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Mulher denuncia marido após 20 anos de agressões

31/01/2017

O crime é recorrente em Minas Gerais; só no ano passado, foram mais de 126 mil ocorrências de violência por parte dos respectivos parceiros

O Tempo

Violência doméstica é um ciclo que nunca tem fim
 
A cada hora, 14 mulheres são agredidas por seus companheiros em Minas Gerais. O cálculo parte do balanço de mulheres vítimas de violência no Estado feito pelo Centro Integrado de Defesa Social (Cinds/PCMG). Em 2016, foram 126.710 ocorrências dos mais diversos tipos de violência contra a mulher, incluindo ameaças, violência psicológica, moral e patrimonial, estupro, agressões físicas e verbais. Deste total, 494 homens cumpriram suas ameaças e assassinaram suas respectivas companheiras.
No último fim de semana, a diarista *Estela, 33, decidiu romper o ciclo de violência que vivia com o marido na região metropolitana de Belo Horizonte já há 20 anos. No domingo (29) ele a agrediu fisicamente pela última vez, na frente dos filhos do casal, uma menina de 3 anos e um adolescente de 17, que conseguiu imobilizar o pai antes que a agressão se desenvolvesse para um feminicídio, como o homem havia prometido fazer.
“Eu tinha 13 anos quando demos o primeiro beijo, era uma menina. Por causa disso, minha família até chamou a polícia na época, mas a denúncia acabou não indo pra frente. Foi bem turbulento. Mas eu estava muito envolvida. Sabe aquela paixão de adolescente?”, conta a vítima.
Os dois começaram a se relacionar desde então e o homem, hoje com 57 anos, levou Estela para morar com ele, e se casaram no civil e no religioso há oito anos. “Em todo este tempo eu perdi as contas de quantas vezes fui agredida fisicamente. A penúltima vez que ele me bateu, há quatro anos, um pouco antes da gestação da minha menina, foi a primeira vez que reagi e disse que nunca mais permitiria que ele me batesse. Durou quatro anos para que ele fizesse isso de novo. Os outros tipos de violência, no entanto, nunca cessaram”, lembra.
Violência verbal e psicológica, injúrias e ameaças eram coisas recorrentes no relacionamento. Mas até há pouco tempo, Estela não entendia que essas situações também configuram violência doméstica. Segundo a delegada Ana Paula Balbino, da Delegacia Especializada de Violência Contra a Mulher de Belo Horizonte, é o que mais acontece.
“É importante deixar claro que a lei 11.340/2006, em seu artigo 7º, determina que a violência doméstica não é só física. É a violência psicológica, sexual, patrimonial e moral também. Muitas vezes a vítima não entende que se trata de uma violência, porque faz parte do ciclo de violência em que ela está envolvida. E geralmente, um homem que pratica esses atos não demora para chegar às agressões físicas ou até mesmo, ao feminicídio”, explica.
O maior número de ocorrências de violência contra a mulher está relacionado à ameaças. Dos mais de 126 mil registros feitos no ano passado, 49.471 foram por causa de ameaças feitas pelos companheiros, maridos ou namorados das vítimas. Em segundo lugar, e não por coincidência, estão as ocorrências de lesão corporal: 22.398 registros.
“Ele sempre jogava coisas na minha cara, me xingava. Eu sempre me sentia culpada por alguma coisa. Tudo era eu que fazia, entregava os pratos de comida pra ele na mão, pegava a roupa que ele iria usar para trabalhar e também entregava na mão. Ele nunca me ajudou em nada na casa, não lavava nem o copo de café que tomava. E quando eu não fazia alguma dessas coisas, ele achava ruim. E jogava na minha cara que a casa era dele, que ele que pagava as coisas, que sem ele eu não teria como me sustentar”, exemplifica Estela.
Ela, que trabalha como diarista há um ano e meio e, atualmente, cursa Direito e Gestão Ambiental, já tentou se separar do homem várias vezes, mas sempre caía no mesmo ciclo de violência. “Não sei se por carência ou por ter uma relação um pouco paternal, eu sempre voltava atrás. Principalmente depois que tivemos nossos filhos. Como eu fiquei com ele muito tempo, eu sentia um pouco que foi ele que me criou, que formou o meu caráter, entende?”, explica. E sempre que explica, Estela tem a preocupação de se justificar como se tivesse culpa pela violência sofrida.
A última surra
Na última semana, a vítima tentou conversar diversas vezes com o marido para tratar da separação e chegar a um consenso sobre como seria a relação dos dois e com os filhos a partir daí, mas ele sempre se esquivava. “Temos dois filhos e para mim é importante que eles tenham os pais presentes. Por isso queria chegar a um consenso para tentar manter algum tipo de relação amigável com ele, mas ele sempre dizia que não tinha conversa com ex-mulher. Aí ele foi para um sítio no último fim de semana e me chamou, mas eu preferi não ir. Quando ele voltou no domingo, foi quando decidi ter a conversa definitiva. Eu já não estava mais aguentando essa situação”, conta.
Os dois foram começaram a discutir e Estela falou mais uma vez sobre a separação. “Ele estava frio quando chegou, respondia apenas o que era perguntado. Mas disse que se eu continuasse na casa me separando dele e arrumasse outro homem, ele iria me matar porque não aceitava isso. Na visão dele, por eu estar querendo me separar, é porque estava interessada em algum outro homem. Aí ele tentou pegar o celular da minha mão, como já havia feito outras vezes, já quebrou dois celulares meus. Eu não deixei ele pegar o aparelho e, por isso, ele me jogou entre a cama e a parede e ficou em cima de mim para tentar pegar. Eu bati a cabeça, não lembro nem como, e meu filho apareceu”, relata.
