O hipercentro da capital está lotado de trabalhadores informais que vendem de tudo nas calçadas e desafiam a fiscalização da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). O retorno dos ambulantes ocorre após pouco mais de uma década de os primeiros shoppings populares terem sido inaugurados, com o objetivo de retirar os camelôs da região.
A crise econômica que assola o país desde 2014 e o aumento do desemprego são as principais razões para o crescimento da informalidade, apontam especialistas.
Tem de tudo
Lingerie, cortador de cabelo, óculos de sol, chinelo, pen drive, ralador de vegetais, roupa de cama, brinquedos e cigarros são alguns dos produtos com procedência duvidosa que podem ser encontrados nas bancas.

Um dos principais pontos de venda fica na rua São Paulo, entre a avenida Amazonas e a rua dos Carijós, no quarteirão da Galeria do Ouvidor.
Sem se identificar, a equipe do Hoje em Dia esteve no local e conversou com alguns comerciantes ilegais. Um dos ambulantes aluga uma loja no Oiapoque, um dos mais conhecidos shoppings populares de BH, também no Centro. Lá, vende aparelhos de cortar de cabelo. No entanto, decidiu montar uma banca na rua São Paulo para divulgar o ponto no shopping, além de tentar aumentar o lucro. Na calçada, oferece o produto a R$ 65, mas abre a mesa de negociações antes mesmo de o cliente dizer que não quer o aparelho.
No mesmo quarteirão, a vendedora de lingeries expõe as mercadorias e garante que troca as peças íntimas se a clientela não ficar satisfeita. Com uma placa afixada em um poste, informa que os preços são de R$ 20 e R$ 25, mas agora está tudo na promoção, por R$ 20. No cartaz, também apresenta as formas de pagamento: aceita cartões de crédito de duas bandeiras diferentes.
A multa por vender sem licença dentro da avenida do Contorno, no Centro, é de R$ 1.902,65. A mercadoria pode ser apreendida. Fora da Contorno, a penalidade é R$ 792,75
Uma vendedora de óculos que imitam marcas famosas também expõe no mesmo quarteirão e oferece os acessórios a R$ 20. Ela até empresta um espelho para que o cliente experimente e veja se ficou bom. Se o interessado reluta em comprar, ganha um desconto na hora.
Na esquina das ruas São Paulo com Carijós, uma grande banca oferece chinelos inspirados em uma marca famosa por R$ 10, com estampas de flores e personagens de desenhos animados. As vendedoras garantem que não há problemas com a fiscalização.

Torero
ONDE – Um dos principais pontos de venda é a rua São Paulo, próximo à Galeria do Ouvidor
Informalidade
Segundo o analista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Minas, Gustavo Fontes, pesquisas demonstram que a quantidade de trabalhadores vinculados a empregos formais tem caído nos últimos dois anos.

“Em parte, a gente observou um aumento sobretudo de pessoas que trabalham por conta própria. A gente pode inferir que pelo menos uma parte da população, para se inserir no mercado, trabalha por conta própria”, afirma.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (PNADC), do IBGE, o número de pessoas que trabalham por conta própria em Belo Horizonte subiu de 427 mil no primeiro trimestre de 2014 para 551 mil no terceiro trimestre do ano passado.
Isso representa um aumento de 124 mil (29%) pessoas sem carteira assinada na cidade. Esse número inclui tanto os vendedores ambulantes como profissionais liberais que trabalham sem vínculo empregatício. No entanto, Gustavo Fontes diz que na última pesquisa do IBGE – com dados do último trimestre do ano passado – o número de pessoas que trabalham por conta própria parou de crescer.
Informalidade é círculo vicioso que prejudica economia, diz CDL
A venda de mercadorias nas ruas é vista pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) como maléfica não apenas para os comerciantes, mas para a economia do país.
“É muito ruim, uma concorrência desleal que, com o tempo, vai agravar ainda mais o desemprego. É um círculo vicioso. O governo acaba permitindo que essas pessoas ocupem as ruas, porque está tendo um período social complicado, com alta de desemprego. Mas a concorrência desleal acaba atrapalhando o comércio, e consequentemente as empresas acabam tendo que demitir”, avalia o vice-presidente da CDL, Marco Antonio Gaspar.
Ele afirma que a entidade tem mantido diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para tentar coibir a prática. “Estamos trabalhando com o Kalil (prefeito). Ele diz que vai fazer um trabalho para acertar isso”, afirma.
A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos foi procurada para esclarecer quais ações são realizadas para evitar a volta dos camelôs e para apresentar números de apreensões realizadas pela fiscalização, mas não retornou até o fechamento desta edição.
Melhora só em 2018
O economista Reginaldo Nogueira, coordenador dos cursos de graduação do IBMEC, avalia que a informalidade no mercado de trabalho só deve começar a diminuir no fim deste ano ou em 2018.

“A solução das pessoas acaba sendo a informalidade para pagar as contas básicas. O cenário mais provável é uma economia que só comece a melhorar no fim do ano, e a melhoria do mercado de trabalho, só em 2018”, avalia.