o aumento do número de vagas nos abrigos da capital e a criação de oportunidades para qualificação profissional dessa população. 
“Não queremos maquiar o Hipercentro, desconsiderando a população de rua. Essas pessoas serão acolhidas da forma que devem ser”, afirmou.
Imóvel abandonado Hipercentro de BH
IMÓVEIS – Edifícios abandonados são alvos de projeto ainda sem data para sair do papel
Ociosidade
A ocupação de prédios abandonados também pode ser uma ferramenta para melhorar o potencial do Hipercentro. Segundo levantamentos da prefeitura, pelo menos 92 imóveis estavam totalmente vazios ma região na última medição. Hoje, o número pode ser até maior. 
“Há um estoque de imóveis subutilizados por lá. Dentre as ações, queremos reeditar a lei que incentiva a adequação desses edifícios para o uso residencial”, afirma a secretária de Serviços Urbanos, Maria Caldas. A ação, porém, não tem previsão para sair do papel. 
Para a PBH, as estratégias de planejamento e gestão do Hipercentro abrangem a “ampliação das oportunidades de inclusão social e produtiva e a melhoria das condições de segurança para garantir a vitalidade do comércio, da moradia e da permanência dos usuários, em especial dos pedestres”.
O plano prevê, ainda, o estímulo à diversificação das atividades econômicas na região, incluindo as demandas culturais, para que novos investimentos sejam atraídos. De 2010 a 2015, o Hipercentro teve queda no IQVU, índice que mede a qualidade de vida na cidade.
Para especialista, uso residencial dos imóveis abandonados pode trazer ganhos sociais
Fomentar o uso residencial dos imóveis do Hipercentro pode trazer grandes melhorias sociais para Belo Horizonte. A avaliação é do urbanista Sérgio Myssior. Para ele, todo processo de revitalização é benéfico porque resgata a autoestima dos cidadãos em relação à cidade. 
No entanto, ele ressalta que a diversificação da ocupação do Hipercentro pode unir necessidades da cidade e do cidadão. “Ali estão inúmeras oportunidades de trabalho e renda. Então, é possível aproximar as moradias dessas oportunidades otimizando o tempo e dando mais acesso às pessoas”.
Para Myssior, a mesma ação precisa ser levada para as regiões mais periféricas de BH. “Lá, a situação é inversa. Há um déficit de acessibilidade e predomina o uso residencial, sem trabalho e renda. Portanto, a ação estimula a diversificação econômica, para que as pessoas que habitam mais distante do Hipercentro possam encontrar opções de trabalho”, analisa. 
O urbanista destaca, ainda, que a região Centro-Sul é a que recebe sempre os maiores investimentos na comparação com outras áreas da capital.
“Essa distribuição das ações pode trazer resultados incríveis, como os observados em Medelín e Bogotá, que eram cidades violentas e hoje são referências em qualidade de vida”, observa o especialista.