O adolescente conseguiu imobilizar o pai com uma “gravata”, mas mesmo assim, ele continuava puxando o cabelo da esposa. Estela só conseguiu sair da casa quando um vizinho apareceu, alarmado pela confusão, o que também fez com que outro vizinho chamasse a polícia.
Quando os militares chegaram o homem resistiu à prisão e, após o uso de um teaser, foi algemado. A filha do casal, de apenas 3 anos, presenciou toda a cena de agressão até a chegada da polícia, quando uma vizinha pegou a menina e levou para a casa.
“Ele nunca se preocupou com isso, o meu filho mais velho cresceu presenciando cenas assim. Foi por isso que eu também decidi pôr um fim, não queria que a minha filha mais nova também crescesse neste ambiente de violência”, diz.
O dia seguinte
Quando o homem foi levado para a Delegacia de Plantão da cidade onde mora, ele recebeu atendimento médico, por causa dos ferimentos derivados da resistência à prisão, e depois foi liberado. Estela tinha a opção de formalizar a denúncia contra o homem que, sendo assim, poderia pagar uma fiança e ser solto, ou tinha a opção de não formalizar a denúncia. Ela optou pela segunda alternativa.
“Fui informada de que ele seria solto de qualquer forma. E se ele tivesse que pagar a fiança para ser solto, caso eu representasse contra ele, seria pior. A nossa conta no banco está praticamente zerada e ele teria que pegar dinheiro emprestado para pagar. Naquela hora, pensei mais no lado financeiro, nas contas que temos a pagar”.
Isso porque, segundo a Polícia Civil, a soltura do preso mediante fiança só não cabe quando há lesões aparentes na mulher, configurando crime que infringe a Lei Maria da Penha. No entanto, Estela ainda tem um prazo de seis meses para formalizar a denúncia contra o homem, segundo a corporação. Mesmo não representando a denúncia contra ele, ela pediu uma medida protetiva contra o marido, mas ainda não obteve uma resposta sobre ela, apesar de o prazo legal para isso acontecer ser de 48 horas por motivo de urgência e risco de morte.
A Polícia Civil explicou que quando a Justiça defere o pedido de medida protetiva, o suspeito é que recebe a notificação e a ordem de não se aproximar da vítima. Na segunda-feira (30), no entanto, o homem voltou para a casa onde, novamente, ameaçou a mulher. Depois disso, Estela teve que sair de casa com os filhos para se abrigar temporariamente na casa de conhecidos. O homem continua solto e trabalhando normalmente.
Ciclo sem fim
A delegada Ana Paula Balbino explica que situações de violência doméstica, geralmente, envolvem um ciclo de violência, onde a vítima dificilmente consegue sair. “O ciclo começa na iminência dessa violência, depois acontece a violência propriamente dita seguida pela fase que chamamos de lua de mel, que é quando o autor se arrepende, pede desculpas, jura nunca mais fazer aquilo e a mulher acaba perdoando acreditando que não vai sofrer violência novamente, retomando o relacionamento. Depois disso, o ciclo se repete. E dificilmente essa violência cessa. Se o ciclo não for quebrado, a violência vai evoluir para agressão física e até para um feminicídio”, explica.
A delegada também explica que a violência contra a mulher compreende várias formas de violência que não apenas a física. “A violência sexual, por exemplo. A mulher pode ser casada com o homem e ainda assim ser estuprada por ele. Por isso é imprescindível quebrar esse ciclo de violência. A partir do momento em que a mulher se sente ameaçada, ela deve imediatamente procurar ajuda”, diz.
A falta de denúncias por parte das mulheres que vivem em um relacionamento afetivo com seus agressores é motivada por inúmeros fatores. “Dependência financeira, dependência emocional, filhos, medo ou receio do agressor, são algumas das muitas causas que levam as mulheres a não denunciarem. Mas é preciso entender que esse ciclo só vai ter fim se a mulher tomar coragem, se empoderar, buscar orientação, ajuda, e fazer a denúncia”, determina a delegada.
Estela ainda tem medo mas, ao mesmo tempo, se sente aliviada de ter saído de casa. “Eu estou me sentindo livre, não queria que minha filha visse isso, mas ela viu. Estou tentando analisar a situação por outro ângulo e me colocando a responsabilidade de não deixar minha filha crescer vendo isso, como o meu filho viu tantas vezes. Estou receosa sim, hoje vim trabalhar olhando para todos os lados na rua, imaginando ele chegando. Até porque nem a medida protetiva vai me dar muita garantia né. Enquanto andava para o trabalho, só conseguia me lembrar do caso daquela cabeleireira que foi morta dentro do salão”, diz.
Em Belo Horizonte, a Delegacia Especializada de Mulheres fica na av. Augusto de Lima, 1942, no Barro Preto, inclusive o plantão. Em cidades onde não há uma delegacia especializada para casos de violência contra a mulher, a denúncia pode ser feita em qualquer delegacia ou mesmo pelo telefone 180. Neste mesmo número, é possível obter, de forma anônima, informações e orientações sobre como proceder e se reconhecer como vítima de violência.

*Nome fictício

 

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Mulher denuncia marido após 20 anos de agressões Reviewed by DestakNews Brasil on 19:33 Rating: 5
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